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“amoradores de rua”, pátio da reitoria / ufpr – curitiba – 09/04/10

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Um homem, identificado como João Maria Fortunato Alves, de 47 anos, foi encontrado morto na manhã desta quinta-feira no Passeio Público, em Curitiba.
A suspeita é de que a vítima fosse um andarilho e tenha ido dormir no parque. O Instituto Médico Legal (IML) confirmou na tarde de hoje que a vítima morreu de hipotermia, baixa temperatura do corpo. Segundo o Simepar, os termômetros marcavam 0°C nesta madrugada. Esta foi a segunda morte causada pelo frio em Curitiba no ano de 2009.Segundo a polícia, o local foi isolado por volta de 6h da manhã. O IML relatou que nenhum familiar veio identificar o corpo, que será encaminhado para uma necropsia, que irá identificar a causa da morte.
Rodrigo Feres – Centro de Mídia Independente – 05/06/2009

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Em todos os tempos se quis “melhorar” os homens: é isso que, antes de tudo, foi chamada moral. Mas sob esta mesma palavra “moral” se ocultam as tendências mais diversas. A domesticação do animal humano, bem como a criação de uma espécie determinada de homens, são um “melhoramento”: esses termos zoológicos exprimem unicamente realidades – mas, estas são realidades das quais o sacerdote não sabe nada de fato – de que não quer nada saber… chamar “melhoramento” a domesticação de um animal soa a nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Quem sabe o que acontece nos estábulos, duvida muito que o animal seja neles “melhorado”. É debilitado, é tornado menos perigoso, pelo sentimento depressivo do medo, pela dor e pelas feridas se faz dele um animal doente. Não acontece outra coisa com o homem domesticado, que o sacerdote tornou “melhor”. Para falar em termos fisiológicos: na luta com o animal, torna-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A Igreja compreendeu isso perfeitamente: ela perverteu o homem, tornou-o fraco, mas, ela reivindicou o mérito de tê-lo tornado “melhor”.
Trecho de Crepúsculo dos Ídolos – Friedrich Nietzsche

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A gestão do prefeito Gilberto Kassab, pretende impor um controle mais rígido para a entrada dos moradores de rua nos albergues da cidade de São Paulo: eles serão obrigados a assinar um “contrato de direitos e deveres” e a cumprir uma série de obrigações, sob risco de não poderem utilizar os serviços. A relação de deveres dessa população – parte da qual tem inclusive problemas mentais – ainda está sendo preparada, mas, a prefeitura já elenca entre eles a obrigatoriedade “contratual” de que tenham práticas de higiene, como banho, e também a de freqüentar cursos de capacitação profissional e de realizar tratamentos de saúde.
A medida é alvo de críticas de líderes da população de rua, para quem os moradores deverão se afastar mais dos albergues. “É uma imposição que provavelmente vai ser recusada”, afirma Alderon Pereira da Costa, presidente da Associação Rede Rua. “Querem expulsar os moradores de rua dos albergues, em vez de incluí-los?”, questiona Anderson Lopes Miranda, 32, um dos líderes do Movimento Brasileiro em Defesa da População de Rua.

Alencar Izidoro e Vinícius Queiroz Galvão, Folha de São Paulo – 02/12/2007

CLIQUE E OUÇA – Vai Tomar no Cú
Cris Nicolotti

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Até o ano passado, boa parte da população de rua não existia para o governo federal. Ela entrou nas estatísticas somente em 2008 quando o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em parceria com a Unesco, fez uma pesquisa nacional sobre o tema. Os números revelaram um cenário nada animador: 32 mil pessoas nesta situação. A capital paranaense ficou com o incômodo terceiro lugar no ranking, com 2,7 mil moradores. A Fundação de Ação Social (FAS) contesta os dados e mostra uma conta com 1,6 mil pessoas a menos.
Diante deste cenário, em maio deste ano, representantes de movimentos populares, moradores e ex-moradores de rua se reuniram em Brasília para debater o que será a primeira Política Nacional da População em Situação de Rua. A missão é parar de “enxugar gelo”. O consenso entre especialistas é que a criação de albergues é uma medida paliativa, mas foi convertida na única ação do poder público. Para eles, não se pode falar em ações efetivas considerando somente a assistência social. É preciso unir educação, cultura, saúde, habitação, previdência, acesso à Justiça e ao mercado de trabalho.
Paola Carriel – Gazeta do Povo – 14/06/09

