etnografia naïf - joaquim nunes de souza - curitiba/pr

29 de junho de 2010 - por gil

expo_pierrelapalu_foto_gilsoncamargo_21_06_10solardobarao_curitiba7

“Joaquim, ou Joca como era chamado por sua mãe, levou uma vida introspectiva. Passou a ter interesse pela antropologia depois que trabalhou em um sebo, onde se maravilhou com obras agora desconsideradas pela antropologia contemporânea. Seu fervor pelos estudos do homem, cultura e sociedade, possivelmente surgiu da inabilidade social, pois, estudar as pessoas passou a ser uma forma de socialização para Joaquim.
A esse interesse somou-se a sua inexplicável habilidade no desenho e então, passou a anotar os comportamentos e registrar as pessoas da sua cidade, num esforço para catalogar a sociedade da qual se sentia excluído. Colocou-se numa posição de etnógrafo amador, capturando dados sociais para seu prórpio entendimento. Porém, sem interagir diretamente com seu objeto de estudo, sua produção é palpite, uma etnografia “naíf” por assim dizer. Mas, se colocarmos sua produção em um contexto artístico, este trabalho anônimo se revela estarrecedor.
Apresentar Joaquim de Souza ao público, à sociedade que ele tanto observou e desenhou, é um orgulho que compartilho com a Fundação Cultural de Curitiba, juntamente com o Instituto Paranaense de Estudos Antropológicos. Agradeço pessoalmente a Pró-Reitoria de Extensão Comunitária e o Núcleo de Psicologia Aplicada da UFPR, que nos apresentou o caso de Joaquim e deu todo o suporte quanto a análise psicológica da mostra.”

Pierre Lapalu - curador

expo_pierrelapalu_foto_gilsoncamargo_21_06_10solardobarao_curitiba8

Joaquim Nunes de Souza (1982 - 2004), foi um observador silencioso da sociedade. Captou através de seu traço, pessoas comuns do dia a dia, em suas situações cotidianas, em um esforço para catalogar e classificar as pessoas da sua cidade, Curitiba. Embora sem formação acadêmica, Joca nutriu uma grande preocupação em estudar o homem. Porém, sua percepção social não era tão precisa quanto sua percepção da realidade sensível, o que torna seu trabalho uma contradição científica e uma afirmação poética.

expo_pierrelapalu_foto_gilsoncamargo_21_06_10solardobarao_curitiba15

Após sua obra ficar escondida por anos, chegou às mãos da psicóloga Adriana Bueno para ser analisada como resultado de uma patologia mental. Dado o teor sociológico dos escritos de Joaquim, seu trabalho fora encaminhado para o IPEA (Instituto Paranaense de Estudos Antropológicos), onde, instigado pela síntese problemática do artista, o curador Pierre Lapalu idealizou esta mostra. A proposta do curador é a de possibilitar um maior conhecimento da obra deste artista, especialmente de sua poética específica, que pode ser definida em um conceito belamente contraditório: uma “antropologia instintiva”.

expo_pierrelapalu_foto_gilsoncamargo_21_06_10solardobarao_curitiba5

Serviço: Exposições do programa Bolsa Produção
Local: Solar do Barão (Rua Carlos Cavalcanti, 533) - Salas do Museu da Gravura e do Museu da Fotografia.
“O Etnógrafo Naíf”, curadoria de Pierre Lapalu - espaços 9 e 10, bloco B, 1º andar
Data: até 8 de agosto de 2010
Horários - de terça a sexta-feira, das 9 as 12h e das 13h as 18h. Sábados, domingos e feriados das 12h as 18h.
Informações: 3321-3367.
Agendamento de visitas monitoradas: 3321-3275

expo_pierrelapalu_foto_gilsoncamargo_21_06_10solardobarao_curitiba3
Pierre Lapalu, artista e curador da mostra, em visita a montagem da exposição, no Solar do Barão.

A exposição acontece na Sala do Lustre, antiga sala de festas da residência de Ildefonso Pereira Correia, 0 barão do Serro Azul (*6 de agosto de 1849 + 20 de maio de 1894), em Curitiba.

expo_pierrelapalu_foto_gilsoncamargo_21_06_10solardobarao_curitiba

vida! - cia. brasileira de teatro

13 de maio de 2010 - por gil

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba23

Exilados numa cidade imaginária, dois homens e duas mulheres fazem parte de uma banda que ensaia para uma apresentação comemorativa do jubileu da cidade. Fechados numa sala vazia, convivem entre si e revelam comportamentos, relações, conflitos e histórias de suas vidas prosaicas…

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba

Baseado
Na obra
De Paulo
Leminski

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba8

um dia
a gente ía ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um gingsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
p.l.

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba9
Ranieri Gonzales e Giovana Soar.

Com “Vida”, ambicioso título de condensada abrangência, a Companhia Brasileira de Teatro estreou no Festival de Curitiba a encenação da instabilidade do teatro como extensão do inescapável da existência.
Vagamente baseado na obra do poeta curitibano Paulo Leminski, que fornece muito mais à temperatura da sua produção literária do que propriamente seus escritos, Vida percorre escaninhos do que se oculta no fluxo do cotidiano.
O teatro é usado em formas desconcertantes, que desmentem o que aparentemente seus códigos indicam, como as banalidades de tantas palavras jogadas no ar, escondendo desejos e frustrações recônditas, No lugar sem janelas, um lugar nenhum, em que se está, que já foi de passagem, e agora é de ficar, e de onde se quer sair, muitas vezes, um homem propõe perguntas, que ele mesmo tem dificuldade em responder.
Professoral, procura situar o mundo como um espaço geográfico, com turbulências geológicas, movimentos humanos que se globalizam nas similitudes, despejando, qual metralhadora faladora, na área planetária do viver, as minudências dos comentários sobre o tempo ou o patético de uma comemoração de aniversário. Onde se está, quase nunca é onde habita a humanidade de cada um, mas a constatação é de que todos nós estamos aqui.
À qual se segue a pergunta definitiva: “Alguém escapou?”.
Ainda que possa parecer complexa essa arena em que se jogam cenas que perseguem o brilho que haverá por detrás do nevoeiro do dia a dia, a encenação de Marcio Abreu é uma sequência de gestos inesperados e palavras dissonantes de estranhamento ao conhecido. Na vida e no teatro, o que se sabe nem sempre é certeza, e a representação de ambos, se situa, na perspectiva do diretor, nas evocações da memória.
O ator, que tem suas tatuagens transformadas em performance, e um poema que se transforma em canção brega são ensaios permanentes de um espetáculo que nunca está acabado, como uma banda que ensaia, e há sempre os mesmos erros no ritmo.
O cenário de Fernando Marés, que se movimenta e se amplia de modo suave, confina o dramático num espaço que se expande e contrai. A música de André Abujamra está integrada ao espírito desafiador da cena. Nadja Naira, uma figura intrigantemente silenciosa, demonstra os recursos de interpretação bem além da depurada técnica corporal.
Giovana Soar refina a sua atuação com humor de contornos irônicos. Rodrigo Ferrarini domina a torrente de palavras que derrama sobre o público, como um entertainer de uma aula.
Ranieri Gonzalez é arrebatador como o malabarista de interpretação elástica, que se transfigura a cada intervenção.
Uma atuação impecável.
Macksen Luiz - Jornal do Brasil, 25 de Março de 2010

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba12

No momento em que o ator Ranieri Gonzalez toma impulso para um mergulho de cabeça contra a parede cenográfica do espetáculo “Vida”, fica em suspensão não só o ritmo alucinante de uma peça cheia de dilemas íntimos, com base na obra de Paulo Leminski, mas também uma espécie de simbologia metalinguística apontando o esfacelamento de fronteiras entre expressões artísticas, mais especificamente entre teatro e artes visuais.
Gustavo Fioratti, Folha de S.Paulo, 29 de março de 2010.

