chico mello, 20 anos entre janelas - música experimental de 1987 a 2007

19 de janeiro de 2012 - por gil

chicomello_20anosentrejanelas_foto_gilsoncamargo_mon_curitiba21_01_2012

Radicado há 23 anos na Alemanha, o compositor curitibano Chico Mello retornou a cidade natal para o lançamento do CD “20 anos entre janelas - música experimental de 1987 a 2007″. O evento aconteceu no dia 21 de janeiro, no auditório do Museu Oscar Niemeyer (imagem acima), integrando a programação da Oficina de Música de Curitiba. Além de conversa com o artista, houve a exibição da ópera “Destino das Oito”, sessão de autógrafos e venda de CDs.

chicomello_foto_gilsoncamargo20101Durante a gravação de ” Novela Instrumental”, na Capela Santa Maria, Curitiba 2010.

CLIQUE E OUÇA - Novela Instrumental
Composição: Chico Mello
Com Rodrigo Capistrano, sax soprano; Maria Ester Brandão, violino; Marcelo Lemos da Silva, viola; Jamil Bark, fagote; Sérgio Albach, clarone; Maria Helena Carvalho Salomão, contrabaixo; Carlos Alberto Assis, piano; Paulo Demarchi, percussão.

Essa coleção de CDs pretende tornar acessível ao público uma parte do que venho desenvolvendo há mais de 20 anos em música experimental.

O título se refere a entre janelas é uma peça que não aparece registrada aqui, apenas sua parente próxima, Serenata para Espinosa, na qual coexistem mundos sonoro-gestuais heterogêneos e quase incompatíveis. No entanto, a estrutura reiterativa que os articula desloca a percepção para o fundo que os envolve: a eternidade da experiência do tempo, o vão entre os eventos. Para mim, uma boa metáfora para o deslocamento de minha percepção no meu constante deslizar entre mundos heterogêneos: música experimental e música popular, corporalidade e teoria, Alemanha e Brasil, intimidade e outridade.

Dentre as peças que escrevi entre 1987 e 2007/08 escolhi as que me pareceram mais representativas daquilo que tem me movido internamente. As peças estão agrupadas em três CDs - ou três janelas - que abrem três distintas perspectivas de composição. No CD 1 - SOLO/CÂMARA/ORQUESTRA, a formação instrumental é o ponto de partida. No CD 2 - MAL-ENTENDIDOS MULTICULTURAIS, o ponto de partida é a existência paralela de culturas sonoras díspares. No CD 3 - MÚSICA INSTRUMENTAL CÊNICA, o foco oscila entre o som e a gestualidade, a corporalidade da performance musical.

Uma parte dos registros fonográficos provém de gravações ao vivo de estréias na Alemanha, outra de produções em estúdio realizadas em Curitiba. Essa heterogeneidade geográfica e de produção, além de seu aspecto biográfico, é também um convite a um passeio pelo vão entre os sons, entre os tempos, entre os lugares.

Chico Mello, Los Angeles, abril de 2011.

chico mello
Skype com Octavio Camargo, Los Angeles/Curitiba, abril de 2011.

Este projeto teve o incentivo da Fundação Cultural de Curitiba através da Lei Municipal de Incentivo a Cultura, com patrocínio da Volvo do Brasil.

Ficha técnica:
Gravado e mixado por Gramofone+Musical (www.gramofone.com.br)
Técnicos de gravação e edição: Alvaro Ramos, Fred Teixeira e Rogério Naressi
Assistência: Diego Plaça
Técnicos de mixagem: Rogério Sabatella e Rogério Naressi
Mixagem: Chico Mello e Rogério Sabatella
Textos e tradução: Chico Mello
Revisão de tradução: Susan Herbert, Craig Havens e Octavio Camargo.
Fotografias , projeto gráfico e editoração: Gilson Camargo/Supera Editorial
Impressão: Maxigráfica
Idealização e coordenação do projeto: Mara Fontoura e Paulo Demarchi
Marketing Cultural: Gramofone+Cultural
Contato: chicomello@gmx.net

folias de reis do norte do paraná

6 de janeiro de 2012 - por gil

foliasdonorte_foto_gilsoncamargo_foliasdereis_05_01_11_parana1885
Companhia de Santos Reis Grupo Menino Deus. Londrina, PR

CLIQUE E OUÇA - Viagem dos Reis
Companhia de Santos Reis - Grupo Menino Deus

A região Norte do Paraná apresenta uma grande concentração de folias de Reis que mantém a tradição de cantar o nascimento do menino Jesus e a visita dos reis Magos pedindo ofertas para a realização de festas comunitárias.

O projeto Folias do Norte do Paraná, realizado pela Olaria Projetos de Arte e Educação, documentou nove companhias de Reis desta região do Estado com o objetivo de registrar em áudio, foto e vídeo as práticas e os saberes destes grupos.

No período entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, uma equipe de pesquisa acompanhou o giro das companhias, as visitas às casas, as chegadas de bandeiras, entrevistando foliões, moradores, anfitriões. Deste trabalho resultaram imagens e histórias da vida e das festas da região.

foliasdonorte_foto_gilsoncamargo_foliasdereis_11_01_11_parana6147
Companhia da Bandeira Esperança. Alto Paraná, PR

A folia de Reis provavelmente chegou ao Brasil nos primórdios da colonização, trazida pelos portugueses que ainda hoje costumam “cantar os Reis” ou “cantar as Janeiras” de porta em porta pedindo uma prenda.

Os Reis Santos, como são chamados por muitos, ganharam fama em quase todo o Brasil pelos milagres a eles atribuídos, contados por seus devotos que, cumprindo promessas, realizam festas, cortejos, ofertas e banquetes em sua honra. Dessa forma, a folia de Reis firmou-se no país como uma tradição que congrega não somente a expressão musical e literata do povo, mas um conjunto sociocultural de formas de pensar, de viver e de interpretar o mundo, marcando na sua caminhada valores como a união entre os que compõem a comunidade, a experiência do homem com o sentido do divino, a partilha por meio da festa comunitária e o rito de passagem de um ano para o outro celebrado no agradecimento sincero e na promessa de continuar foliando Reis.

