a polaquinha - dalton trevisan

Guta Stresser em cena de “O Vampiro e a Polaquinha” dirigida por Ademar Guerra e no camarim do Teatro Novelas Curitibanas em sua estréia em 1992.
Bobinha, de mim já não falo. Me enxugava no banheiro. Puxa, que susto.
- Está nascendo cabelo…
Um por um, tentei arrancar - doía muito. Confessei o medo para minha irmã.
- Lá embaixo.
Ela me acalmou:
- Sua tonta, é assim mesmo. Quando veio a primeira vez, bem me apavorei.
- Estou sangrando. Acho que vou morrer.
Correndo a toda hora ao banheiro.
- Estou me esvaindo… De novo, minha irmã:
- Agora você sabe. O que é moça. Daqui a um mês. Todo mês.
Me ensinou a usar toalhinha, ainda o tempo da toalhinha. Esquecida horas no banheiro, lavando, lavando. Para a mãe não ver.
O seio aflorando, o biquinho doendo - de sete novenas fiz promessa.
- Meu Deus, me acuda. Se aperto o biquinho, sai leite?
O primeiro namorado, sabe o quê? Ah, o beijo único na boca. Já era pecado: duas línguas na boca. Me abraçava, eu tremia de gozo. Tanto medo: duro, grande, furando a calça. O tempo das primeiras calças justas. Ele descia reto: o começo ali no umbigo? Como adivinhar que se dobrava para cima?
Os dois de pé, na varanda, naquelas tardes fagueiras. Qual era o versinho antigo? À sombra das bananeiras, agarradinhos, debaixo dos laranjais. Pelos cantos, a sua terceira mão, na escola noturna. Oh, João.
Passamos o domingo na praia. Galinha com farofa, a descoberta do mar, o rosto em fogo do sol. De volta, no ônibus, minha mãe dormia ao lado. Começamos a nos beijar ali no escuro.
- É um jogo - eu disse. - O que faço em você, faz em mim.
Morria de vontade que me pegasse no seio. Qual seria a sensação? Primeiro um beijinho no nariz. Alisei o queixo, a penugem do braço. Abri-lhe a camisa, achei um cabelo crespo no peito. Um olho nele, outro na mãe dormindo. Se ela acorda, já pensou?
Linhas iniciais do romance “A Polaquinha”, de Dalton Trevisan - download - aqui

Depois que Dalton Trevisan tem, no Brasil e até fora do Brasil, o reconhecimento dos entendidos, não falta quem pergunte quando é que o contista vai deixar de ser o miniaturista que é, de visão microscópica, perfeccionista, para aventurar-se no estirão de uma história comprida.
Um romance - por que não? Depois de 18 livros de contos, sem falar das três antologias, o clube de admiradores do escritor impacienta-se. Pelo menos alguns de seus leitores ousam indagar de público se o estreante de Novelas Nada Exemplares, um quarto de século depois, não estaria disposto a sair, senão para um novo gênero, ao menos para uma nova medida.
Felizmente, Dalton Trevisan está condenado a ser sempre Dalton Trevisan. Sua nota pessoal é imutável e está no seu texto cada vez mais cerrada O escritor busca sem descanso uma concisão que é cada vez mais rica. Asceta impenitente, suas histórias se escrevem com palavras e com silêncio.
As palavras são simples e exatas. Do silêncio pode-se dizer que é à sua maneira eloqüente, já que alcançou uma insubstituível função na técnica, na arte e no texto do contista. Confiando em si, na sua lâmina sóbria, Dalton Trevisan quer confiar também no leitor. Desafia o leitor, sobretudo aquele que, teimoso, conhece o código do escritor.
Se também esse tipo de leitor exigente e compreensivo, membro da maçonaria daltônica, reclama uma história longa do escritor, aqui está ela - A Polaquinha. Dono de seu espaço, mestre da história curta, Dalton Trevisan criou um universo próprio, que lhe pertence por direito de conquista e originalidade. Qualquer leitor atento identifica esse universo à primeira vista.
Basta uma frase. Basta às vezes uma palavra. Um detalhe - e são pessoais e intransferíveis os seus detalhes, capazes de enriquecer uma situação, um diálogo ou um personagem. O mundo de Dalton Trevisan está fechado nele. Ou melhor: em sua obra, que ele partilha conosco. Tem-se dito que não há nesse mundo, ou nessa obra, uma visão otimista. E há em contrapartida uma boa dose de crueldade. Da minha parte, vejo em Dalton Trevisan o escritor. Singularissimo. Capaz de proezas que apura até o extremo de seu talento criador. Escritor operoso e insatisfeito, seu texto é cada vez mais denso. Aqui, nesta história longa, neste romance, pode-se ver também - e agora mais de perto - o que é a arte de Dalton Trevisan.
Essa arte em última análise exprime-se através de uma visão misericordiosa, de genuína compaixão pela aventura humana. A Polaquinha não é a réplica feminina do vampiro, ambos cidadãos de uma Curitiba que é real e não é real. A Polaquinha retoma um tema eterno. Há muita perdição na sua busca. Há culpa e há castigo. Á vida é implacável. Quem o diz não é Dalton Trevisan. Quem costuma dizê-lo, ou comprová-lo, é a própria vida.
Na pena e na visão de Dalton Trevisan, essa vida não se perde. Ela está aqui, para sempre. Por obra e graça de um escritor que tem o senso dramático da condição humana. E tem sutilezas e remissões literárias do melhor quilate.
A Polaquinha é inesquecível. Sobretudo se o leitor, como essa pobre moça, está inclinado a crer que nunca se sabe nada de ninguém. Por isto convém continuar indagando. E ler, renovado, renovador, o romancista Dalton Trevisan.
Otto Lara Resende, nas orelhas do livro - Editora Record
19 de agosto de 2009 às 3:59
[...] Olhar Comum » Arquivo » a polaquinha – dalton trevisan [...]
19 de agosto de 2009 às 9:13
E viva o Vampiro e as Polaquinhas!
20 de agosto de 2009 às 19:10
quebrou o baú?