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba14Rodrigo Ferrarini

O que eu digo te interessa? Eu pergunto e você me diz, alguém me diz, sim eu me importo com as suas palavras, eu escuto, eu estou com você agora. E eu respiro aliviado e eu digo, eu fico feliz que voce se interesse pelas minhas palavras e que você esteja comigo agora. E fico olhando pra você (silencio) em silencio (silencio) buscando palavras pra preencher esse espaço vazio que surgiu de repente entre nós (silencio). Esse constrangimento (pausa). Eu posso dizer uma palavra qualquer, mas, uma palavra qualquer não interessa e eu pergunto: interessa a voce tudo o que eu digo? E voce me diz, alguém me diz, não exatamente, mas eu te escuto, eu posso te escutar e eu digo, entao é preciso escolher as palavras certas, palavras bonitas, senão bonitas, sinceras, ao menos sinceras, não é todo dia que tem alguém disposto a ouvir o que a gente tem a dizer e você diz, alguém me diz, há coisas boas pra se dizer a alguém que queira ouvir e eu paraliso novamente, um vazio se instala dentro de mim, um silencio, dentro de mim, escuro, como num buraco negro onde tudo desaparece, perceberam? (silencio) E entre nós novamente o silencio (pausa), e de repente, pra escapar do vazio eu pergunto voce conhece a teoria dos buracos negros? Você não responde é claro e eu fico meio constrangido, mas também que pergunta… e você diz, já ouvi falar mas não conheço os detalhes e supondo que você queira saber eu começo a contar que um buraco negro clássico é um objeto com campo gravitacional tão intenso que a velocidade de escape excede a velocidade da luz, percebe? Nem mesmo a luz pode escapar do seu interior, por isso o termo “negro”, que é a cor aparente de um objeto que não emite nem reflete luz, tornando-o de fato invisível. Já o termo “buraco” nao tem o sentido usual, mas traduz o fato de não vermos de fora o que está dentro dele, percebe? (pausa) E eu noto que de repente o ar fica mais rarefeito, uma espécie de torpor se instala entre nós e eu pergunto, você acha interessante a teoria dos buracos negros? Um assunto chato pra um dia de chuva como hoje, numa sala abafada, sem janelas. E por aí vai… E poderíamos seguir nosso diálogo e são assim os dias, entre um bocejo e outro e a esperança de algum entusiasmo que por descuido ou distração invada o ambiente. Uma coisa que me entusiasma é imaginar a possibilidade de trinta segundos sem gravidade entre nós. Eu já falei sobre isso aqui. Trinta segundos sem essa espécie de força que mantém nossos pés no chão. Algum entusiasmo nessa sensação nova de estar solto, flutuando, sem precisar fazer nenhum esforço pra se manter em pé. Eu posso fechar os olhos, você pode fechar os olhos e eu conto regressivamente a partir de agora: 30, 29, 28, 27, 26, 25… (começam a sair do chão, num truque barato de cena; silencio; música distante) 4, 3, 2, 1. (a musica fica forte, sequência imediata num ensaio musical).

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba131Nadja Naira e Ranieri.

Ranieri – Eu tomei um susto quando você entrou pela porta. Eu achava que eramos só nós aqui e de repente voce chega. Bom, agora somos so nos hoje aqui. (pausa) A gente perde o habito de esperar que alguém chegue. Voce espera por alguém? Desculpe, eu nao quero te importunar com perguntas.

Nadja – Não, nada é nada.

Ranieri – Voce enxerga bem sem óculos? Eu não gosto muito, mas eu preciso usar.

Nadja – (silencio)

Ranieri – Eu fico bem de óculos?

Nadja – (olha com sutil interesse)

Ranieri – Você deve ficar bem de óculos. Voce é alta, tem o rosto fino, bem desenhado, pescoço comprido. Deixa eu ver. (coloca os oculos nela)

Nadja – (sorriso)

Ranieri – Tá otimo! Voce é alta. Magra.

(pausa)

Ranieri – Quanto você tem de altura? Voce me acha muito baixo?

(aproxima-se dela, costas com costas, e compara as alturas)

Ranieri – Eu sou baixo, né?

(silencio)

Ranieri – Minha familia toda é baixa. Eu tenho uma avô que bate aqui em mim. (mostra a medida) Na verdade dizem que tem um tio meu que era muito alto… mas eu não conheci. Ele foi embora, desapareceu. Quando chegou a época de servir o exército, ele pegou uma bicicleta, saiu de casa e nunca mais voltou. Foi visto pela última vez fumando um cigarro a toda velocidade em cima de uma bicicleta. Sempre lembram dessa história na minha familia.

(silencio)

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba11

Giovana – Você está bem?

Nadja - Eu estou bem. Você não gosta de mim? Vocês não gostam de mim? Eu não te conheço, eu não conheço vocês. Quem são vocês? De onde vocês vieram? Alguém nasceu aqui? Ninguém nasceu aqui! A gente viaja, não é? As paisagens mudam, não é? E um dia elas não mudam mais. E você olha pra trás e não consegue mais lembrar. Da paisagem. Dos hábitos. Não consegue mais lembrar de onde você veio. A imagem vai se apagando. Quem são vocês? De onde vocês vieram? Eu cheguei aqui, eu venho todos os dias, eu faço o meu trabalho. E eu prefiro não falar. Tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar. Eu cheguei aqui, eu não conheço vocês. Eu fico quieta. Eu luto pra permanecer prescindível. Pra não fazer falta a ninguém. A gente viaja, não é?  E vocês me olham como uma estranha. E eu olho pra vocês como estranhos. Pára de olhar pra minha roupa!

Giovana – Desculpa.

Nadja – Pára de olhar pros meus sapatos. Eu cheguei aqui, eu não sou daqui. Eu não quero falar. Você me olha o tempo todo! Vocês me olham! Eu sou magra! Eu sou alta! Tenho as pernas finas e os pés pequenos, tenho sim. Tenho dois cambitos. Tenho pernas compridas. Meu nariz é adunco, eu sou pálida. Tem uma pessoa, que sempre que a gente se encontra a gente se abraça. A gente se olha e a gente já sabe. Um braço por cima, o outro por baixo e as mãos se encontram atrás. A gente se olha e a gente já sabe. Chama abraço mais. A gente é magro, a gente é pequeno, encaixa bem. Abraço mais. Só a gente sabe. Agora vocês sabem. Vocês não me conhecem, eu não conheço vocês, mas agora vocês sabem. E nós estamos aqui, não estamos?, nesta cidade, neste lugar. Alguém escapou? Eu fico quieta, eu deixo vocês triste? Vocês estão tristes? Spleen? Banzo? Blues? A tristeza de quem sabe que as coisas passam, nada dura e tudo é fluxo. Metamorfose e impermanência. Quando alguém passa a noite inteira sem dormir, o que é que aconteceu? Tá com blues. Você tem mãe, pai, irmão, irmã e namorada. Eles não estão aqui, no entanto, você quer falar com eles. O que é que acontece? Você fica com blues. Fica triste, triste de morrer. Comendo terra pra voltar pra África. Banzo. Eu estou bem aqui. Eu apenas não quero falar. E nós estamos aqui. Não estamos? Vocês estão tristes? Tudo vai bem madame, tudo vai muito bem. Um mundo satisfatório para pessoas razoáveis. E ficará nele alguém, uma só pessoa que não seja razoável? Ride, ridentes!/ Derride, derridentes! / Risonhai aos risos, rimente risandai! / Derride sorrimente! / Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores! / Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros! / Sorrisonhos, risonhos, / Sorride,ridiculai, risando, risantes,/ Hilariando, riando,/ Ride, ridentes! / Derride, derridentes!

(morre de repente)

Giovana – Oi. (pausa) Oi.