No Brasil, a folia de Reis também pode ser chamada de companhia, embaixada, terno, bandeira, entre outras denominações. Nesta tradição musical popular, um grupo de homens sai a pé, a cavalo ou de barco (e mais recentemente veículos motorizados como carros, caminhões, ônibus) visitando casas e fazendas, em geral no período de 24 de dezembro a 6 de janeiro (dia de Reis), contando em versos e canções a viagem dos Reis magos que, seguindo a estrela de Belém, foram visitar o Menino Jesus recém-nascido.

As folias, em sua organização e seus propósitos e percursos, traduzem os valores do homem do campo. Nas suas incursões anuais às pequenas comunidades e às casas dos devotos, levam mais que cultura: levam informações. Dão notícias dos amigos, reportam a situação econômica local, alimentam o diálogo e a oportunidade de encontro, reforçam um modo de vida e um sistema de valores ligados ao Brasil rural. Nestes delicados laços, tecidos ao longo de anos de amizade, de fé e de esperança, as companhias incorporam em suas visitas um papel de interlocutores nas comunidades.

Esses grupos dependem de sua própria organização e do apoio de seus pares para cumprir a tarefa do ano. Eles seguem enfrentando na região as recentes e intensas mudanças no contexto rural com os naturais reflexos nos microcosmos das folias de Reis.

A proposta de documentar as Folias do Norte do Paraná, realizada no âmbito do projeto de cooperação técnica entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), surgiu como demanda do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead), integrando uma trajetória de pesquisa relacionada à valorização da memória e das manifestações culturais do campo. Ao compartilhar esses saberes e essas memórias, a documentação aqui disponibilizada contribui ao propósito da consolidação de uma agenda de desenvolvimento rural sustentável e solidário.

foliasdonorte_foto_gilsoncamargo_foliasdereis_07_01_11_parana3755
Companhia Nossa Senhora da Esperança. Sarandi, PR

Registrar e divulgar, dando mais visibilidade a esta e outras tradições populares, traz diferentes pontos positivos. Entre eles, o de mostrar para a sociedade que o trabalhador rural tem uma participação expressiva na construção da história de seu país. Mais ainda, estimula a percepção de que o homem do campo tem uma identidade com o seu contexto que o leva a superar obstáculos e que, com frequência regular, ativa a memória cultural das comunidades por meio de suas expressões artísticas. Este projeto também busca contribuir para que o trabalhador rural se perceba como colaborador para maior inclusão social, um ser que chama a atenção para o seu contexto, que sabe cada vez mais da importância do patrimônio imaterial, que está interessado em fortalecer sua cultura.

Realização
Olaria Projetos de Arte e Educação

Coordenação geral
Lia Marchi

Equipe de pesquisa de campo
Pesquisa e direção: Lia Marchi
Produção executiva: L.M.Stein
Diretor de fotografia: Toni Gorbi
Fotos: Gilson Camargo
Operação de câmera: Marcelo Oliveira
Som direto: Vinícius Casimiro
Eletricista: Claudinei Macedo
Motorista: Nelson Ricardo de Oliveira

foliasdonorte_foto_gilsoncamargo_foliasdereis_05_01_11_parana_site

No endereço http://www.foliasnorteparana.com.br/, encontram-se os caminhos da pesquisa e os registros dos grupos que acompanhamos numa rota que inclui Londrina e Maringá, duas das principais cidades da região e do estado do Paraná. Nelas e entre elas, a presença do campo – latente nos homens e nas mulheres que colonizaram o Norte do Estado, desbravaram as matas, trabalharam na terra vermelha e construíram as cidades.

Produção do site
Concepção e textos: Lia Marchi
Designer: Invisible Design / Paulo Oliveira
Edição dos vídeos: Alexsander Macedo
Revisão de textos: Caibar Pereira Magalhães Jr.

clássicos curitibanos - pax, de paulo munhoz

21 de dezembro de 2011 - por gil

Pax (Curta-metragem / 2005, Animação Stop-Motion, 35mm, 14´)
PAULO ROBERTO MUNHOZ é cineasta, proprietário da Tecnokena Produtora Audiovisual

Éneas Lour - Rabino
Mauro Zannata - Padre
Mário Schoemberger - Xeque
Tupaceretan Matheus - Monge / Preto Véio

Direção, fotografia e montagem: Paulo Munhoz
Roteiro: Paulo Munhoz e Érico Beduschi
Animação: Walkir Fernandes e Odirlei Seixas
Design de personagens: Ayrton Scorsato
Moldes e resinas: Felipe Grosso e Odirlei Seixas

exposição coletiva - fidel cuba - curitiba/pr

10 de novembro de 2011 - por gil

expo_semlicenca_foto_gilsoncamargo_curitiba_05_11_11_bar_fidelcuba_viradacultural1
Fotógrafos participantes:
Téo Pitella, Samuel Kowalski, Roberto Pitella, Robert Amorim, Pedro Vieira, Milena Costa, Karla Keiko, J.S. Vieira, Guilherme Zawa, Guiga Trancoso e Gilson Camargo.

O Fidel Cuba trabalhou durante a Corrente Cultural e promoveu a exposição “Sem Licença”. Aos que forem ao bar, ou aos que assistirem algum show nas ruínas do Largo da Ordem, não percam a primeira exposição fotográfica em uma galeria a céu aberto em Curitiba. Onde? Na frente do Fidel. No muro do antigo Clube Operário.
Fidel Cuba

expo_semlicenca_foto_gilsoncamargo_curitiba_05_11_11_bar_fidelcuba_viradacultural
Roberto Pitella e Pedro Vieira durante a colagem das imagens no muro da Sociedade Operário, em 05/11/2011.

