Arquivo de dezembro, 2008

maureen miranda - desenho

sábado, dezembro 20th, 2008

sempre tive inveja dos desenhistas
uma inveja boa
basta um lápis
ou um graveto na beira da praia
pra eles logo se expressarem
sem que as coisas precisem existir
e sem pagar tributo à máquina

link para o blog da maureen

volta ao dia… - cia. brasileira de teatro

domingo, dezembro 14th, 2008

Ficha Técnica:
Texto: Julio Cortázar, Maureen Miranda e Christiane de Macedo
Direção e dramaturgia: Marcio Abreu
Elenco: Christiane de Macedo e Maureen Miranda
Cenário e Figurino: Teca Fichinski
Música original: Octavio Camargo
Iluminação: Nadja Naira
Filme em Super 8: Marcio Abreu
Operação de som e vídeo: Moacir Leal
Produção e Realização: Companhia Brasileira de Teatro

Christiane de Macedo

É assim Rocamadour. Aqui nós somos como cogumelos, crescemos nos corrimãos das escadas, em quartos escuros aonde cheira a gordura, aonde a gente faz amor o tempo todo, frita ovos e põe discos e acende cigarros e fala…
voce nem pode imaginar tudo o que fumamos, o tanto que fazemos amor, de pé, deitados, de joelhos, com as mãos, com as bocas, chorando ou cantando. E lá fora existe de tudo, as janelas dão para o ar e isso começa com um pardal ou uma goteira. Aqui chove muito Rocamadour, muito mais do que no campo, e as coisas enferrujam, os canos, as patas dos pombos, os arames com que ele fabrica esculturas. Quase não temos roupa, precisamos de tão pouco, um bom casaco, uns sapatos nos quais não entre água. Somos muito sujos. Todo mundo é muito sujo e bonito aqui. As camas tem um cheiro de noite e sono pesado. Temos brigas terríveis. Quando queremos pôr uma bacia no chão temos de empurrar a vitrola para um canto, nunca podemos pôr em cima da mesa, ela está sempre coberta por livros. Eu não poderia te ter aqui. Embora voce seja tão pequeno não caberia em lugar nenhum. Esbarraría na parede. Quando eu penso nisso eu começo sempre a chorar. Ele não entende, diz que sou ruim, que faço mal em não te trazer embora eu saiba que ele não te suportaria por muito tempo. Ninguém suporta as coisas por muito tempo aqui, nem você e eu. É preciso viver combatendo, é a lei, é a única maneira que vale a pena, mas dói Rocamadour, é sujo e amargo. Você não gostaría disso, você que vive vendo os cordeirinhos no campo e escuta os pássaros no telhado da casa. Ele diz que sou sentimental, que sou materialista, diz que sou tudo só por não te trazer, ou porque quero te trazer, porque renuncio, porque quero ir te ver, porque de repente compreendo que não posso ir. Porque sou capaz de andar uma hora sob a chuva se em algum bairro que eu não conheça estiverem passando o Potemquim, e é preciso vê-lo Rocamadour, mesmo que o mundo acabe. Porque o mundo já não importa se não estivermos procurando algo verdadeiro, se estivermos tão arrumados quanto uma gaveta da cômoda, e te colocamos num dos lados, o domingo no outro, o amor de mãe, o brinquedo novo, o trem, a visita que é preciso fazer. Eu não tenho vontade de ir Rocamadur, e você sabe que está tudo certo e não fica triste. Ele tem razão, às vezes não me preocupo tanto com isso e acho que um dia você vai me agradecer por isso. Quando compreender, quando ver que valia a pena que eu fosse como sou. Mas choro da mesma forma Rocamadour, e te escrevo esta carta porque não sei, porque talvez me engane, porque talvez seja ruim ou um pouco idiota, não muito, um pouco.
Tenho os dedos dos pés metidos completamente pra dentro. Vou estourar os sapatos se não os descalçar já.
E eu te amo tanto Rocamadour, bebê Rocamadour, dentinho de alho, te quero tanto, nariz de açúcar, árvorezinha, cavalinho de brinquedo…

Julio Cortázar
(tradução de Sabe Alah)