Ranieri – Ela tá meio quieta.

Giovana – Oi.(pausa) Oi! Oi! Oi! Oi!

Ranieri – Ela tá passando mal?

Giovana – Ela tá passando mal! Chama um médico! (Rani a arrasta pelos braços e sai pela porta, fica um rastro de sangue)

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba5

Elenco
Giovana Soar
Nadja Naira
Ranieri Gonzales
Rodrigo Ferrarini

Texto e Direção
Marcio Abreu

Processo Colaborativo
Giovana Soar
Nadja Naira
Ranieri Gonzales
Rodrigo Ferrarini
Marcio Abreu

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba7

Quem brilha?
Você lembra dos 15 minutos que fizeram diferença para o resto da sua vida?

link para blog do Projeto Vida Leminski

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba15

retratos prediletos - claudete pereira jorge e helena portela - atrizes

25 de abril de 2010 - por gil

claudetepereirajorge_foto_gilsoncamargo_medeia_ctba_abril2010web

Imagens produzidas para divulgação e programa do espetáculo “Medéia”, em cartaz no Guairinha a partir de 13 de maio.

Medéia assusta porque existe. Não é uma ficção
A subtração dos direitos de uma pessoa leva a consequências trágicas. Isso acontece sempre. Não se restringe à uma época ou à um território. Medéia é banida da cidade do dia para a noite, por ser estrangeira, por não interessar mais a Jasão, por ser incômoda.
Medéia se reproduz onde não há cidadania

Ela é expulsa pelas leis locais que não a reconhecem. Medéia não tem para onde ir, não pode retornar à Cólquida, ela se vê acoada, constrangida, seu marido a troca por uma grã-fina de Corinto, filha do rei Creonte.
Medéia é a violenta reação à violência

O sentimento de revolta, a injustiça, não transforma o mal em bem. A vítima retorna com uma crueldade ainda maior que a de seu agressor: explode colete de bomba.
Medéia é jogada na lama e vira areia movediça

Nem Jasão, honorável homem de sua época, chefe da expedição que resgatou o Velocino de Ouro, conseguiu levar a melhor com Medéia. É a justa paga por subestimar quem se encontra numa posição frágil, por imaginar que o poder lhe dê garantias de impunidade.
Medéia é o beijo que se transforma em tiro na boca

Na origem do delírio homicida está a subtração do afeto, o desaparecimento de qualquer lógica emotiva. A transformação da proximidade em abismo e distância engendra monstros. As maiores vinganças ocorrem entre seres afins.
Marchioro e Medéia

A montagem de Marcelo Marchioro põe uma lente de aumento na ambivalência emotiva da personagem de Eurípedes, na polifonia de vozes que determinam sua ação. Sua adaptação nos permite visualizar de forma clara o monólogo interior da infanticida, perceber sua dimensão humana, acompanhar a crise de consciência de Medéia projetada na relação com o seu duplo, a Ama, que estrangeira como ela, igualmente vinda da Cólquida, é sua serviçal e cúmplice na efetivação da terrivel vingança.
Octavio Camargo

helenaportela_foto_gilsoncamargo_medeia_ctba_abril2010web

O diretor Marcelo Marchioro e a atriz Claudete Pereira Jorge estão prestes a realizar o desejo antigo de montar Medeia, a tragédia infanticida. Chegaram a pensar em fazer um solo, mas acabaram alterando o plano para incluir em cena a filha de Claudete, a também atriz Helena Portela. À jovem coube o papel da ama, uma espécie de extensão da protagonista: sua cúmplice e a indutora de seus crimes.
Pela voz da ama ecoam as falas dos outros personagens que habitariam a tragédia escrita por Eurípedes em 431 a.C, mas, foram suprimidos nesta versão. As únicas figuras masculinas preservadas viraram imagens estáticas: não passam de uma sombra (provável solução para a presença de Jasão, o marido que abandona Medeia) ou um estandarte (o rei Creonte) ao fundo do palco. Nessa operação, perto de metade do texto original foi subtraído.
Cinco anos se passaram desde que Marcelo Marchioro dirigiu suas últimas montagens, a peça Pico na Veia e a ópera Gianni Schicchi, de Puccini. De volta à ativa, o diretor se dedica a um texto clássico, identificando nele atualidade e proximidade: “Nossa vida é uma tragédia”, diz justificando por que montar a peça agora. E completa: “A Medeia é nossa vida. Na semana passada, um homem matou dois filhos e se jogou de um prédio.”

“Medeia era uma bárbara. Veio de uma sociedade matriarcal e se viu, por amor, na sociedade grega onde a mulher não tinha a menor voz, onde o filho é do pai, não da mãe. Ela traiu pai e mãe e matou o irmão por esse homem. Está perdida, sendo banida, e seus filhos com certeza serão mortos”, descreve Claudete. E conclui, sobre essa mulher contraditória: “Para Medeia, matar os filhos não é só vingança, é instinto de proteção.”
Luciana Romagnolli - Gazeta do Povo, 25/04/10

Serviço: Medeia. Guairinha (R. XV de Novembro, s/n.º), (41) 3315-0979. Texto de Eurípedes. Direção de Marcelo Marchioro. Com Claudete Pereira Jorge e Helena Portela. Estreia dia 13 de maio, às 21 horas. Sexta e sáb. às 21h e dom. às 19h. Ingressos a confirmar.

clássicos curitibanos - marcelo scalzo - essa pazinha!

18 de abril de 2010 - por gil

foto_gilsoncamargo_fev2010web

Essa pazinha é um produto derivado da exposição “Da Pá Virada“, de Marcelo Scalzo, desenvolvida a partir de pazinhas de sorvete para o projeto “Bolsa Produção”, da Fundação Cultural de Curitiba, apresentado em 2009. Produzidas em aço e acrílico como pingentes para colares e brincos, já são um ícone do design de acessórios na cidade.

Contatos:
marcelo@scalzo.com.br
41 - 3528 5322

“amoradores de rua”, pátio da reitoria / ufpr - curitiba - 09/04/10

12 de abril de 2010 - por gil

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba18

Um homem, identificado como João Maria Fortunato Alves, de 47 anos, foi encontrado morto na manhã desta quinta-feira no Passeio Público, em Curitiba.
A suspeita é de que a vítima fosse um andarilho e tenha ido dormir no parque. O Instituto Médico Legal (IML) confirmou na tarde de hoje que a vítima morreu de hipotermia, baixa temperatura do corpo. Segundo o Simepar, os termômetros marcavam 0°C nesta madrugada. Esta foi a segunda morte causada pelo frio em Curitiba no ano de 2009.Segundo a polícia, o local foi isolado por volta de 6h da manhã. O IML relatou que nenhum familiar veio identificar o corpo, que será encaminhado para uma necropsia, que irá identificar a causa da morte.
Rodrigo Feres - Centro de Mídia Independente - 05/06/2009

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba12

Em todos os tempos se quis “melhorar” os homens: é isso que, antes de tudo, foi chamada moral. Mas sob esta mesma palavra “moral” se ocultam as tendências mais diversas. A domesticação do animal humano, bem como a criação de uma espécie determinada de homens, são um “melhoramento”: esses termos zoológicos exprimem unicamente realidades – mas, estas são realidades das quais o sacerdote não sabe nada de fato – de que não quer nada saber… chamar “melhoramento” a domesticação de um animal soa a nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Quem sabe o que acontece nos estábulos, duvida muito que o animal seja neles “melhorado”. É debilitado, é tornado menos perigoso, pelo sentimento depressivo do medo, pela dor e pelas feridas se faz dele um animal doente. Não acontece outra coisa com o homem domesticado, que o sacerdote tornou “melhor”. Para falar em termos fisiológicos: na luta com o animal, torna-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A Igreja compreendeu isso perfeitamente: ela perverteu o homem, tornou-o fraco, mas, ela reivindicou o mérito de tê-lo tornado “melhor”.
Trecho de Crepúsculo dos Ídolos – Friedrich Nietzsche

