Arquivo de abril, 2010

retratos prediletos - claudete pereira jorge e helena portela - atrizes

domingo, abril 25th, 2010

claudetepereirajorge_foto_gilsoncamargo_medeia_ctba_abril2010web

Imagens produzidas para divulgação e programa do espetáculo “Medéia”, em cartaz no Guairinha a partir de 13 de maio.

Medéia assusta porque existe. Não é uma ficção
A subtração dos direitos de uma pessoa leva a consequências trágicas. Isso acontece sempre. Não se restringe à uma época ou à um território. Medéia é banida da cidade do dia para a noite, por ser estrangeira, por não interessar mais a Jasão, por ser incômoda.
Medéia se reproduz onde não há cidadania

Ela é expulsa pelas leis locais que não a reconhecem. Medéia não tem para onde ir, não pode retornar à Cólquida, ela se vê acoada, constrangida, seu marido a troca por uma grã-fina de Corinto, filha do rei Creonte.
Medéia é a violenta reação à violência

O sentimento de revolta, a injustiça, não transforma o mal em bem. A vítima retorna com uma crueldade ainda maior que a de seu agressor: explode colete de bomba.
Medéia é jogada na lama e vira areia movediça

Nem Jasão, honorável homem de sua época, chefe da expedição que resgatou o Velocino de Ouro, conseguiu levar a melhor com Medéia. É a justa paga por subestimar quem se encontra numa posição frágil, por imaginar que o poder lhe dê garantias de impunidade.
Medéia é o beijo que se transforma em tiro na boca

Na origem do delírio homicida está a subtração do afeto, o desaparecimento de qualquer lógica emotiva. A transformação da proximidade em abismo e distância engendra monstros. As maiores vinganças ocorrem entre seres afins.
Marchioro e Medéia

A montagem de Marcelo Marchioro põe uma lente de aumento na ambivalência emotiva da personagem de Eurípedes, na polifonia de vozes que determinam sua ação. Sua adaptação nos permite visualizar de forma clara o monólogo interior da infanticida, perceber sua dimensão humana, acompanhar a crise de consciência de Medéia projetada na relação com o seu duplo, a Ama, que estrangeira como ela, igualmente vinda da Cólquida, é sua serviçal e cúmplice na efetivação da terrivel vingança.
Octavio Camargo

helenaportela_foto_gilsoncamargo_medeia_ctba_abril2010web

O diretor Marcelo Marchioro e a atriz Claudete Pereira Jorge estão prestes a realizar o desejo antigo de montar Medeia, a tragédia infanticida. Chegaram a pensar em fazer um solo, mas acabaram alterando o plano para incluir em cena a filha de Claudete, a também atriz Helena Portela. À jovem coube o papel da ama, uma espécie de extensão da protagonista: sua cúmplice e a indutora de seus crimes.
Pela voz da ama ecoam as falas dos outros personagens que habitariam a tragédia escrita por Eurípedes em 431 a.C, mas, foram suprimidos nesta versão. As únicas figuras masculinas preservadas viraram imagens estáticas: não passam de uma sombra (provável solução para a presença de Jasão, o marido que abandona Medeia) ou um estandarte (o rei Creonte) ao fundo do palco. Nessa operação, perto de metade do texto original foi subtraído.
Cinco anos se passaram desde que Marcelo Marchioro dirigiu suas últimas montagens, a peça Pico na Veia e a ópera Gianni Schicchi, de Puccini. De volta à ativa, o diretor se dedica a um texto clássico, identificando nele atualidade e proximidade: “Nossa vida é uma tragédia”, diz justificando por que montar a peça agora. E completa: “A Medeia é nossa vida. Na semana passada, um homem matou dois filhos e se jogou de um prédio.”