Fotografei o Chico Science e a Nação Zumbi em Curitiba pela primeira vez em 1994, em sua estréia na cidade. Impressionado com a performance dos pernambucanos, não perdi mais nenhuma das apresentações que eles fizeram por aqui. A fotografia colada no muro na exposição organizada pelo pessoal do Fidel é do seu segundo show no saudoso Aeroanta. Escolhi esta imagem pela oportunidade de imprimir e fazer participar da Virada Cultural nas ruas de Curitiba, esse artista que defendia a preservacão das origens e valores regionais sem o medo da assimilação de elementos externos, e nos deixou uma obra inspiradora e universal.
Gilson Camargo

expo_semlicenca_foto_gilsoncamargo_curitiba_05_11_11_bar_fidelcuba_viradacultural3

CLIQUE E OUÇA - Monólogo Ao Pé Do Ouvido
Chico Science e Nação Zumbi

a ciclofaixa de lazer e a bicicletada - curitiba/pr

24 de outubro de 2011 - por gil

ciclofaixaxbicicletada_curitiba23_10_2011_foto_gilsoncamargo3
Rua Tibagi, entre Marechal Deodoro e XV de Novembro, no centro da cidade.

Cerca de 300 ciclistas protestaram ontem de manhã contra o Circuito Ciclofaixa de Lazer, inaugurado pela prefeitura de Curitiba no fim de semana. O circuito, com quatro quilômetros de extensão, foi criado para oferecer, em determinados dias e horários, vias exclusivas para bicicletas em ruas centrais da capital paranaense. Mas as faixas foram pintadas do lado esquerdo da via de rolamento, contrariando o que está previsto no artigo 58 do Código de Trânsito Brasileiro. Em protesto, os manifestantes ignoraram a demarcação e circularam pelas pistas da direita, pedindo também o funcionamento de ciclofaixas todos os dias da semana.

O chefe de gabinete da prefeitura de Curitiba, José Andreguetto, afirma que o município não tem condições de operar a ciclofaixa de lazer semanalmente, por falta de estrutura e pessoal. Segundo ele, agentes de trânsito e guardas municipais já estariam envolvidos com outros eventos do calendário da cidade, o que impediria a operacionalização semanal da estrutura.

O casal Guilherme Langner, 27 anos, e Karina Rafailov, 24, aprovou a novidade. Os dois passaram a tarde estreando a ciclofaixa. “Agora é expandir e melhorar as ciclovias existentes”, afirma Guilherme. O casal usa a bicicleta eventualmente para trabalhar. Em média, utilizam o veículo quatro dias por semana. “Pedalamos sempre. A ciclofaixa é um primeiro passo importante”, conta o rapaz.

texto: Gazeta do Povo/Paraná, 24/10/2011

Enfim, após anos de Bicicletada reivindicando investimento em estrutura para a mobilidade urbana, é com muita insatisfação que recebemos a primeira proposta do poder público para a Bicicleta.
A nova ciclofaixa que será inaugurada no próximo dia 23/10 possui 4 km de extensão, e não tem um plano de metas apresentado em seu projeto de expansão, trata-se de um circuito fechado no centro da cidade, e o pior: funcionará somente uma vez por mês.
Lembramos que as ciclovias de Curitiba possuem um papel recreativo e não interligam os pontos de grande trânsito da cidade, além de se encontrarem em péssimo estado de conservação.
Com isso, a atual estrutura cicloviária (esta ciclofaixa mais as ciclovias) não favorece substancialmente um projeto de mobilidade urbana sustentável, que venha a fazer com que as pessoas definitivamente usem a bicicleta no cotidiano para se locomover de modo geral nas atividades do dia a dia.

Chamada para o evento Bicicletada Curitiba Extra 23/10: Por Uma Ciclofaixa de Verdade.

ilíada, canto 1 - claudete pereira jorge - mini guaíra

30 de setembro de 2011 - por gil

claudetepereirajorge_iliada_canto1_foto_gilsoncamargo_miniguaira_02_10_2011_curitiba1

O Canto I da Iliada, com Claudete Pereira Jorge, esteve em cartaz no Mini Auditório do Teatro Guaíra, em Curitiba/PR, dos dias 29 de setembro à 9 de outubro de 2011. A montagem contou com iluminação de Beto Bruel e figurino de Ricardo Garanhani. A operação da luz durante a temporada foi realizada por Danielle Regis. O projeto gráfico dos materiais impressos, cartaz, banner e folders foi desenvolvido por Marcelo De Angelis e a fotografia é de Gilson Camargo. O espetáculo é patrocinado pelo Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, com incentivo da Copel e Sanepar e apoio da Secretaria de Estado de Cultura do Paraná através do Conta Cultura, Teatro Guaíra e da RTVE - Paraná. A realização é da NBP Produções e da Cia. Iliadahomero de Teatro.

iliada_canto1_claudetepereirajorge_foto_gilsoncamargo_08_10_2011_miniguaira11

Sinopse do Canto 1 da Iliada de Homero:
Após invocar a Musa, Homero narra a expulsão de Crises, sacerdote de Apolo, por Agamenon, rei dos gregos. O sacerdote oferece ouro em resgate de sua filha Criseida, prisioneira de guerra e escrava predileta de Agamenon. O rei não aceita a oferta e ameaça o sacerdote de morte. Crises foge, humilhado, e roga vingança ao deus Apolo que inflige uma terrível peste aos gregos. A situação se agrava até que Aquiles, inspirado pela deusa Juno, protetora dos gregos, convoca os aliados para uma assembléia e propõe que se consulte um adivinho. Calcas Testórides, o adivinho, por temer a reação de Agamenon, pede proteção a Aquiles antes de falar. Aquiles, em tom arrogante, garante proteção ao adivinho. Calcas Testórides revela a origem da ira de Apolo e vaticina que o Deus se aplacará somente quando Criseida for restituída ao pai acompanhada de uma hecatombe. Agamenom se vê obrigado a libertar Criseida, mas, para ressarcir-se da perda, ameaça Aquiles de tomar-lhe à força sua escrava predileta, Briseida. Aquiles, ofendido, avança sobre Agamenon para matá-lo, porém, desiste do intento por interferência de Minerva e o agride apenas verbalmente, jurando retirar-se doravante da guerra. Nestor Nelides, ancião respeitado entre os gregos e exímio orador, intervém. O velho pede moderação à ambos. Aquiles se retira da assembléia, e desesperado, procura sua mãe, a deusa Tétis, a quem pede vingança. A mãe, compadecida, promete intervir em seu favor junto à Júpiter assim que ele retorne ao Olimpo. Agamenon manda arautos buscarem Briseida. Aquiles, em obediência à Minerva, concede que a levem. Neste ínterim, por ordem de Agamenon, Ulisses comanda a expedição para devolver Criseida ao pai. Os sacrifícios são realizados, o sacerdote retira a maldição e Ulisses retorna ao acampamento dos gregos. Passados 12 dias, Tétis assedia Júpiter no Olimpo e pede vingança contra Agamenon pela injúria ao filho. Júpiter, por dever favores à Tétis, concede ao pedido, mas teme represálias dos deuses que o acusam de favorecer aos troianos. Juno, enciumada e percebendo a artimanha de Tétis, inquire Júpiter sobre a visita inesperada. Júpiter reprime a esposa por lhe fazer perguntas indiscretas e ameaça dar-lhe uma surra. Juno retira-se chorosa com os demais deuses e é consolada por seu filho Vulcano, que faz chiste de si mesmo, e mancando, lembra à mãe do castigo que recebeu por ter ousado contrariar seu pai. Anoitece, cai o sono sobre os deuses e todos vão dormir como se nada estivesse acontecendo.
Octavio Camargo