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba11

A gestão do prefeito Gilberto Kassab, pretende impor um controle mais rígido para a entrada dos moradores de rua nos albergues da cidade de São Paulo: eles serão obrigados a assinar um “contrato de direitos e deveres” e a cumprir uma série de obrigações, sob risco de não poderem utilizar os serviços. A relação de deveres dessa população - parte da qual tem inclusive problemas mentais - ainda está sendo preparada, mas, a prefeitura já elenca entre eles a obrigatoriedade “contratual” de que tenham práticas de higiene, como banho, e também a de freqüentar cursos de capacitação profissional e de realizar tratamentos de saúde.
A medida é alvo de críticas de líderes da população de rua, para quem os moradores deverão se afastar mais dos albergues. “É uma imposição que provavelmente vai ser recusada”, afirma Alderon Pereira da Costa, presidente da Associação Rede Rua. “Querem expulsar os moradores de rua dos albergues, em vez de incluí-los?”, questiona Anderson Lopes Miranda, 32, um dos líderes do Movimento Brasileiro em Defesa da População de Rua.

Alencar Izidoro e Vinícius Queiroz Galvão, Folha de São Paulo - 02/12/2007

CLIQUE E OUÇA - Vai Tomar no Cú
Cris Nicolotti

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba30

Até o ano passado, boa parte da população de rua não existia para o governo federal. Ela entrou nas estatísticas somente em 2008 quando o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em parceria com a Unesco, fez uma pesquisa nacional sobre o tema. Os números revelaram um cenário nada animador: 32 mil pessoas nesta situação. A capital paranaense ficou com o incômodo terceiro lugar no ranking, com 2,7 mil moradores. A Fundação de Ação Social (FAS) contesta os dados e mostra uma conta com 1,6 mil pessoas a menos.
Diante deste cenário, em maio deste ano, representantes de movimentos populares, moradores e ex-moradores de rua se reuniram em Brasília para debater o que será a primeira Política Nacional da População em Situação de Rua. A missão é parar de “enxugar gelo”. O consenso entre especialistas é que a criação de albergues é uma medida paliativa, mas foi convertida na única ação do poder público. Para eles, não se pode falar em ações efetivas considerando somente a assistência social. É preciso unir educação, cultura, saúde, habitação, previdência, acesso à Justiça e ao mercado de trabalho.
Paola Carriel - Gazeta do Povo - 14/06/09

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba4

“Se a noção de publicidade um dia já foi pensada por alguns teóricos como o caráter ou o sentido público de algo, como a condição deste algo tornar-se público, se um dia esta noção já foi pensada dentro da esfera de interesses principalmente públicos, hoje o termo publicidade está inequivocamente ligado à propaganda, marketing, merchandising, é a “voz” do mercado, com interesses prioritariamente privados. O que já foi pensado enquanto opinião pública, debate público, acabou resumido a mera pesquisa de mercado, cujo principal objetivo é atuar como uma eficiente fábrica de consensos. Na atual sociedade do espetáculo não há, de fato, lugar para qualquer tipo de espaço dissensual ou contra-hegemônico, o que resulta no empobrecimento da própria experiência urbana, em particular da experiência sensível e corporal das cidades – aquilo que vai além da pura visualidade imagética. O consenso busca também uma homogeneização das sensibilidades, das diferentes formas de “partilha do sensível”.
Paola Berenstein Jacques - Notas sobre Espaço Público e Imagens da Cidade

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba5

“Sem sorte / Sem-teto / Duro, com fome, frio, deprimido / Qualquer coisa ajuda / Ficar sem dinheiro é triste.

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba36

O dinheiro que vai para o bolso de banqueiros e especuladores como pagamento de uma dívida impagável seria mais que suficiente para resolver os problemas de habitação, infra-estrutura urbana e serviços no país. Ao povo sobram migalhas, apresentadas num jogo de ilusões como grandes políticas públicas. Os vultuosos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento tem alegrado muito mais os empresários da construção civil e do ramo imobiliário do que o povo que necessita de moradia. Uma Política de Reforma Urbana que tenha como prioridade os interesses populares nunca foi agenda de nenhum governo e este caminho mata pela violência, pela fome, pelo cansaço, pela enchente, pela falta de habitação, etc. O Ministério das Cidades e seus “espaços de participação”, apresentados como avanços na efetivação de uma política urbana democrática, não representaram nenhum grande passo na solução de nossos problemas. Ao contrário, criam e reproduzem uma forma burocrática de se tratar as questões urbanas. Neste sentido, nossas ações de ocupação em todo o país são a única forma de sermos ouvidos e atendidos. Os movimentos que assinam este manifesto propõem:
- Uma política habitacional popular baseada em subsídios, com valor adequado à realidade das metrópoles, sem o entrave burocrático e elitista dos financiamentos bancários. Que o Governo Federal desenvolva uma política nacional de desapropriações de terrenos e edifícios urbanos que não cumprem função social, destinando-os às demandas populares organizadas.
- Uma política nacional integrada de transporte urbano público gratuito, de qualidade, priorizado em relação ao transporte individual, que tem levado as metrópoles ao caos.
- Uma política de educação que crie creches financiadas pelo Estado sob o controle dos trabalhadores, que valorize os professores e profissionais da educação, que qualifique o ensino não visando o mercado mas a consciência crítica e social dos alunos.
-Controle restritivo das taxas cobradas por serviços públicos básicos como água e energia elétrica, garantindo a aplicação de Tarifas Sociais previstas na lei.
-Políticas de geração de trabalho e renda que dêem alternativas sociais e não policiais aos trabalhadores informais.

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) - Manifesto Popular, de 28/03/2008

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba39

Carnaval estação sétima de minha mangueira:

Então o Carnaval vem do tempo dos homens primeiros aqueles que cantavam e dançavam sem nenhum pudor então eles cantavam e dançavam e rodavam e se travestiam para tentar atingir um instante de vertigem um momento de todo mundo girando para que então eles pudessem sair de si e experimentar um pouco mais do outro e experimentando o outro eles pudessem gozar da carne do ócio do ópio do álcool do sexo da violência e de tudo aquilo que oprime de tudo que é agonia o Carnaval não é o final é o início é o capricho é o poder é ir além é não ter medo de comer o cú é não ter medo de dar o cú é não ter medo do torpor é não ter medo do vício é desaparecer na multidão é todo mundo pulando juntinho pipocando acentuando é porra voando e fecundando o chão os homens os deuses e tudo que ali existe o sol a lua o som a luz as estrelas o céu as nuvens tudo tudo tudo tem fumaça então o carnaval é feito cachaça é feito pau cú buceta efeito ópio é a desgraça para atingir a graça é pipoca pulando numa panela suja de óleo diesel é lama lama lama lama até dentro do rabo nas orelhas no couro cabeludo é isso que eu quero é isso que eu busco deste carnaval tudo de bem e tudo de mal um entrando no outro e virando bicho para que então possamos ver como bichos cheirar como bichos comer como bichos sentir como bichos e ser bichos para que talvez então retornemos ao animal que já fomos um dia e então poder brincar um carnaval feito gente grande aí então serei eu só só eu e ninguém mais eu e meus instintos eu e meus desejos eu solto no mundo eu louco de pedra aí meu mundo é meu aí meu mundo me entendeu só eu aí na rua aí no mundo e não mais aquele escravo do próprio conforto de não ser ninguém porque ninguém chama mais atenção eu não eu não eu prefiro assim eu na contra mão prestes a me espatifar em um trem automóvel ou caminhão para então morrer e nascer e renascer todos os dias da minha vida o carnaval é um rasgo no tempo e no espaço tudo é possível não há Deus tudo é possível aí eu tipo assim um saci uma lenda aí então eu atingi o cume eu atingi o cume só o cume interessa aí então tudo de novo tudo igual até o próximo carnaval tipo pedal de bicicleta que vai girando girando girando girando girando até te secar secar teu líquido teus sais mineirais até você virar caveira e caveira é carbono e com carbono se indentifica se qualifica se quantifica se alivia alívio alívio alívio
Adriano Petermann