“Medeia era uma bárbara. Veio de uma sociedade matriarcal e se viu, por amor, na sociedade grega onde a mulher não tinha a menor voz, onde o filho é do pai, não da mãe. Ela traiu pai e mãe e matou o irmão por esse homem. Está perdida, sendo banida, e seus filhos com certeza serão mortos”, descreve Claudete. E conclui, sobre essa mulher contraditória: “Para Medeia, matar os filhos não é só vingança, é instinto de proteção.”
Luciana Romagnolli - Gazeta do Povo, 25/04/10

Serviço: Medeia. Guairinha (R. XV de Novembro, s/n.º), (41) 3315-0979. Texto de Eurípedes. Direção de Marcelo Marchioro. Com Claudete Pereira Jorge e Helena Portela. Estreia dia 13 de maio, às 21 horas. Sexta e sáb. às 21h e dom. às 19h. Ingressos a confirmar.

clássicos curitibanos - marcelo scalzo - essa pazinha!

domingo, abril 18th, 2010

foto_gilsoncamargo_fev2010web

Essa pazinha é um produto derivado da exposição “Da Pá Virada“, de Marcelo Scalzo, desenvolvida a partir de pazinhas de sorvete para o projeto “Bolsa Produção”, da Fundação Cultural de Curitiba, apresentado em 2009. Produzidas em aço e acrílico como pingentes para colares e brincos, já são um ícone do design de acessórios na cidade.

Contatos:
marcelo@scalzo.com.br
41 - 3528 5322

“amoradores de rua”, pátio da reitoria / ufpr - curitiba - 09/04/10

segunda-feira, abril 12th, 2010

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba18

Um homem, identificado como João Maria Fortunato Alves, de 47 anos, foi encontrado morto na manhã desta quinta-feira no Passeio Público, em Curitiba.
A suspeita é de que a vítima fosse um andarilho e tenha ido dormir no parque. O Instituto Médico Legal (IML) confirmou na tarde de hoje que a vítima morreu de hipotermia, baixa temperatura do corpo. Segundo o Simepar, os termômetros marcavam 0°C nesta madrugada. Esta foi a segunda morte causada pelo frio em Curitiba no ano de 2009.Segundo a polícia, o local foi isolado por volta de 6h da manhã. O IML relatou que nenhum familiar veio identificar o corpo, que será encaminhado para uma necropsia, que irá identificar a causa da morte.
Rodrigo Feres - Centro de Mídia Independente - 05/06/2009

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba12

Em todos os tempos se quis “melhorar” os homens: é isso que, antes de tudo, foi chamada moral. Mas sob esta mesma palavra “moral” se ocultam as tendências mais diversas. A domesticação do animal humano, bem como a criação de uma espécie determinada de homens, são um “melhoramento”: esses termos zoológicos exprimem unicamente realidades – mas, estas são realidades das quais o sacerdote não sabe nada de fato – de que não quer nada saber… chamar “melhoramento” a domesticação de um animal soa a nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Quem sabe o que acontece nos estábulos, duvida muito que o animal seja neles “melhorado”. É debilitado, é tornado menos perigoso, pelo sentimento depressivo do medo, pela dor e pelas feridas se faz dele um animal doente. Não acontece outra coisa com o homem domesticado, que o sacerdote tornou “melhor”. Para falar em termos fisiológicos: na luta com o animal, torna-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A Igreja compreendeu isso perfeitamente: ela perverteu o homem, tornou-o fraco, mas, ela reivindicou o mérito de tê-lo tornado “melhor”.
Trecho de Crepúsculo dos Ídolos – Friedrich Nietzsche

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba11

A gestão do prefeito Gilberto Kassab, pretende impor um controle mais rígido para a entrada dos moradores de rua nos albergues da cidade de São Paulo: eles serão obrigados a assinar um “contrato de direitos e deveres” e a cumprir uma série de obrigações, sob risco de não poderem utilizar os serviços. A relação de deveres dessa população - parte da qual tem inclusive problemas mentais - ainda está sendo preparada, mas, a prefeitura já elenca entre eles a obrigatoriedade “contratual” de que tenham práticas de higiene, como banho, e também a de freqüentar cursos de capacitação profissional e de realizar tratamentos de saúde.
A medida é alvo de críticas de líderes da população de rua, para quem os moradores deverão se afastar mais dos albergues. “É uma imposição que provavelmente vai ser recusada”, afirma Alderon Pereira da Costa, presidente da Associação Rede Rua. “Querem expulsar os moradores de rua dos albergues, em vez de incluí-los?”, questiona Anderson Lopes Miranda, 32, um dos líderes do Movimento Brasileiro em Defesa da População de Rua.