octaviocamargoclaudepereirajorge_teiliada_canto1_foto_gilsoncamargo_miniguaira_02_10_2011_curitiba
Octavio Camargo e Claudete Pereira Jorge durante ensaio no mini auditório do Teatro Guaíra.

O espetáculo vem percorrendo diversas cidades brasileiras desde 2005, e foi apresentado na Biblioteca Pública do Paraná, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo e na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Na Europa, a performance foi apresentada nas cidades de Berlim, Skopje, Amsterdam e Atenas. Em 2006, participou da I Bienal de Arte Contemporânea de Thessaloniki, na Grécia.

claudetepereirajorge_iliada_canto1_foto_gilsoncamargo_miniguaira_curitiba

Uma apresentação extra foi realizada no dia 11/10/11 para gravação em vídeo. A documentação, destinada à produção de um programa televisivo, foi feita pela equipe da TV Educativa do Paraná, com direção de Cyro Ridal.

Assista acima a um fragmento do espetáculo gravado em vídeo. Abaixo, o discurso de Nestor, em texto integral na versão de Manoel Odorico Mendes.

“Numes eternos, oh! que luto à Grécia!
Oh, que júbilo a Príamo e a seus filhos!
Folgue Ílio à nova de que assim litigam
Os de mor pulso e tino. Obedecei-me,
Sou velho, ó moços. Tido em boa conta
Com melhores que vós me dava outrora.
Varões vi nunca, nem verei, qual Drias
Das gentes regedor, Ceneu e Exádio,
Um Pirítoo, um divo Polifemo,
Teseu Egides a imortais parelho.
Outros como estes não nutria a terra:
Feros pugnaram trucidando a feros
Montícolas Centauros. Lá de Pilos,
Da Ápia eu vinha rogado; conversava-os,
Quanto era em mim nas lutas me exercia.
Ninguém dos vivos de hoje os contrastara;
Atendiam contudo os meus conselhos:
Atendê-los vos praza. Ao mais estrênuo
Tu não tomes dos nossos a só paga;
Nem de ao rei contravir, Pelides, cures;
Dos eleitos que Júpiter estima,
Cetrígero nenhum se lhe equipara:
Mãe deusa te gerou, valor te sobra;
Tem ele mais poder, que impera em muitos.
Eu to suplico, Atrida, a fúria amaina,
Sê brando para quem nesta árdua empresa
É baluarte e escudo aos Gregos todos.”

Print

Link para a página da Associação Cultural e Artística Ilíadahomero.

centenário do lançamento do livro “ilusão” e da consagração pública de emiliano perneta - 20/08/2011

28 de agosto de 2011 - por gil

ilhadeilusao_foto_gilsoncamargo_100anos_coroacao_emilianoperneta_passeiopublico_20_08_2011curitiba2

Os portões de acesso à ponte pênsil que leva à Ilha de Ilusão, no Passeio Público, em Curitiba, se abriram - excepcionalmente - neste sábado, 20 de agosto de 2011. Cinquenta cidadãos se concentraram no centro da ilhota, em volta do busto de Emiliano Perneta para celebrar o centenário do lançamento/consagração do livro “Ilusão”, do insígne autor paranaense, tal qual descreveu há 100 anos Oscar Gomes, em “Fanal” (Curitiba, 1 de setembro de 1911) reproduzido abaixo.

ilhadeilusao_foto_gilsoncamargo_100anos_coroacao_emilianoperneta_passeiopublico_20_08_2011curitiba3

O povo, à maneira da fulgurante Hélade pagã de outrora, deslumbrado ante ao pináculo aurifulgente em que paira Ilusão, do alcandorado poeta paranaense Emiliano Perneta, que, semelhante a um Zeus Olímpico, pode ser chamado um artista inigualável, impecável, entre os mais finíssimos estetas que cultuam a arte e a beleza imortal, o povo, que também reconhece o que é belo, o que é fascinante, não deixou de prestar homenagem ao laureado mestre da poesia que inebria e arrebata.

Tanto assim, que o Passeio Público regurgitava de pessoas, pressurosas por verem de perto o ente singular que as tinha extasiado tantas vezes com a doçura extraordinária de seus versos de cristal.

O domingo amanhecera como nunca. Mitra resplandecia em sua mais intensa plenitude, iluminando a limpidez do firmamento azul, que se havia revestido da túnica inspiradora do poeta festejado.

Na ilha do festival, ampla e bizarra, vicejavam risonhas engrinaldadas de ouro e de acácias, que em aspersões suaves e delicadas, atiravam florinhas miúdas sobre aqueles que se abrigavam à sombra benfazeja que elas proporcionam. As águas deslizando melífluamente. Tudo condizia perfeitamente com o espírito panteísta de Emiliano. A natureza estava vivificante, e boa, e pura, e sã.

ilhadeilusao_foto_gilsoncamargo_100anos_coroacao_emilianoperneta_passeiopublico_20_08_2011curitiba1

Nessa ilha chamada de Ilusão, elevava-se, estilo jônico, um templo grego, cujas colunas prendiam os festões de cedro e loureiro, que, cheios de graça, se cruzavam nos ares. Uma caçoula onde havia incenso, despendia para o alto em espirais, eflúvios doces e embriagadores. Ornamentavam ainda o local as estátuas de Flora, Pamona, Ceres e Vesta, cada qual representando uma estação do ano, os bustos de Minerva, a sabedoria, Vênus, a representar o amor e a beleza, e Apolo, o inspirador das belas artes.