CLIQUE E OUÇA - Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua
Sérgio Sampaio

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba35

“(…) Puxando carrinhos construídos à mão através das ruas na procura de lixo reciclável, estes catadores de maneira não oficial fornecem à cidade uma força vital de trabalho: os catadores servem a um programa pré-existente de reciclagem (promovido pela cidade como um exemplo de suas diretrizes urbanas) emprestando-lhe uma adição complexa e complicada, a da troca injusta. Pois os catadores contam com o lixo da cidade como uma economia pirata, e a cidade, por sua vez, conta com os catadores, adotando a sua pobreza como uma fonte radical de eficiência: os catadores estão lá, todos os dias, serpenteando pelas ruas da cidade, lançando sombra à coleta oficial e seus caminhões, esperando chegar lá primeiro… (…)”
“Manual para construção de um carrinho como um dispositivo para elaboração de conexões sociais” - Octavio Camargo e Brandon LaBelle / Errant Bodies Press - 2009.

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba

Os textos apresentados neste post são fragmentos das referências utilizadas pelo projeto “Amoradores de Rua“, disponíveis em seu blog. - http://amoradores.blogspot.com

Elenco: Adriano Petermann, Martina Gallarza, Maurício Vogue, Felipe de Souza, Marcelo Szymanski e Diego Marchioro.
Direção: Rafael Camargo

“travesties”, cia. de ópera seca - teatro guaí­ra - curitiba - 20/03/10

4 de abril de 2010 - por gil

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao9
Patrícia Dinely e Germano Melo em cena de “Travesties”, de Tom Stoppard, encenada pela Companhia de Ópera Seca.

Sugestões para título em português:
“Paródias”
“Imitações Baratas”
“Farsas Burlescas”
“Pastiches”
“Transformações”

download do texto integral do espetáculo - arquivo .doc

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao33

Autor: Tom Stoppard | Direção e Iluminação: Caetano Vilela | Produção Executiva: Célia Pagan | Elenco: Germano Mello, Rodrigo Lopez, Manoel Candeias, Roberto Borges, Fabiana Gugli, Patrícia Dinely e Anette Naiman | Cenário: William Pereira | Figurinos: Olintho Malaquias e Chris Aizner | Trilha Sonora para Música Originalmente Composta: Ricardo Severo | Dramaturgia: Sergio Zeigler | Tradução Marco Antônio Pâmio | Duração: 150 minutos | Classificação: 16 anos

(…) Você acha que sabe tudo! - enquanto nós pobres imbecis achamos que estamos lutando por ideais, você tem uma profunda compreeensão do que está realmente acontecendo, lá no fundo! - você tem uma frase feita pra isso!
Henry Carr, personagem central do espetáculo

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao16

A peça se passa em Zurique, em dois locais: o vestíbulo no apartamento de Henry Carr (“A SALA”) e uma seção da Biblioteca Pública de Zurique (“A BIBLIOTECA”). A maior parte da ação se passa dentro da memória de Carr, que remonta à época da Primeira Guerra Mundial, e essa época se reflete de maneira apropriada nos cenários e figurinos, etc. Deve-se concluir que o Velho Carr está vivendo no mesmo apartamento desde essa época.

Começamos na BIBLIOTECA

Há lugares para JOYCE, LÊNIN e TZARA.
GWEN senta-se com JOYCE. Eles estão ocupados com livros, jornais, lápis… LÊNIN também escreve silenciosamente, no meio de livros e jornais. TZARA está escrevendo quando a peça começa. Em sua mesa há um chapéu e uma tesoura bem grande. TZARA acaba de escrever, depois pega a tesoura e corta o papel, palavra por palavra, e coloca tudo no seu chapéu. Quando todas as palavras estiverem dentro do chapéu, ele o chacoalha e despeja o conteúdo em cima da mesa. Ele separa rapidamente os pedaços de papel em fileiras aleatórias, virando algumas de lado, etc, e então lê o resultado em voz alta:
TZARA: Ih leite um nome Sá pele tzara
Quedê rixa é esse a tio Lennon pá rei!
Ih reste Alá suísse pasquim ih leite una ar triste,
Num Avon quer lá Hilde Clara!

CECILY (entrando): Sssshhh!

N. do T.: O poema cortado, embaralhado e rearranjado por Tzara, em sua versão “dadaísta” transforma-se em francês fonético, semelhante a “Il est um homme, s’appelle Tzara/Qui dês richesses a-t-il Le nonpareil/Il reste a La Suisse parce qu’il est um artiste/’Nous n’avons que l’art’, Il declara” (O homem de nome Tzara/de talentos sem comparação/está morando na Suíça como artista/e declara que tudo que importa é a arte). A tradução procurou a semelhança fonética no português, por orientação do próprio Stoppard.

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao23

(O palco agora pertence a CARR VELHO. A BIBLIOTECA deve ser substituída pela SALA. É desnecessário dizer que a mudança deve acontecer com o mínimo possível de interrupção e com uso de música como ponte de uma coisa para outra. É possível que CARR tenha permanecido imóvel no palco desde o início, um homem velho recordando…)

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao12-copy
O ‘velho’ Henry Carr (Germano Melo) faz um esforço para lembrar como tudo aconteceu:

CARR: Minhas memórias, é isso, então? Vida e época, amigo dos famosos… Como ele era, o James Joyce? É o que sempre me perguntam. É verdade que eu o conhecia bastante, bem no auge de seus poderes, seu gênio jorrando com toda intensidade na criação de Ulisses, bem antes que a fama e a imprensa o tornassem um monumento público para as câmeras estrangeiras – Memórias de James Joyce… Está vindo…
Para aqueles de nós que o conhecemos, a genialidade de Joyce nunca foi colocada em dúvida. Estar na presença dele era ter a certeza de um intelecto incrível, determinado em ser moldado na forma permanente de seu próprio monumento – o livro que o mundo agora conhece como Ulisses!

A memória de Carr dá voltas, retorna a cenas já visitadas, trai-se o tempo todo. Resta ao espectador embarcar não numa trama de detalhes históricos, mas numa ficção, que, com a Ópera Seca, pende para o teatro absurdo de Samuel Beckett. “Lênin começa a peça saindo da gaveta”, ilustra Vilela, que mantém a linguagem imagética de Gerald Thomas.
Gustavo Fioratti - Folha de São Paulo - 19/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao24
O ‘jovem’ Henry Carr (Germano Melo): “(…) Como eu gostaria de retornar as trincheiras! Aos meus camaradas armados. O espírito maravilhoso no meio da lama e do arame farpado. Os dias valentes e as noites medonhas …”

“O ator tem que ser canastrão. Não interessa para o público a verdade do ator, mas a verdade do jogo, que é artificial.”
Germano Mello - Portal IG - 19/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao32Tzara (Rodrigo Lopéz): “Ah o prazer, o prazer, que outra coisa pode levar a gente a algum lugar?”