Alencar Izidoro e Vinícius Queiroz Galvão, Folha de São Paulo - 02/12/2007

CLIQUE E OUÇA - Vai Tomar no Cú
Cris Nicolotti

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba30

Até o ano passado, boa parte da população de rua não existia para o governo federal. Ela entrou nas estatísticas somente em 2008 quando o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em parceria com a Unesco, fez uma pesquisa nacional sobre o tema. Os números revelaram um cenário nada animador: 32 mil pessoas nesta situação. A capital paranaense ficou com o incômodo terceiro lugar no ranking, com 2,7 mil moradores. A Fundação de Ação Social (FAS) contesta os dados e mostra uma conta com 1,6 mil pessoas a menos.
Diante deste cenário, em maio deste ano, representantes de movimentos populares, moradores e ex-moradores de rua se reuniram em Brasília para debater o que será a primeira Política Nacional da População em Situação de Rua. A missão é parar de “enxugar gelo”. O consenso entre especialistas é que a criação de albergues é uma medida paliativa, mas foi convertida na única ação do poder público. Para eles, não se pode falar em ações efetivas considerando somente a assistência social. É preciso unir educação, cultura, saúde, habitação, previdência, acesso à Justiça e ao mercado de trabalho.
Paola Carriel - Gazeta do Povo - 14/06/09

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba4

“Se a noção de publicidade um dia já foi pensada por alguns teóricos como o caráter ou o sentido público de algo, como a condição deste algo tornar-se público, se um dia esta noção já foi pensada dentro da esfera de interesses principalmente públicos, hoje o termo publicidade está inequivocamente ligado à propaganda, marketing, merchandising, é a “voz” do mercado, com interesses prioritariamente privados. O que já foi pensado enquanto opinião pública, debate público, acabou resumido a mera pesquisa de mercado, cujo principal objetivo é atuar como uma eficiente fábrica de consensos. Na atual sociedade do espetáculo não há, de fato, lugar para qualquer tipo de espaço dissensual ou contra-hegemônico, o que resulta no empobrecimento da própria experiência urbana, em particular da experiência sensível e corporal das cidades – aquilo que vai além da pura visualidade imagética. O consenso busca também uma homogeneização das sensibilidades, das diferentes formas de “partilha do sensível”.
Paola Berenstein Jacques - Notas sobre Espaço Público e Imagens da Cidade

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba5

“Sem sorte / Sem-teto / Duro, com fome, frio, deprimido / Qualquer coisa ajuda / Ficar sem dinheiro é triste.

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba36

O dinheiro que vai para o bolso de banqueiros e especuladores como pagamento de uma dívida impagável seria mais que suficiente para resolver os problemas de habitação, infra-estrutura urbana e serviços no país. Ao povo sobram migalhas, apresentadas num jogo de ilusões como grandes políticas públicas. Os vultuosos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento tem alegrado muito mais os empresários da construção civil e do ramo imobiliário do que o povo que necessita de moradia. Uma Política de Reforma Urbana que tenha como prioridade os interesses populares nunca foi agenda de nenhum governo e este caminho mata pela violência, pela fome, pelo cansaço, pela enchente, pela falta de habitação, etc. O Ministério das Cidades e seus “espaços de participação”, apresentados como avanços na efetivação de uma política urbana democrática, não representaram nenhum grande passo na solução de nossos problemas. Ao contrário, criam e reproduzem uma forma burocrática de se tratar as questões urbanas. Neste sentido, nossas ações de ocupação em todo o país são a única forma de sermos ouvidos e atendidos. Os movimentos que assinam este manifesto propõem:
- Uma política habitacional popular baseada em subsídios, com valor adequado à realidade das metrópoles, sem o entrave burocrático e elitista dos financiamentos bancários. Que o Governo Federal desenvolva uma política nacional de desapropriações de terrenos e edifícios urbanos que não cumprem função social, destinando-os às demandas populares organizadas.
- Uma política nacional integrada de transporte urbano público gratuito, de qualidade, priorizado em relação ao transporte individual, que tem levado as metrópoles ao caos.
- Uma política de educação que crie creches financiadas pelo Estado sob o controle dos trabalhadores, que valorize os professores e profissionais da educação, que qualifique o ensino não visando o mercado mas a consciência crítica e social dos alunos.
-Controle restritivo das taxas cobradas por serviços públicos básicos como água e energia elétrica, garantindo a aplicação de Tarifas Sociais previstas na lei.
-Políticas de geração de trabalho e renda que dêem alternativas sociais e não policiais aos trabalhadores informais.