Tudo contribuía para um conjunto delicioso e harmônico, fazendo lembrar os tempos das glorificações em pleno ar livre, aos poetas gregos na Acrópole. Parecia reviver os tempos de Píndaro, Anacreonte, e Safo; ressurgia o século de Péricles, quando Atenas atingiu o apogeu nas artes, ciências e letras.

Ao chegar, o poeta homenageado dirigiu-se, debaixo de estrepitosas palmas e aclamações, para o templo, onde tomou assento em um banco grego, sendo logo após, brilhantemente saudado pela talentosa oradora do Grêmio das Normalistas, a qual, em nome dessa agremiação, o presenteou com um chic ramalhete de flores.

ilhadeilusao_foto_gilsoncamargo_100anos_coroacao_emilianoperneta_passeiopublico_20_08_2011curitiba9

Falou em seguida o orador oficial, o consagrado tribuno e homem das letras Dario Veloso, que com a palavra vibrante de que é possuidor, se incumbiu de expor em nome da coletividade os fins daquela justa e digna festa. Via-se então, o príncipe da oratória paranaense coroando com frases rutilantes e economiásticas ao príncipe da poesia.

Em evocações ao passado helênico, o magistral tribuno, lembrando os jogos olímpicos da Grécia, mostrou que, a exemplo dos helenos, à Curitiba cabem as glórias e os triunfos alcançados por Emiliano Perneta. Referindo-se a Ilusão, Dario Veloso fez ver que o poeta reflete em seus versos todas as agruras, quimeras e ilusões dos primeiros anos da era cristã à época da Renascença, e que através daquela melodia intensa, daquele sonho, durante mil e quinhentos anos – quando já íamos galgando a escarpa terrífica do Calvário, para crucificá-lo como um novo Cristo – esse Gólgota se transmuda, num oceano de luz, esparsa por essa beleza esplandente de Sol, que ilumina e vivifica. O orador, voltado para o fulgor azulado deste céu pagão, exaltou a bondade da natureza, que tanto cooperou para maior encanto das festividades.

ilhadeilusao_foto_gilsoncamargo_100anos_coroacao_emilianoperneta_passeiopublico_20_08_2011curitiba8
Lília Souza, Lygia Lopes dos Santos e Vânia Ennes recitaram sonetos do livro Ilusão.

Em seguida três graciosas senhoritas recitaram, com o maior brilho possível, alguns sonetos do poeta.

Terminando o que estava prescrito, ergueu-se o homenageado e disse não poder responder ao discurso de Dario Veloso, pois que este, não esteve admirável – afirmou, esteve assombroso. Acrescentou que como prova da mais sincera gratidão ia ler os expressivos versos já publicados em seu livro – “para que todos que eu amo sejam felizes”. Então os espaços saturaram-se da melodia límpida e sonora da sua voz argentina, enquanto o auditório, eletrizado, sentia-se ascender às regiões empíricas do além.

O recitativo terminou debaixo de palmas ruidosas e aclamações febris daqueles que o escutavam, enlevados pela harmonia dos versos arrebatadores que só Emiliano sabe produzir.

Essa sublime sagração pública permanecerá inolvidada no coração de todos os paranaenses, será conservada tradicionalmente, para que nossos posteriores possam dizer, no futuro, que o Paraná, ao menos uma vez, reviveu a vida espiritual da Grécia antiga, na qual houve um Píndaro, glorificado por esse novo povo helênico, robusto, belo, sereno e jovial.

Oscar Gomes, “Fanal”, Curitiba, 1 de setembro de 1911.
Fonte:
Revista Textura # 2 / julho 1981 - ed. Secretaria do Estado da Cultura e do Esporte
http://organismo.art.br/blog/?p=1279

Sagrou-se o Perneta, no ermo desta herma
De estalagmites e estalactites
Coroado de louros, príncipe dos poetas
Em terras de Nhá Laura, na Ilha dos Amores

Loiras de ilusão, ruivas de batom
Caminhando entre flores, primaveras abertas

Octavio Camargo e Paulo Bearzoti Filho

Link para a edição fac-similar do livro Ilusão (pdf), no site da Academia Paranaense de Letras

biblioteca franco giglio infestada de cupins

19 de julho de 2011 - por gil

biblioteca_francogiglio_foto_gilsoncamargo_bigorrilho_julho2011_curitiba191

Este está sendo o destino da saudosa Biblioteca Franco Giglio, no bairro Campina do Siqueira, em Curitiba. Fundada em 12 de outubro de 1982, o espaço está fechado desde fevereiro de 2011 devido a uma “infestação de cupins” e terá que passar por uma reforma. Porém, não há previsão para o reinício das atividades, segundo informações da responsável pelas Casas de Leitura da Fundação Cultural de Curitiba. “Em situações inesperadas como essa não temos previsão de orçamento e, por este motivo não temos como prever nem o início das obras, muitos menos o da reabertura”. Há também outro motivo para a demora. Desde sua inauguração, o imóvel ocupado pela biblioteca não possui indicação fiscal. Segundo informou Rosana Mello, assessora da Diretoria Administrativa e Financeira da Fundação Cultural, “como é a primeira vez que o espaço precisa de reformas, será necessário aguardar a tramitação do processo para fazer a regularização do terreno”.

biblioteca_francogiglio_foto_gilsoncamargo_bigorrilho_julho2011_curitiba9

Ela está lá, a casa amarela como sempre esteve ao final da rua da casa dos meus pais. Casa onde eu nasci e passei minha infância, parte dela vivida intensamente dentro da Franco Giglio. Eu, meus irmãos e a criançada do bairro fomos atraídos na década de 80 para lá; era o nosso ponto de encontro, além de ser, sem dúvida alguma o lugar mais divertido do bairro. Era também o espaço em que os pais sentiam-se seguros, pois das 9 às 18h tínhamos atividades. O dia inteiro e gratuitamente. Da tradicional hora do conto às aulas de flauta doce, formação de bandinha, aulas de artesanato, teatro, até as inesquecíveis aulas de história da arte ofertadas pela Rose Giglio, viúva do pintor italiano que dá nome à biblioteca. Uma homenagem da cidade ao artista plástico que embora nascido na Itália, em Dolce Acqua, na Liguria, em plana Riviera Dei Fiori, passou os melhores anos de sua vida em Curitiba.

