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volta ao dia… – cia. brasileira de teatro

Ficha Técnica:
Texto: Julio Cortázar, Maureen Miranda e Christiane de Macedo
Direção e dramaturgia: Marcio Abreu
Elenco: Christiane de Macedo e Maureen Miranda
Cenário e Figurino: Teca Fichinski
Música original: Octavio Camargo
Iluminação: Nadja Naira
Filme em Super 8: Marcio Abreu
Operação de som e vídeo: Moacir Leal
Produção e Realização: Companhia Brasileira de Teatro

Christiane de Macedo

É assim Rocamadour. Aqui nós somos como cogumelos, crescemos nos corrimãos das escadas, em quartos escuros aonde cheira a gordura, aonde a gente faz amor o tempo todo, frita ovos e põe discos e acende cigarros e fala…
voce nem pode imaginar tudo o que fumamos, o tanto que fazemos amor, de pé, deitados, de joelhos, com as mãos, com as bocas, chorando ou cantando. E lá fora existe de tudo, as janelas dão para o ar e isso começa com um pardal ou uma goteira. Aqui chove muito Rocamadour, muito mais do que no campo, e as coisas enferrujam, os canos, as patas dos pombos, os arames com que ele fabrica esculturas. Quase não temos roupa, precisamos de tão pouco, um bom casaco, uns sapatos nos quais não entre água. Somos muito sujos. Todo mundo é muito sujo e bonito aqui. As camas tem um cheiro de noite e sono pesado. Temos brigas terríveis. Quando queremos pôr uma bacia no chão temos de empurrar a vitrola para um canto, nunca podemos pôr em cima da mesa, ela está sempre coberta por livros. Eu não poderia te ter aqui. Embora voce seja tão pequeno não caberia em lugar nenhum. Esbarraría na parede. Quando eu penso nisso eu começo sempre a chorar. Ele não entende, diz que sou ruim, que faço mal em não te trazer embora eu saiba que ele não te suportaria por muito tempo. Ninguém suporta as coisas por muito tempo aqui, nem você e eu. É preciso viver combatendo, é a lei, é a única maneira que vale a pena, mas dói Rocamadour, é sujo e amargo. Você não gostaría disso, você que vive vendo os cordeirinhos no campo e escuta os pássaros no telhado da casa. Ele diz que sou sentimental, que sou materialista, diz que sou tudo só por não te trazer, ou porque quero te trazer, porque renuncio, porque quero ir te ver, porque de repente compreendo que não posso ir. Porque sou capaz de andar uma hora sob a chuva se em algum bairro que eu não conheça estiverem passando o Potemquim, e é preciso vê-lo Rocamadour, mesmo que o mundo acabe. Porque o mundo já não importa se não estivermos procurando algo verdadeiro, se estivermos tão arrumados quanto uma gaveta da cômoda, e te colocamos num dos lados, o domingo no outro, o amor de mãe, o brinquedo novo, o trem, a visita que é preciso fazer. Eu não tenho vontade de ir Rocamadur, e você sabe que está tudo certo e não fica triste. Ele tem razão, às vezes não me preocupo tanto com isso e acho que um dia você vai me agradecer por isso. Quando compreender, quando ver que valia a pena que eu fosse como sou. Mas choro da mesma forma Rocamadour, e te escrevo esta carta porque não sei, porque talvez me engane, porque talvez seja ruim ou um pouco idiota, não muito, um pouco.
Tenho os dedos dos pés metidos completamente pra dentro. Vou estourar os sapatos se não os descalçar já.
E eu te amo tanto Rocamadour, bebê Rocamadour, dentinho de alho, te quero tanto, nariz de açúcar, árvorezinha, cavalinho de brinquedo…

Julio Cortázar
(tradução de Sabe Alah)


Chris Macedo e Maureen Miranda

Aí eu disse pra ele:
– Eu sou uma pessoa chic, eu sou simples, só que sou cara, sou cara mesmo, dinheiro ó, vai na minha mão, vai!!! Eu gosto de me vestir bem, eu gosto de comer bem querido, eu não vou namorar com você, se conforma…
Aí eu disse pra ele:
– Eu posso sair com você… eu posso dormir com você… mas eu não vou namorar com você… sabe por que? Porquê você não é homem pra mim, você não me obedece, tá me entendendo?
Aí eu disse pra ele:
– Diante de algumas pessoas a gente tem que se fingir de idiota, para que não nos tomem por idiota!!!
Aí eu disse pra ele:
– Por que que homem não sabe pegar em peito de mulher??? Tem que pegar assim ó, por baixo, o cara pega assim ó, porra você se sente uma vaca!!!
Aí eu disse pra ele:
– Quantos anos você tem? Ele disse, 28!!!! Porraaaaaa, 28 anos e ainda não aprendeu? Péssimoooo, eu no teu lugar já teria aprendido the long time!!!
Aí eu disse pra ele:
– Digaaaa, me diz, você é ou tá se fazendo de idiotaaaa? Tá me entendendo? Não…não tá me entendendo!!!!

Este filme foi realizado em Paranaguá/PR durante o processo de criação do espetáculo “volta ao dia em oitenta mundos”.

download mp3 – música original de Octavio Camargo

Teatro José Maria Santos – Curitiba 12/12/08



4 comentários para “volta ao dia… – cia. brasileira de teatro”

  1. Bárbara disse:

    Maravilhosa esta foto da Chris.

  2. maureen miranda disse:

    Simplesmente deslumbrante!!!

  3. anna disse:

    lindo, lindo, lindo… linda, linda, linda…

  4. Olhar Comum » Arquivo » clássicos curitibanos - volta ao dia em oitenta mundos disse:

    […] Link para matéria sobre o espetáculo […]

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