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) - Manifesto Popular, de 28/03/2008

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba39

Carnaval estação sétima de minha mangueira:

Então o Carnaval vem do tempo dos homens primeiros aqueles que cantavam e dançavam sem nenhum pudor então eles cantavam e dançavam e rodavam e se travestiam para tentar atingir um instante de vertigem um momento de todo mundo girando para que então eles pudessem sair de si e experimentar um pouco mais do outro e experimentando o outro eles pudessem gozar da carne do ócio do ópio do álcool do sexo da violência e de tudo aquilo que oprime de tudo que é agonia o Carnaval não é o final é o início é o capricho é o poder é ir além é não ter medo de comer o cú é não ter medo de dar o cú é não ter medo do torpor é não ter medo do vício é desaparecer na multidão é todo mundo pulando juntinho pipocando acentuando é porra voando e fecundando o chão os homens os deuses e tudo que ali existe o sol a lua o som a luz as estrelas o céu as nuvens tudo tudo tudo tem fumaça então o carnaval é feito cachaça é feito pau cú buceta efeito ópio é a desgraça para atingir a graça é pipoca pulando numa panela suja de óleo diesel é lama lama lama lama até dentro do rabo nas orelhas no couro cabeludo é isso que eu quero é isso que eu busco deste carnaval tudo de bem e tudo de mal um entrando no outro e virando bicho para que então possamos ver como bichos cheirar como bichos comer como bichos sentir como bichos e ser bichos para que talvez então retornemos ao animal que já fomos um dia e então poder brincar um carnaval feito gente grande aí então serei eu só só eu e ninguém mais eu e meus instintos eu e meus desejos eu solto no mundo eu louco de pedra aí meu mundo é meu aí meu mundo me entendeu só eu aí na rua aí no mundo e não mais aquele escravo do próprio conforto de não ser ninguém porque ninguém chama mais atenção eu não eu não eu prefiro assim eu na contra mão prestes a me espatifar em um trem automóvel ou caminhão para então morrer e nascer e renascer todos os dias da minha vida o carnaval é um rasgo no tempo e no espaço tudo é possível não há Deus tudo é possível aí eu tipo assim um saci uma lenda aí então eu atingi o cume eu atingi o cume só o cume interessa aí então tudo de novo tudo igual até o próximo carnaval tipo pedal de bicicleta que vai girando girando girando girando girando até te secar secar teu líquido teus sais mineirais até você virar caveira e caveira é carbono e com carbono se indentifica se qualifica se quantifica se alivia alívio alívio alívio
Adriano Petermann

CLIQUE E OUÇA - Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua
Sérgio Sampaio

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba35

“(…) Puxando carrinhos construídos à mão através das ruas na procura de lixo reciclável, estes catadores de maneira não oficial fornecem à cidade uma força vital de trabalho: os catadores servem a um programa pré-existente de reciclagem (promovido pela cidade como um exemplo de suas diretrizes urbanas) emprestando-lhe uma adição complexa e complicada, a da troca injusta. Pois os catadores contam com o lixo da cidade como uma economia pirata, e a cidade, por sua vez, conta com os catadores, adotando a sua pobreza como uma fonte radical de eficiência: os catadores estão lá, todos os dias, serpenteando pelas ruas da cidade, lançando sombra à coleta oficial e seus caminhões, esperando chegar lá primeiro… (…)”
“Manual para construção de um carrinho como um dispositivo para elaboração de conexões sociais” - Octavio Camargo e Brandon LaBelle / Errant Bodies Press - 2009.

amoradoresderua_foto_gilsoncamargo_reitoria_08_04_10curitiba

Os textos apresentados neste post são fragmentos das referências utilizadas pelo projeto “Amoradores de Rua“, disponíveis em seu blog. - http://amoradores.blogspot.com

Elenco: Adriano Petermann, Martina Gallarza, Maurício Vogue, Felipe de Souza, Marcelo Szymanski e Diego Marchioro.
Direção: Rafael Camargo

“travesties”, cia. de ópera seca - teatro guaí­ra - curitiba - 20/03/10

domingo, abril 4th, 2010

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao9
Patrícia Dinely e Germano Melo em cena de “Travesties”, de Tom Stoppard, encenada pela Companhia de Ópera Seca.