biblioteca_francogiglio_foto_gilsoncamargo_bigorrilho_julho2011_curitiba10

Dirigida pela bibliotecária Lia Munhoz da Rocha, com auxilio de Roseli de Almeida Giglio e Suzana Maria Camargo, a pequena casa na Rua Jerônimo Durski 1039, se tornou um ativo centro cultural. Eu e minha irmã fomos as primeiras cadastradas e tínhamos as carteirinhas 01 e 02. Frequentamos desde o início, tanto no período escolar como nas férias e foi neste lugar que a minha curiosidade e gosto pela arte e cultura foram despertados. Foi também aí que eu fiz novos amigos e percebi o quanto a leitura era um mundo gostoso de viver. Logo após a inauguração, as bibliotecárias foram de casa em casa convidar os moradores do bairro a conhecer o espaço. Depois, quando uma multidão de crianças já a frequentava (sem exagero, era uma multidão!), fomos nós que batemos de porta em porta para arrecadar livros e revistas para a biblioteca. Eu tinha nove anos e vivia aquele sentimento gostoso de pertencimento, de fazer parte. Era assim a Franco Giglio. Aconteceram tantas coisas por lá; até eleição de prefeito mirim fizemos! Minha irmã caçula ganhou o concurso de dublagem, meus irmãos participavam do campeonato de vôlei e eu amava os passeios que a Rose Giglio fazia para que conhecêssemos os museus da cidade.

biblioteca_francogiglio_curitiba2
Apresentação da banda formada nas aulas de música da biblioteca, em 1983.

Desde 1982 até hoje a casinha amarela foi mantida por todas as gestões da prefeitura de Curitiba. Porém, na época de sua abertura, o presidente da Fundação Cultural, Carlos Frederico Marés proporcionou uma revolução nunca vista nas bibliotecas de bairro da cidade, valorizando e respeitando os espaços, tornando-os de fato ativos pólos culturais. Não era simplesmente abrir a porta, e sim chamar o bairro para participar, era fazer com que as crianças opinassem, fizessem parte. Afinal, a biblioteca era nossa!

biblioteca_francogiglio_foto_gilsoncamargo_bigorrilho_julho2011_curitiba71

Hoje ao passar perto da Franco Giglio, vi uma casa abandonada e, ao que me parece, quase despercebida. Tão despercebida quanto o demoradíssimo processo para o início das obras a que se referiu a responsável pelas bibliotecas (hoje Casas de Leitura). Os cupins, presume-se, estão dentro da casa mas, por fora a situação é de total abandono: lixo jogado e mato alto.

Será que hoje em dia ela realmente não faz mais falta? No meu tempo, em que a rua era o nosso espaço de lazer, estaríamos tristes pelo destino da nossa biblioteca. Estaríamos sem o lugar mais divertido do bairro.

texto: Ana Carolina Caldas
fotos da biblioteca em 09 de julho de 2011: Gilson Camargo

biblioteca_francogiglio_curitiba1
Festa de Natal em 1982. Na foto, junto com as crianças, Lia Munhoz da Rocha, Rose Giglio e Suzana Maria Camargo.

Passei parte de minhas férias, durante a pré-adolescência, na Biblioteca Franco Giglio. Desta época, guardo muitas recordações inestimáveis, além da influência educativa que exerceu na minha vida e nas minhas escolhas. Lembro-me da eleição para prefeito(a) mirim, das aulas de arte, dos jogos de volei, dos piqueniques coletivos e da tão esperada hora do conto. Quando me tornei professora, muitas destas experiências dirigiram meu jeito de ensinar mas, aprendi fundamentalmente a valorizar a cultura e a arte e compreender a importância da existência de múltiplos espaços educativos na cidade, que mesmo sem a intenção explícita e dirigida de ensinar, educam, formam e ampliam os horizontes.
Profa. Dra. Andrea Caldas - diretora do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR)

biblioteca_francogiglio_curitiba
No Carnaval de 1983, com as fantasias confeccionadas pelas próprias crianças.