Travestir-se de alguém, travestir-se de uma idéia no sentido de se apropriar disso, vestir isso, ser outra coisa… eu faço Tristan Tzara que é o fundador do movimento dadaísta, que foi uma das vanguardas históricas do século passado, mas, no segundo ato ele se traveste de Tristan Tzara, então tem esse jogo do que é histórico e o que é de mentirinha.
Rodrigo López - Blog do Festival de Curitiba

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao31

A peça Travesties encenada pela Companhia de Ópera Seca questiona a todo momento o papel do artista e sua função na sociedade, assim como a importância da Revolução nas artes. A farsa expõe diferentes aspectos artísticos com pequenos conflitos que vão desde a utilização da arte como uma ferramenta de apoio crítico pelos revolucionários até a criatividade da poesia com preocupações estéticas. Trazendo o contexto para a realidade atual, os atores brincam com a plateia em um momento da peça questionando quem é o grande artista curitibano. Rapidamente alguém responde “Leminski!” e ouve um bem-humorado “Leminski? Não conheço…” dito por Rodrigo Lopez, que interpreta Tzara.
Vitor Geron - Gazeta do Povo/PR - 21/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao7
Carr (Germano Melo) e Tzara (Rodrigo Lopéz) perguntam à platéia: “O que é um artista? De cada mil pessoas no mundo, novecentas estão dando duro, noventa estão fazendo o bem, e um único filho da puta sortudo é o artista!”

Mais do que qualquer avaliação deste texto, aparentemente anárquico, de Stoppard, é necessário registrar a coragem do diretor Caetano Vilela em encenar peça com tanta referência e humor britânico (…) Quem resistiu, pode usufruir de uma montagem vibrante, repleta de ironia e de beleza visual atordoante.
Macksen Luiz - Jornal do Brasil/RJ - 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao106

As quase três horas de espetáculo são interrompidas por um intervalo de 15 minutos que diverte boa parte dos presentes. De uma forma engraçada, o público é convidado a “dar uma volta” enquanto ouve um resumo da obra de Karl Marx que, na verdade, é utilizada como parte da brincadeira. A parada antes das últimas cenas também questiona se o público está entendendo o que se passa no palco…
Vitor Geron - Gazeta do Povo - 21/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao60Cecily (Fabiana Gugli) num embate ideológico com Carr (Germano Melo): “(…) Mas nós vivemos numa época em que a ordem social é vista como um trabalho das forças materiais; e nos foi dado um tipo completamente novo de responsabilidade, a responsabilidade de transformar a sociedade.”

O artista não é especial. Especial é o que tem a dizer. Ficamos presos ao culto à figura, que é desinteressante.
Caetano Vilela - JB Online 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao82Lenin (Roney Facchini) e sua mulher Nadia (Anette Naiman): “(…) A foto do passaporte vai ser minha usando peruca … Estou lhe escrevendo porque tenho certeza de que tudo entre nós ficará no mais absoluto sigilo”

Excelente! O texto denso e ótimo, mas deixou nosso grupo formado por Economistas, Historiadora e Psicóloga perdido em alguns momentos, pois há muitas referências (acredito que muita gente não entendeu nada), mesmo assim é muito bom. O figurino e o cenário são incríveis. A chuva de livros me deixou boquiaberto! Deveria explicar que é REALMENTE um intervalo, pois muitos não voltaram. Recomendadíssimo!
Vinicius - Campinas/SP  - Blog do Festival de Curitiba - 20/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao90Nadia (Anette Naiman) e Lenin (Roney Facchini) ’submergem’ no fosso do teatro ao som de uma Sonata de Beethoven - ao fundo Bennett (Roberto Borges) prepara o chá das 5. Últimas palavras de Lenin: “… a obrigação é infernalmente difícil”.

Gerald Thomas disse que não tem planos de voltar ao teatro. Caso não retorne, a perda será inestimável. Afinal, suas contribuições ao desenvolvimento do teatro contemporâneo são inegáveis, a julgar pela revalorização da noção de texto em suas encenações, não mais circunscrito ao limitado plano verbal, e pela habilidade em se apropriar de dramaturgias de autores diversos (especialmente, Samuel Beckett). Em todo caso, o afastamento de Thomas não inviabilizou a continuidade da Cia. de Ópera Seca, que apresentou no Festival de Curitiba a encenação de Travesties, de Tom Stoppard, assinada por Caetano Vilela.
Daniel Schenker - Jornal do Brasil/RJ - 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao94
Chá das 5, pastelão com direito a bolo na cara. Gwendolen (Patrícia Dinely) e Cecily (Fabiana Gugli): “Ah, Gwendolen, ah, Gwendolen a Biblioteca viverá com seu legado. Agora sobrou o Sr. Tzara e seus chiliques, porque os outros bolcheviques estão num vagão especial para Petrogrado. Ah, Gwendolen, ah, Gwendolen, queria que você fosse a primeira a saber… Tristan está empenhado a lutar pelo proletariado. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer*.”

*Liberdade poética deste tradutor, que cita aqui a frase-chave da música “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, hino revolucionário no Brasil dos anos 60.
Marco Antônio Pâmio - N. do T.

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao88
Ao som de um samba Cecily (Fabiana Gugli) dança em uma auto citação sobre trabalhos anteriores da Cia. de Ópera Seca.

Parabens!
UFA!
isso nao eh um post
eh um terremoto!
LOVE
G

Gerald Thomas - no blog “Vira Lata” - 01/04/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao98

CARR: Grandes dias… Zurique durante a guerra. Refugiados, espiões, exilados, pintores, poetas, escritores, radicais de todo tipo. Eu conheci todos eles. Costumávamos discutir madrugada adentro… no Odeon, no Terrace…

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao105
O velho Henry Carr (Germano Melo) volta para o ‘arquivo-morto da história’ sendo traído pela sua memória:

“Eu aprendi três coisas em Zurique durante a guerra. Eu tomei nota delas. Primeira: ou você é um revolucionário ou não é, e, se não for, é melhor ser um artista do que qualquer outra coisa. Segunda: se você não consegue ser um artista, é melhor ser um revolucionário… A terceira coisa eu esqueci.”
(BLACKOUT)

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao103
Ao som da batida de um samba todo o elenco destrói o cenário-instalação de William Pereira.

Link para o blog de Caetano Vilela, diretor e iluminador deste espetáculo, para o qual foram produzidas estas imagens.

P.S.: “Travesties” de Tom Stoppard, com a Cia. de Ópera Seca, está aprovado na Lei Rouanet (PRONAC: 096279) para captação no valor de 865 mil reais até outubro/2010. Contatos: Vlaanderen Produções Artísticas (Flávia Furtado: flavia@vlaanderen.com.br)

genival oliveira gonçalves, “gog” - abertura da 2º conferência nacional de cultura - teatro nacional - brasília / df - 11/03/10

14 de março de 2010 - por gil

gog_2conferencianacionaldecultura_foto_gilsoncamargo_brasilia11_03_10bweb
O rapper brasiliense “Gog” falou como representante dos membros do Conselho Nacional de Política Cultural e de todas as periferias do Brasil.

CLIQUE E OUÇA - Brasil com “P”
Gog
Gog e Maria Rita

Pesquisa publicada prova
Preferencialmente
Preto pobre prostituta
Pra policia prender
Pare pense por que?