Sugestões para título em português:
“Paródias”
“Imitações Baratas”
“Farsas Burlescas”
“Pastiches”
“Transformações”

download do texto integral do espetáculo - arquivo .doc

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao33

Autor: Tom Stoppard | Direção e Iluminação: Caetano Vilela | Produção Executiva: Célia Pagan | Elenco: Germano Mello, Rodrigo Lopez, Manoel Candeias, Roberto Borges, Fabiana Gugli, Patrícia Dinely e Anette Naiman | Cenário: William Pereira | Figurinos: Olintho Malaquias e Chris Aizner | Trilha Sonora para Música Originalmente Composta: Ricardo Severo | Dramaturgia: Sergio Zeigler | Tradução Marco Antônio Pâmio | Duração: 150 minutos | Classificação: 16 anos

(…) Você acha que sabe tudo! - enquanto nós pobres imbecis achamos que estamos lutando por ideais, você tem uma profunda compreeensão do que está realmente acontecendo, lá no fundo! - você tem uma frase feita pra isso!
Henry Carr, personagem central do espetáculo

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao16

A peça se passa em Zurique, em dois locais: o vestíbulo no apartamento de Henry Carr (“A SALA”) e uma seção da Biblioteca Pública de Zurique (“A BIBLIOTECA”). A maior parte da ação se passa dentro da memória de Carr, que remonta à época da Primeira Guerra Mundial, e essa época se reflete de maneira apropriada nos cenários e figurinos, etc. Deve-se concluir que o Velho Carr está vivendo no mesmo apartamento desde essa época.

Começamos na BIBLIOTECA

Há lugares para JOYCE, LÊNIN e TZARA.
GWEN senta-se com JOYCE. Eles estão ocupados com livros, jornais, lápis… LÊNIN também escreve silenciosamente, no meio de livros e jornais. TZARA está escrevendo quando a peça começa. Em sua mesa há um chapéu e uma tesoura bem grande. TZARA acaba de escrever, depois pega a tesoura e corta o papel, palavra por palavra, e coloca tudo no seu chapéu. Quando todas as palavras estiverem dentro do chapéu, ele o chacoalha e despeja o conteúdo em cima da mesa. Ele separa rapidamente os pedaços de papel em fileiras aleatórias, virando algumas de lado, etc, e então lê o resultado em voz alta:
TZARA: Ih leite um nome Sá pele tzara
Quedê rixa é esse a tio Lennon pá rei!
Ih reste Alá suísse pasquim ih leite una ar triste,
Num Avon quer lá Hilde Clara!

CECILY (entrando): Sssshhh!

N. do T.: O poema cortado, embaralhado e rearranjado por Tzara, em sua versão “dadaísta” transforma-se em francês fonético, semelhante a “Il est um homme, s’appelle Tzara/Qui dês richesses a-t-il Le nonpareil/Il reste a La Suisse parce qu’il est um artiste/’Nous n’avons que l’art’, Il declara” (O homem de nome Tzara/de talentos sem comparação/está morando na Suíça como artista/e declara que tudo que importa é a arte). A tradução procurou a semelhança fonética no português, por orientação do próprio Stoppard.

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao23

(O palco agora pertence a CARR VELHO. A BIBLIOTECA deve ser substituída pela SALA. É desnecessário dizer que a mudança deve acontecer com o mínimo possível de interrupção e com uso de música como ponte de uma coisa para outra. É possível que CARR tenha permanecido imóvel no palco desde o início, um homem velho recordando…)

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao12-copy
O ‘velho’ Henry Carr (Germano Melo) faz um esforço para lembrar como tudo aconteceu:

CARR: Minhas memórias, é isso, então? Vida e época, amigo dos famosos… Como ele era, o James Joyce? É o que sempre me perguntam. É verdade que eu o conhecia bastante, bem no auge de seus poderes, seu gênio jorrando com toda intensidade na criação de Ulisses, bem antes que a fama e a imprensa o tornassem um monumento público para as câmeras estrangeiras – Memórias de James Joyce… Está vindo…
Para aqueles de nós que o conhecemos, a genialidade de Joyce nunca foi colocada em dúvida. Estar na presença dele era ter a certeza de um intelecto incrível, determinado em ser moldado na forma permanente de seu próprio monumento – o livro que o mundo agora conhece como Ulisses!