Chris Macedo e Maureen Miranda

Aí eu disse pra ele:
- Eu sou uma pessoa chic, eu sou simples, só que sou cara, sou cara mesmo, dinheiro ó, vai na minha mão, vai!!! Eu gosto de me vestir bem, eu gosto de comer bem querido, eu não vou namorar com você, se conforma…
Aí eu disse pra ele:
- Eu posso sair com você… eu posso dormir com você… mas eu não vou namorar com você… sabe por que? Porquê você não é homem pra mim, você não me obedece, tá me entendendo?
Aí eu disse pra ele:
- Diante de algumas pessoas a gente tem que se fingir de idiota, para que não nos tomem por idiota!!!
Aí eu disse pra ele:
- Por que que homem não sabe pegar em peito de mulher??? Tem que pegar assim ó, por baixo, o cara pega assim ó, porra você se sente uma vaca!!!
Aí eu disse pra ele:
- Quantos anos você tem? Ele disse, 28!!!! Porraaaaaa, 28 anos e ainda não aprendeu? Péssimoooo, eu no teu lugar já teria aprendido the long time!!!
Aí eu disse pra ele:
- Digaaaa, me diz, você é ou tá se fazendo de idiotaaaa? Tá me entendendo? Não…não tá me entendendo!!!!

download mp3 - música original de Octavio Camargo

Teatro José Maria Santos - Curitiba 12/12/08

o ser humano

sexta-feira, dezembro 5th, 2008

Apesar da pretensão orgulhosa de dominar a natureza, somos ainda assim suas vítimas, porque não aprendemos a nos dominar pessoalmente. Lentamente, mas inelutavelmente, caminhamos para o desastre. Não há mais deuses a quem possamos recorrer. As grandes religiões do mundo sofrem de uma anemia aguda uma vez que as divindades propícias desertaram dos bosques, dos rios, das montanhas, dos animais, enquanto os homens-deuses foram relegados a nosso inconsciente. Vivemos na doce ilusão que eles levam uma vida ignominiosa entre as relíquias do nosso passado. Nossa vida presente é dominada pela deusa Razão, nossa maior e mais trágica ilusão.
É graças a ela que “vencemos a natureza”.
Mas isso não passa de uma mensagem publicitária, porque esta pretensa vitória sobre a natureza produziu o fenômeno desastroso da superpopulação, sem mencionar nossa incapacidade mental para adotar medidas políticas urgentes e necessárias. Continuamos a admitir como algo natural os conflitos entre os homens, e cada qual procura afirmar, constantemente, sua superioridade sobre os demais. Como se pode falar de vitória sobre a natureza?
Como toda mudança deve principiar em alguma parte, é o indivíduo isolado que terá a intuição e que promoverá a transformação. Esta mudança só pode germinar no indivíduo e seu agente pode ser qualquer um de nós. Ninguém pode ficar de braços cruzados, olhando em sua volta, até que um outro realize o que o primeiro não quis fazer. Infelizmente, nenhum de nós sabe exatamente o que fazer: talvez valesse a pena que cada um interrogasse a si mesmo, a fim de descobrir alguma coisa no seu inconsciente que fosse útil a todos. A consciência parece ser incapaz de nos auxiliar. O homem de hoje percebeu dolorosamente que nem suas grandes religiões, nem suas diversas filosofias, fornecem idéias fortes e dinâmicas que lhe dêem a segurança necessária para enfrentar o estado atual do mundo. Eu sei o que diriam os budistas: tudo iria bem se as pessoas seguissem o caminho múltiplo do Dharma (lei) e aprendessem a conhecer verdadeiramente o Si. Os cristãos nos dizem que se as pessoas acreditassem em Deus, o mundo seria melhor. O racionalista afirma que se as pessoas fossem inteligentes e sensatas, todos os problemas seriam solucionados. O trágico é que nenhum racionalista se esforça por que Deus não se comunica mais com eles, como fazia no passado. Quando me fazem esta pergunta, penso sempre naquele rabino a quem indagavam por que motivo Deus não aparecia mais aos homens de hoje. O rabino respondeu: “Hoje não há mais ninguém que seja capaz de se curvar tão baixo”.

C.G. Jung

do blog do Foca

cartaz para espetaculo teatral “totum dominatum est (tigris bondus)”