Prossigo
Pelas periferias praticam perversidades parceiros parceiras PMs
Pelos palanques políticos prometem prometem
Pura palhaçada
Proveito próprio
Praias programas piscinas palmas
PPP palmas!
Pra periferia pânico pólvora
Pá! Pá! Pá!
Primeira página
Preço pago
Pescoço peito
pulmões perfurados
Parece pouco… parece pouco?
Pedro Paulo profissão pedreiro passatempo predileto
Pandeiro pandeiro pandeiro parceiros parceiras
Preso portando pó passou pelos piores pesadelos
Presídios porões problemas pessoais psicológicos
Perdeu parceiros passado presente pais parentes
Principais pertences
Pensei…
PC
Político privilegiado preso parecia piada
Pagou propina pro plantão policial passou pela porta principal
Posso parecer psicopata pivô para perseguição
Prevejo populares portando pistolas pronunciando palavrões
Promotores públicos pedindo prisões
Prisão provisória prisão provisória
Pecado pena prisão perpétua
Palavras pronunciadas pelo poeta, presidente
Pelo poeta, presidente!
Pelo presente pronunciamneto
Pedimos punição para peixes pequenos
Poderosos pesos pesados
Pedimos principalmente paixão pela pátria prostituída
Prevenir-se
Posição parcial poderá provocar protestos
Paralisações piquetes pressão popular
Preocupados promovemos passeatas pacíficas palestras
Panfletamos passamos perseguições
Perigos por praças palcos
Protestávamos porque privatizaram portos pedágios proibindo
Policiais petulantes pressionavam pancadas pauladas pontapés

Pangarés pisoteando postulavam prêmios
Pura pilantragem
Padres pastores promoveram procissões pedindo piedade
Paciência pra população parábolas profecias
Prometiam pétalas paraíso predominou predador
Paramos pensamos profundamente
Por que pobre pesa plástico papel papelão
Pelo pingado pela passagem pelo pão
Por que proliferam pragas pestes pelo país?
Por que presidente?
Porque predominou predador por que?

gog_2conferencianacionaldecultura_foto_gilsoncamargo_brasilia11_03_10web

link para a transcrição e áudios completos da fala de “Gog”.


luiz inácio lula da silva - abertura da 2º conferência nacional de cultura - teatro nacional - brasília / df

13 de março de 2010 - por gil

lula_foto_gilsoncamargo_2conferencianacionaldecultura_brasilia11_03_10o

Eu, a esta hora da noite, quando eu vou falar, eu fico preocupado porque a Marisa fica me controlando e ela acha que quando eu falo demais não é prudente. Ela fica… a minha… a maior censura que eu recebo é ela controlando o meu tempo. Eu tinha um moleque que quando ele tinha sete anos de idade, eu estava em Mauá fazendo um discurso, daqueles eloquentes - sabe quando a gente é incipiente na política, muito novinho, acredita em tudo? - e o discurso era uma verdadeira apoteose revolucionária! Eu tinha um moleque de sete anos, que subiu na escada do palanque e falou: “Ô pai, o senhor não quer parar de encher o saco?” E eu não parei, continuei falando… então, ô Dilma, se você veio aqui na Conferência pra conferir se está tudo “nos conformes”, eu vim aqui dizer pra vocês que o importante é o principal, o resto é secundário.

link para a íntegra do discurso de Lula na abertura da Conferência

guido viaro - auto retratos

24 de fevereiro de 2010 - por gil

p-037_mg_1338-gv-1914-auto-retrato-n1-32x315cm-acfamilia
óleo sobre tela /1914 - 31,5×32 cm.  Acervo da família.

Viaro por ele mesmo

Alguém perguntou-me uma vez o que eu era. O que eu era? Confesso que até então nunca tinha pensado nisso. De fato, o que eu era? Como eu sou? Meu retrato? Retrato físico ou moral? Fiquei perplexo a tal pergunta, não soube responder. Geralmente tenho resposta pronta, mas aquela vez fiquei de boca aberta como um pateta. Como eu era? Que significava isso? Mas para que? Nunca me tinha proposto esta questão. Havia alguma necessidade de saber o que uma pessoa era: mera curiosidade ou finalidade especulativa? Afinal a gente é o que é — com seus brancos e pretos —, sua particular elasticidade para poder adaptar-se, para melhor se locomover, para invadir o campo branco, hoje, e amanhã o preto se for necessário, segundo as necessidades que a própria vida impõe ao sujeito.

p-004-gv-1934-auto-retrato-n4-44x39cm-oleo-s-tela-acfamilia
óleo sobre tela /1934 - 39×44 cm.  Acervo da família.

Como sou eu? Isso que é bonito! Eu sou o que sou; o espelho me fala a mesma linguagem de sempre, clara e insuspeita, sobre isso não tenho ilusões. Até os dias são contados pelo frio e indiferente amigo. Mas esse amante não parece interessar-se pela imagem física, quer conhecer a outra, aquela que nem o espelho e nem a foto revelou jamais a ninguém. Como se pode, então, descobrir o monstro que está escondido no fundo de nosso ser, assim sem prévio cerimonial, assim displicentemente? Apresentar ao lado de um Leo forte e sadio, o outro Leo raquítico ou vesgo? Um sósia que o mundo não pode aceitar por não ser a cópia autêntica do outro… ora, quem acreditará nesta figura que leva o mesmo nome, a mesma altura, os mesmos olhos, se vista obliquamente exibe toda a falsidade da primeira e a contrafação da segunda?

Então que queres conhecer? Seria bom desistir, amigo. Há mil séculos que tu vês criaturas que buscas em mim? Por que me segues olhando duro ou serenamente a todos os minutos que apareces? Por que és minha própria sombra? Por que te escondes e apareces de repente? És mais cômico do que trágico amigo. Será que ainda não pudeste entrar pela porta de serviço e espiar a teu prazer a pantomima? Os bastidores acolhem serenos e o pano de boca, veda? Será que tua perspicácia não alcançou a safadeza no olhar dos vendilhões de feira? Devias tudo ter adivinhado, mas, como queres tanto saber o que sou, vou te contar simplesmente o que sei.

p-020_mg_1160-gv-1935-auto-retrato-n8-43x445cm-oleo-s-tela-acfamilia
óleo sobre tela /1935 - 43×44,5 cm.  Acervo da família.

Nasci nu como os outros, em terra longínqua muito pobre e bonita. Meus pais fizeram tudo para mim, não correspondi porém às esperanças deles. Às vezes tenho remorsos disso, já é tarde (não pensem que o digo por cinismo), o que posso fazer agora? Nada. Com vinte anos, a política me pegou pelos cabelos e me empolgou ao ponto de ser chutado logo depois. Por quê? Por falta de equilíbrio, exorbitância de limites e outras coisas. Viajei um pouco, conheci homens de bem e maus sujeitos, sofri fome, que é o penúltimo dos tormentos. Quase sempre fui mal interpretado, embora sendo franco e honesto. Foi justamente neste setor humano que a sociedade sempre se equivocou. Por quê? Porque o homem social sempre foi ser fictício, um ser forjado de acordo com o ambiente, geralmente um boneco consciente com finalidades determinadas. O ser “fauve” nunca foi apreciado, nenhuma sociedade por mais livre pode aceitar o indivíduo que diz na lata o que sente e o que pensa. Pode, à primeira vista, achar graça, engolir sabiamente a pílula, segundo a ciência oriental, mas em seguida — logo que puder — afunda o sujeito sem dó nem piedade.

p-014_mg_1149-gv-1935-auto-retrato-n2-275x23cm-oleo-s-tela-acfamilia
óleo sobre tela /1935 - 23×27,5 cm.  Acervo da família.

Queres saber o que sou? Sou, no final de contas, um pobre diabo como tem tantos, talvez mais ainda que os tantos por ser visionário. Gostaria de ser útil; gostaria de fazer grandes coisas, o sonho me empolga — não à maneira das donzelas — mas depois… vejo, com nenhuma surpresa, que os sonhos eram castelos de papelão e que só resta ao homem o trabalho honesto e consciente.

Às vezes quero ser um forte, ter coragem, me bater à maneira antiga, mas cadê coragem? No fundo sou profundamente covarde (não tenho medo de mim mesmo porque em tal caso seria parecido com a anedota espanhola), mas, que o Sancho Pança tem grande atuação em mim é um fato, não posso negá-lo. Artisticamente não sou ainda um fracassado, graças às qualidades da vontade.

p-104_mg_1557-gv-1947-auto-retrato-49x35cm-oleo-s-tela-acfamilia
óleo sobre tela /1947 - 35×49 cm.  Acervo da família.