A memória de Carr dá voltas, retorna a cenas já visitadas, trai-se o tempo todo. Resta ao espectador embarcar não numa trama de detalhes históricos, mas numa ficção, que, com a Ópera Seca, pende para o teatro absurdo de Samuel Beckett. “Lênin começa a peça saindo da gaveta”, ilustra Vilela, que mantém a linguagem imagética de Gerald Thomas.
Gustavo Fioratti - Folha de São Paulo - 19/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao24
O ‘jovem’ Henry Carr (Germano Melo): “(…) Como eu gostaria de retornar as trincheiras! Aos meus camaradas armados. O espírito maravilhoso no meio da lama e do arame farpado. Os dias valentes e as noites medonhas …”

“O ator tem que ser canastrão. Não interessa para o público a verdade do ator, mas a verdade do jogo, que é artificial.”
Germano Mello - Portal IG - 19/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao32Tzara (Rodrigo Lopéz): “Ah o prazer, o prazer, que outra coisa pode levar a gente a algum lugar?”

Travestir-se de alguém, travestir-se de uma idéia no sentido de se apropriar disso, vestir isso, ser outra coisa… eu faço Tristan Tzara que é o fundador do movimento dadaísta, que foi uma das vanguardas históricas do século passado, mas, no segundo ato ele se traveste de Tristan Tzara, então tem esse jogo do que é histórico e o que é de mentirinha.
Rodrigo López - Blog do Festival de Curitiba

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao31

A peça Travesties encenada pela Companhia de Ópera Seca questiona a todo momento o papel do artista e sua função na sociedade, assim como a importância da Revolução nas artes. A farsa expõe diferentes aspectos artísticos com pequenos conflitos que vão desde a utilização da arte como uma ferramenta de apoio crítico pelos revolucionários até a criatividade da poesia com preocupações estéticas. Trazendo o contexto para a realidade atual, os atores brincam com a plateia em um momento da peça questionando quem é o grande artista curitibano. Rapidamente alguém responde “Leminski!” e ouve um bem-humorado “Leminski? Não conheço…” dito por Rodrigo Lopez, que interpreta Tzara.
Vitor Geron - Gazeta do Povo/PR - 21/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao7
Carr (Germano Melo) e Tzara (Rodrigo Lopéz) perguntam à platéia: “O que é um artista? De cada mil pessoas no mundo, novecentas estão dando duro, noventa estão fazendo o bem, e um único filho da puta sortudo é o artista!”

Mais do que qualquer avaliação deste texto, aparentemente anárquico, de Stoppard, é necessário registrar a coragem do diretor Caetano Vilela em encenar peça com tanta referência e humor britânico (…) Quem resistiu, pode usufruir de uma montagem vibrante, repleta de ironia e de beleza visual atordoante.
Macksen Luiz - Jornal do Brasil/RJ - 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao106

As quase três horas de espetáculo são interrompidas por um intervalo de 15 minutos que diverte boa parte dos presentes. De uma forma engraçada, o público é convidado a “dar uma volta” enquanto ouve um resumo da obra de Karl Marx que, na verdade, é utilizada como parte da brincadeira. A parada antes das últimas cenas também questiona se o público está entendendo o que se passa no palco…
Vitor Geron - Gazeta do Povo - 21/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao60Cecily (Fabiana Gugli) num embate ideológico com Carr (Germano Melo): “(…) Mas nós vivemos numa época em que a ordem social é vista como um trabalho das forças materiais; e nos foi dado um tipo completamente novo de responsabilidade, a responsabilidade de transformar a sociedade.”