Eu era pequena, me lembro, no Bigorrilho. Na mesma rua que hoje virou um grande corredor de corrida de carros cada vez mais vorazes de velocidade, a vida passava em outro ritmo. Nesta rua brincávamos com os vizinhos, corríamos e apertávamos campainhas. Primeiro veio a grande notícia, uma praça, onde era a caixa d’água do Bigorrilho, hoje pomposamente chamado de Reservatório Batel. E a grande novidade se alastrou pela rua… onde ficávamos sabendo de todas as notícias do bairro. Inaugurou uma biblioteca!!!
Eu, já leitora voraz, assim como os carros nas ruas por velocidade, fiquei encantada! Éramos pobres, não viajávamos nas férias e, livros, eu só ganhava no Natal. Aquela pequena casinha antiga, amarelinha, ampliou meu mundo para além das ruas do Bigorrilho.
Hora do Conto, aulas de flauta, de cerâmica, o curso de História da arte espanhola, El Greco… Ainda lembro exatamente do quebra-cabeça com uma pintura de Arcimboldo. Foram tantas as referências, não só literárias, que me acompanharam a vida toda!
Eu lia dois livros por dia, não podia perder tempo, eram muitos… Emprestava um de manhã, lia durante o almoço, em casa. À tarde devolvia e logo pegava outro para a noite… A minha velocidade era outra. Eu passava minhas férias inteiras lá!
Cresci, frequentei outras Bibliotecas, a Pública do Paraná, principalmente, mas a Franco Giglio me acompanhou a vida toda. Ao visitar o Louvre, quando vi pela primeira vez uma tela de El Greco, aquele momento emocionante me remeteu diretamente à Roseli e suas aulas de arte. Ou ainda, quando adulta, encontrava a Dra. Helen Butler Muralha, lembrava dela, com seu sorriso generoso, nos recitando poesias de Sidônio Muralha.
Quando tive meus filhos e tentei descobrir qual herança eu deixaria para eles, pensei: minha infância dentro daquela maravilhosa biblioteca. E criei a Bisbilhoteca, que é a minha leitura da Franco Giglio, minha homenagem à biblioteca que me trouxe tanta alegria. E não longe da original, no Bigorrilho, mesmo bairro onde nasci e cresci.
Uma das grande emoções que tive foi receber na Bisbilhoteca a visita da Roseli, quando ainda viva, e poder contar o quanto aquele trabalho com crianças de bairro rendeu frutos!
Se vocês olharem bem para a foto do carnaval desta matéria, verão o Gritinho de Carnaval! Hora do Conto… E tantas outras ideias que já realizamos e outras que vamos realizar.
E, para além da nostalgia de uma infância em meio aos livros e à cultura dentro da Franco Giglio, aquela biblioteca, assim como imagino que outras pela cidade, marcaram infâncias, proporcionaram outras leituras do mundo à muitos adultos que hoje produzem e transmitem essa paixão pelos livros à muitas outras crianças!
Passo quase todos os dias em frente à Franco Giglio e observo o abandono. No início achei que era por causas das obras da rua, mas logo se vê que aquela casinha de sonhos, tombada, está jogada à própria sorte. Não temos mais Suzanas e Roselis, apaixonadas por livros, crianças e cultura…
Temos pessoas que cumprem seu horário de trabalho. É certo que o mundo mudou e as crianças não andam mais sozinhas pelas ruas, que as pesquisas são feitas em casa, na internet. Mas a vocação de encontro e de lazer desses espaços públicos jamais deve ser perdida. As bibliotecas, Casas de Leitura como são chamadas hoje, devem ser abertas todos os dias, inclusive finais-de-semana, com uma programação atraente, trazendo crianças e suas famílias para desfrutarem do que jamais poderiam ter em casa: a convivência com o mundo da cultura e a convivência com outras pessoas.
Cláudia Serathiuk - proprietária da Bisbilhoteca Cultura Infanto Juvenil

biblioteca_francogiglio_curitiba_desenho_claudiaserathiuk1988a
Biblioteca Franco Giglio. Desenho de Cláudia Serathiuk - outono de 1988.

paulo vítola na academia paranaense de letras

28 de junho de 2011 - por gil

paulovitola_foto_gilsoncamargo_teatropaiol_27_06_2011curitiba31

O músico, compositor, poeta, cronista, jornalista e publicitário, Paulo Vítola (imagem acima) é o novo ocupante da Cadeira nº 25 da Academia Paranaense de Letras, que tem como patrono, Vicente Machado da Silva Lima.

Curitibano de 1947, Paulo Vitola foi parceiro de Palminor Rodrigues Ferreira, o Lápis, na época dos grandes festivais de MPB. Na música também assinou seus primeiros sambas de enredo para o Carnaval de Curitiba na Escola de Samba Não Agite. Na área teatral destacou-se como parceiro de Adherbal Fortes nas peças “Cidade sem portas” e “Terra de todas as gentes”, a primeira, o maior sucesso de público de todos os tempos no Teatro Paiol, e a segunda, o espetáculo que inaugurou o Guairão em 1974.

posse_paulovitola_apl_foto_gilsoncamargo_teatropaiol_27_06_2011curitiba4
Execução do Hino Nacional pelos músicos João Egashira, Sérgio Albach e Denis Mariano.

Vítola desempenhou importante papel como agitador cultural, ao idealizar e liderar o Mapa, movimento que reuniu os compositores da cidade em espetáculos memoráveis no Paiol. Como escritor lançou em 2008 o livro Chucrute & Abacaxi com Vinavuste, uma reunião de crônicas e poesias que publicou na imprensa.

Atualmente na presidência da emissora E-Paraná, o novo Acadêmico foi saudado pelo advogado René Ariel Dotti, na noite desta segunda feira, 27/06, no Teatro Paiol, em Curitiba.

Paulo Vítola foi meu aluno no curso de Direito. Justamente na escola que procura indicar as regras e os caminhos da esperança pelas curvas da Justiça; mas, que atrofiam os espaços da imaginação em favor das algemas da segurança. Eu lembro hoje, como se fosse ontem. Ele era - e nunca deixou de ser - simples, afetuoso, alegre, modesto. Foi La Bruyère (1645/1696) quem disse: “A modéstia é, para o mérito, o que são as sombras para as figuras de um quadro: dá-lhes força e relevo”. (René Dotti)

posse_paulovitola_apl_foto_gilsoncamargo_teatropaiol_27_06_2011curitiba5
Rachel Peixoto de Souza, mãe de Paulo Vítola, veste no filho o fardão da Academia.

“De muitas formas as palavras sempre brincaram comigo e eu com elas. De tal sorte que tenho dúvidas em decidir se escrevi a minha vida ou se foi ela que me escreveu. Seja lá como for, alegra-me o fato de ver reconhecidos pela Academia Paranaense de Letras os meus 45 anos de trabalho na escrita de letras de música, poemas, programas de rádio e televisão, textos publicitários, peças de teatro, espetáculos musicais, trilhas de filmes, planos de comunicação, campanhas políticas, roteiros de teledramaturgia, projetos de educação para o trânsito e para conservação do meio ambiente, e muito mais”. (Paulo Vítola)

paulovitola_foto_gilsoncamargo_teatropaiol_27_06_2011curitiba2

“Gostaria hoje de poder aproveitar a asa da imortalidade para voar até onde está meu pai, Felipe, com seu chapéu de jardineiro regando as plantas de algum jardim. Queria que ele soubesse o valor que tivera para mim os seus livros, as suas sinfonias, as suas óperas, os seus quadros e principalmente o seu exemplo e as suas palavras. Mais uma vez ele iria mostrar para mim uma pequena semente encontrada no chão e perguntaria como é que a semente sabe qual flor ela deve dar? Dessa vez minha resposta seria apenas um sorriso e uma piscada… então esqueceríamos para sempre do nosso último encontro. Aquele que havia deixado um gosto de adeus em todas as pedras da rua Vicente Machado”. (Paulo Vítola)

posse_paulovitola_apl_foto_gilsoncamargo_teatropaiol_27_06_2011curitiba3

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

(Carlos Drummond de Andrade)

posse_paulovitola_apl_foto_gilsoncamargo_teatropaiol_27_06_2011curitiba2
Presentes ao evento, da esquerda para a direita: Roberta Storelli, presidente da Fundação Cultural de Curitiba; Paulino Viapiana, secretário de Cultura do Estado do Paraná; Eduardo Rocha Virmond, presidente da Academia Paranaense de Letras e o acadêmico René Ariel Dotti.