Eu não sou um pintor nato, mas um artista em caminho. Até agora nada de notável produzi, colhi muitos elementos, anotações em quantidades. Explorei até os meus próprios sedimentos para ver se achava elementos novos que me facilitassem a escalada da montanha, sem nada ver, sem nada encontrar, só escombros e cadáveres de outros esforços mal digeridos. Quanto é difícil, Senhor, fazer alguma coisa sadia. Olhando distraidamente uma noite estrelada e considerando em seguida nosso arcabouço, não preciso dizer mais nada e depois a outra advertência: apodrecemos, que tal?

g-002_img_0510-gv-1950-auto-retrato-137x117cm-zincogravura-acfamilia-nmgvzincogravura /1950 - 11,7×13,7 cm.  Acervo da família.

Creio na amizade e ainda mais na inimizade. Destas tenho muitas e que muito me honram. Amizades bem poucas e todas conquistadas com bastante paciência. Tenho poucos apreciadores sinceros, de certo não se pode esperar por uma conquista total, uma vez que aqueles que nos são parecidos são poucos: devem ser poucos, de fato, e entre esses devem ser considerados aqueles anônimos que vivem ligados ao nosso espiritualismo, pelos fios invisíveis das analogias interiores. Já este fato de termos gente que nos entende faz com que as torturas e as dúvidas de que somos constantemente assaltados se tornem menos doloridas.

Essas torturas morais refletem no físico, uma necessidade contínua de se movimentar, de falar, de atacar sem motivo os outros, por que isso? Para esvaziar a vesícula, para não arrebentar. O que me faz parar alguns tempos sem falar e sem destilar veneno é a pintura. Aí no campo posso ficar duas, três e quatro horas sem nada pedir, preocupado em interpretar a natureza, tentando harmonizar o de fora com o de dentro, de maneira a me satisfazer pessoalmente. Poucas vezes consigo isso. Outras, estou no campo e pinto coisas que não tem nada com as que estão diante dos olhos, mas estou no ambiente e isto me basta.

p-035_mg_1330-gv-1954-auto-retrato-n3-65x485cm-oleo-s-papelao-acfamilia
óleo sobre papelão /1954 - 48,5×65 cm.  Acervo da família.

Tentei várias vezes fazer vida de atelier, como muitos conhecidos fazem, entrar e sair a hora fixa, não resisti, porém, muitos dias. Um horário fixo me oprime como um pesadelo, e a mais, tenho a impressão que o tempo escraviza o homem de tal maneira a fazer dele um ser avesso, que contraria todas as leis, principiando por aquela do bom senso. Fazer tudo a hora fixa, como se fosse uma máquina, para se mostrar alguém excelentemente organizado é bem forte. O homem deve ser o que ele é, sem o uso da lixa.

p-065_mg_1469-gv-1959-auto-retrato-n6-50x40cm-oleo-s-tela-acfamilia
óleo sobre tela /1959 - 40×50 cm.  Acervo da família.

O homem galvanizado de hoje é meio homem, assim ele paga o próprio tributo social. Dizia que o atelier é excelente amigo da gente quando se quer trabalhar, quando se é perseguido por alguns fantasmas, por alguns amantes e a gente, de dentro do atelier pode responder: não estou, não tem ninguém! O atelier é bom para pensar, para estudar e assentar notas. É bom porque contém todos os nossos esforços, uma parte dos nossos pensamentos, pensamentos que nos custaram dias e noites de insônia. Embora tudo isso represente uma parte de vida interior, tem dias que não podemos ficar nem um minuto nesse ambiente.

Dias em que negamos tudo o que fizemos, tudo o que está dentro como se fosse um lugar de mentira. Mas, não seria mentir mesmo tudo o que nós fazemos? Não será talvez uma contrafação pueril da natureza o que grafamos sobre um piano, mesmo alcançando o essencial que é a poesia? Tudo o que sai de dentro e que não tem a feição comum das coisas que o mundo está habituado a ver diariamente seria pacotilha ou a verdadeira confissão da alma? E esta displicente confissão que representa a essência do ser e que o mundo exterior clama pela irrealidade, não seria um caminho falso que leva ao abismo?

Nada sei. Sei que só me resta trabalhar tenaz e continuamente para poder, um dia no fim da vida, dizer que consegui pouco em tanto esforço, mas fiz alguma coisa.

Guido Viaro - Revista Joaquim #18 - maio de 1948.

Link para página do Museu Guido Viaro,  inaugurado em 10/11/2009, em Curitiba - PR

Link para post sobre Pintores da Paisagem Paranaense.

* as  reproduções apresentadas neste post foram gentilmente cedidas por Tulio Viaro, cineasta e neto do artista. Publicarei na sequência outras séries de pinturas, na intenção de trazer à público parte da pictografia paranaense, ainda pouco disponibilizada na internet.

rancho das flores - carnaval de curitiba - 13/02/10

19 de fevereiro de 2010 - por gil

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba_web1

Todo mundo sabe que eu sou meio turrão. Quando empaco, não vou pra frente de jeito nenhum. Nem que leve um pontapé na bunda. Mas, sábado fui conferir o carnaval no Centro Cívico. Cheguei lá e a turma já estava no embalo, aguardando o horário do desfile do Rancho das Flores. Eu não ia desfilar nem com reza, mas o Rodrigão e o Ferreira, meus amigos há mais de 30 anos, me convenceram. E lá fui eu cheio de razão e vazando cerveja. E sabem de uma coisa? Foi muito legal, aliás, foi divinamente genial desfilar com aquela turma de foliões que hoje estão na melhor idade. No próximo ano estarei lá com toda a certeza. Obrigado, Rodrigão e Ferreira. Aquele abraço.
Thadeu Wojciechowski, o Polaco da Barreirinha.

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba4
Antonio Thadeu Wojciechowski e Rodrigo Barros Del Rey, puxadores do Rancho na avenida.

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba9

A participação do Rancho das Flores nos desfiles de rua é uma tradição no Carnaval de Curitiba. O bloco formado por foliões com idade entre 65 e 90 anos é coordenado pela Fundação de Ação Social (FAS) e Fundação Cultural de Curitiba e reúne, em média, 500 participantes dos programas da prefeitura municipal para a terceira idade. A primeira apresentação aconteceu no Carnaval de 1990, com o tema Primavera. Desde então o Rancho das Flores inova a cada ano com um novo enredo.

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba18

CLIQUE E OUÇA - Rancho das Flores. Água, vida e fantasia - 2010
voz: Rodrigo Barros Del Rey
Composição: Thadeu Wojciechowski e Luiz Ferreira.

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba20

Quem sai na chuva é pra se molhar
Carnaval é pra pular, viver, brincar

Água em pedra rebenta e não demora
Se for pra ser feliz que seja agora

É lindo este povão
Sorrindo na avenida
Chegamos pra mudar a sua vida

Sai pra lá, mau humor
Vem pra cá, alegria
Rancho das Flores
Água, vida e fantasia.

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba19
Marcinha Souza, rainha do Carnaval de Curitiba em 2010.

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba39
Nego Lírou, de chupeta no pescoço, comandou o batuque do bloco…

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba30
… que teve como madrinha da bateria a artista plástica Margit Leisner…

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba7
Maringas Maciel na pista…

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba66
… Luiz Ferreira, no cavaquinho…

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba38
… o  contrabaixista Glauco Solter

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba34
… Barbara Kirchner, curitibaneando.wordpress.com

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba64
… e foliões de todas as idades.

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba57Casal assiste aos desfiles no Centro Civico, sentado na escultura “Luar do Sertão”, de João Turin /1946, em frente a prefeitura municipal…

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba63
… do outro lado da rua, guardas municipais e familiares faziam vigilia pedindo melhores salários e condições de trabalho adequadas.

ranchodasflores_foto_gilsoncamargo_13_02_10curitiba26
Muga Riesemberg e Maureen Miranda.

Fim.