O artista não é especial. Especial é o que tem a dizer. Ficamos presos ao culto à figura, que é desinteressante.
Caetano Vilela - JB Online 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao82Lenin (Roney Facchini) e sua mulher Nadia (Anette Naiman): “(…) A foto do passaporte vai ser minha usando peruca … Estou lhe escrevendo porque tenho certeza de que tudo entre nós ficará no mais absoluto sigilo”

Excelente! O texto denso e ótimo, mas deixou nosso grupo formado por Economistas, Historiadora e Psicóloga perdido em alguns momentos, pois há muitas referências (acredito que muita gente não entendeu nada), mesmo assim é muito bom. O figurino e o cenário são incríveis. A chuva de livros me deixou boquiaberto! Deveria explicar que é REALMENTE um intervalo, pois muitos não voltaram. Recomendadíssimo!
Vinicius - Campinas/SP  - Blog do Festival de Curitiba - 20/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao90Nadia (Anette Naiman) e Lenin (Roney Facchini) ’submergem’ no fosso do teatro ao som de uma Sonata de Beethoven - ao fundo Bennett (Roberto Borges) prepara o chá das 5. Últimas palavras de Lenin: “… a obrigação é infernalmente difícil”.

Gerald Thomas disse que não tem planos de voltar ao teatro. Caso não retorne, a perda será inestimável. Afinal, suas contribuições ao desenvolvimento do teatro contemporâneo são inegáveis, a julgar pela revalorização da noção de texto em suas encenações, não mais circunscrito ao limitado plano verbal, e pela habilidade em se apropriar de dramaturgias de autores diversos (especialmente, Samuel Beckett). Em todo caso, o afastamento de Thomas não inviabilizou a continuidade da Cia. de Ópera Seca, que apresentou no Festival de Curitiba a encenação de Travesties, de Tom Stoppard, assinada por Caetano Vilela.
Daniel Schenker - Jornal do Brasil/RJ - 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao94
Chá das 5, pastelão com direito a bolo na cara. Gwendolen (Patrícia Dinely) e Cecily (Fabiana Gugli): “Ah, Gwendolen, ah, Gwendolen a Biblioteca viverá com seu legado. Agora sobrou o Sr. Tzara e seus chiliques, porque os outros bolcheviques estão num vagão especial para Petrogrado. Ah, Gwendolen, ah, Gwendolen, queria que você fosse a primeira a saber… Tristan está empenhado a lutar pelo proletariado. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer*.”

*Liberdade poética deste tradutor, que cita aqui a frase-chave da música “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, hino revolucionário no Brasil dos anos 60.
Marco Antônio Pâmio - N. do T.

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao88
Ao som de um samba Cecily (Fabiana Gugli) dança em uma auto citação sobre trabalhos anteriores da Cia. de Ópera Seca.

Parabens!
UFA!
isso nao eh um post
eh um terremoto!
LOVE
G

Gerald Thomas - no blog “Vira Lata” - 01/04/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao98

CARR: Grandes dias… Zurique durante a guerra. Refugiados, espiões, exilados, pintores, poetas, escritores, radicais de todo tipo. Eu conheci todos eles. Costumávamos discutir madrugada adentro… no Odeon, no Terrace…

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao105
O velho Henry Carr (Germano Melo) volta para o ‘arquivo-morto da história’ sendo traído pela sua memória:

“Eu aprendi três coisas em Zurique durante a guerra. Eu tomei nota delas. Primeira: ou você é um revolucionário ou não é, e, se não for, é melhor ser um artista do que qualquer outra coisa. Segunda: se você não consegue ser um artista, é melhor ser um revolucionário… A terceira coisa eu esqueci.”
(BLACKOUT)

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao103
Ao som da batida de um samba todo o elenco destrói o cenário-instalação de William Pereira.

Link para o blog de Caetano Vilela, diretor e iluminador deste espetáculo, para o qual foram produzidas estas imagens.

P.S.: “Travesties” de Tom Stoppard, com a Cia. de Ópera Seca, está aprovado na Lei Rouanet (PRONAC: 096279) para captação no valor de 865 mil reais até outubro/2010. Contatos: Vlaanderen Produções Artísticas (Flávia Furtado: flavia@vlaanderen.com.br)