Fotografia, vídeo e edição: Gilson Camargo

giacomo joyce - leitura dramática na biblioteca pública do paraná - bloomsday 2011

19 de junho de 2011 - por gil

helenaportelaoctaviocamargo_foto_gilsoncamargo_bloomsday_bpp_16_06_11curitiba

Bloomsday é a festa literária que ocorre simultaneamente em diversos países em homenagem ao escritor irlandês James Joyce e seu livro Ulysses, cuja história se passa inteiramente no dia 16 de junho de 1904. Publicado em 1922, o livro influenciou os rumos da ficção contemporânea.
A data foi comemorada em Curitiba nos dias 14, 15 e 16, no auditório da Biblioteca Pública do Paraná (BPP), com entrada franca, em iniciativa do Museu da Imagem e do Som (MIS).
A Cia. Iliadahomero participou do evento no dia 16/06 com a leitura dramática realizada pela atriz Helena Portela, dirigida por Octavio Camargo (imagem acima), do livro “Giacomo Joyce”, traduzido para o português pelo curitibano Paulo Leminski e editado em 1985 pela Editora Brasiliense.

O Giacomo Joyce talvez não fosse uma escrita pra ser publicada… parece que foi um romance ou uma paixão que o Joyce teve por uma aluna, ele fez lá algumas anotações, mas que, enfim, se perderam e essas anotações não foram publicadas. Elas foram depois resgatadas por um irmão e em função da celebridade do Joyce acabou o texto chegando até nós.
Em relação a cidade, esse texto é especialmente importante porque foi a primeira publicação aqui da cidade de Curitiba de uma tradução do James Joyce feita pelo Paulo Leminski. Eu acho que a presença do Leminski deve ter influenciado isso também, pra que o pessoal tão precocemente aqui começasse a se interessar pelo Joyce.
O texto é composto por alguns parágrafos que foram encontrados no caderno dele e independente da verdade histórica de se esse romance com uma aluna aconteceu ou não, nesse pequeno livrinho o Joyce se ufana, de alguma maneira, de que isso aconteceu. Acho também que ele não foi inicialmente pensado como um texto dramatúrgico, e aqui fica, para uma platéia muito especial, o registro de que gostaríamos de dividir com vocês esse “experimento”.
A leitura do texto vai acontecer entre quatro blackouts e ele tem um desenvolvimento dramático de palestra aula. Curiosamente Joyce era um professor de inglês e o tradutor desse texto também foi professor muitos anos, o Leminski deu aula em cursinhos, então ele tem também um pouco dessa inspiração. Eu vou deixar vocês com a Helena e vou ficar lá em cima apagando e acendendo a luz. Então…. Joyce.
Octavio Camargo

helenaportella_em_giacomojoyce_foto_gilsoncamargo_bloomsday_bpp_16_06_11curitiba_web

“Quem? Um rosto pálido circundado por pesadas peles perfumadas. Os movimentos dela são tímidos e nervosos. Ela usa um monóculo. Sim: uma sílaba breve. Um riso breve. Um breve bater de pálpebras.(…)
Teia de aranha sua caligrafia, traçada longo e fino com tranqüilo desdém e resignação: uma garota de categoria.”

“Aqueles frios dedos serenos tocaram as páginas, imundas e lindas, onde minha vergonha vai brilhar para sempre. Frios dedos serenos e puros. Será que nunca erraram?
Seu corpo não tem cheiro: uma flor inodora.
Nas escadas. Uma frágil mão fria: timidez, silêncio. olhos escuros lânguidos e líquidos: cansaço.
Turbilhões de vapor cinza sobre o banhado. Seu rosto, como estava cinza e solene! Emaranhados cabelos úmidos. Seus lábios apertam suave, o hálito sofredor se solta. Beijada.
Minha voz, morrendo nos ecos de suas palavras, morre como a voz exaustisábia do Eterno chamando Abraão através dos ecos das colinas. Ela se encosta contra a parede acolchoada: feições de odalisca no escuro luxúria. Seus olhos beberam meus pensamentos: e dentro da úmida morna submissa escuridão convidativa da sua feminilidade minha alma, também se dissolvendo, derramou e verteu e transbordou uma semente líquida e abundante…… Agora coma-a quem quiser!….”

helenaportella_em_giacomojoyce_foto_gilsoncamargo_bloomsday_bpp_16_06_11curitiba4web

“Despreparo. Um apartamento nu. Nojenta luz do dia. Um grande piano preto: túmulo da música. Equilibrado em sua borda um chapéu de mulher, com flores vermelhas, o guarda-chuva, fechado. Seu brasão: capacete, escarlate, e lança sem ponta sobre um fundo, preto.
Dedicatória: Me ame, ame meu guarda-chuva.”

Link para o texto integral na traduçao de Paulo Leminski

ulisses_foto_gilsoncamargo_bloomsday_bpp_16_06_11curitiba_webApós a leitura houve a exibição de As Alucinações de Ulisses (1967) – dirigido por Joseph Strick. Primeiro filme de longa-metragem adaptado de uma obra de James Joyce.

É preciso entender, é claro, que a incompreensibilidade de uma obra é, como tudo mais, historicamente determinada: questão que sucessivas leituras irão pouco a pouco resolvendo, até criar em torno do corpo estranho certo número suficiente de constelações hermenêuticas, interpretações, diluições, sobretudo, que nos permita pisar no terreno firme da redundância, do já sabido, do “estou começando a entender”. Em arte, o novo sempre se manifesta sob a modalidade do difícil. (Nota de Paulo Leminski)