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“Se a noção de publicidade um dia já foi pensada por alguns teóricos como o caráter ou o sentido público de algo, como a condição deste algo tornar-se público, se um dia esta noção já foi pensada dentro da esfera de interesses principalmente públicos, hoje o termo publicidade está inequivocamente ligado à propaganda, marketing, merchandising, é a “voz” do mercado, com interesses prioritariamente privados. O que já foi pensado enquanto opinião pública, debate público, acabou resumido a mera pesquisa de mercado, cujo principal objetivo é atuar como uma eficiente fábrica de consensos. Na atual sociedade do espetáculo não há, de fato, lugar para qualquer tipo de espaço dissensual ou contra-hegemônico, o que resulta no empobrecimento da própria experiência urbana, em particular da experiência sensível e corporal das cidades – aquilo que vai além da pura visualidade imagética. O consenso busca também uma homogeneização das sensibilidades, das diferentes formas de “partilha do sensível”.
Paola Berenstein Jacques – Notas sobre Espaço Público e Imagens da Cidade

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“Sem sorte / Sem-teto / Duro, com fome, frio, deprimido / Qualquer coisa ajuda / Ficar sem dinheiro é triste.

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O dinheiro que vai para o bolso de banqueiros e especuladores como pagamento de uma dívida impagável seria mais que suficiente para resolver os problemas de habitação, infra-estrutura urbana e serviços no país. Ao povo sobram migalhas, apresentadas num jogo de ilusões como grandes políticas públicas. Os vultuosos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento tem alegrado muito mais os empresários da construção civil e do ramo imobiliário do que o povo que necessita de moradia. Uma Política de Reforma Urbana que tenha como prioridade os interesses populares nunca foi agenda de nenhum governo e este caminho mata pela violência, pela fome, pelo cansaço, pela enchente, pela falta de habitação, etc. O Ministério das Cidades e seus “espaços de participação”, apresentados como avanços na efetivação de uma política urbana democrática, não representaram nenhum grande passo na solução de nossos problemas. Ao contrário, criam e reproduzem uma forma burocrática de se tratar as questões urbanas. Neste sentido, nossas ações de ocupação em todo o país são a única forma de sermos ouvidos e atendidos. Os movimentos que assinam este manifesto propõem:
– Uma política habitacional popular baseada em subsídios, com valor adequado à realidade das metrópoles, sem o entrave burocrático e elitista dos financiamentos bancários. Que o Governo Federal desenvolva uma política nacional de desapropriações de terrenos e edifícios urbanos que não cumprem função social, destinando-os às demandas populares organizadas.
– Uma política nacional integrada de transporte urbano público gratuito, de qualidade, priorizado em relação ao transporte individual, que tem levado as metrópoles ao caos.
– Uma política de educação que crie creches financiadas pelo Estado sob o controle dos trabalhadores, que valorize os professores e profissionais da educação, que qualifique o ensino não visando o mercado mas a consciência crítica e social dos alunos.
-Controle restritivo das taxas cobradas por serviços públicos básicos como água e energia elétrica, garantindo a aplicação de Tarifas Sociais previstas na lei.
-Políticas de geração de trabalho e renda que dêem alternativas sociais e não policiais aos trabalhadores informais.

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) – Manifesto Popular, de 28/03/2008

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Carnaval estação sétima de minha mangueira:

Então o Carnaval vem do tempo dos homens primeiros aqueles que cantavam e dançavam sem nenhum pudor então eles cantavam e dançavam e rodavam e se travestiam para tentar atingir um instante de vertigem um momento de todo mundo girando para que então eles pudessem sair de si e experimentar um pouco mais do outro e experimentando o outro eles pudessem gozar da carne do ócio do ópio do álcool do sexo da violência e de tudo aquilo que oprime de tudo que é agonia o Carnaval não é o final é o início é o capricho é o poder é ir além é não ter medo de comer o cú é não ter medo de dar o cú é não ter medo do torpor é não ter medo do vício é desaparecer na multidão é todo mundo pulando juntinho pipocando acentuando é porra voando e fecundando o chão os homens os deuses e tudo que ali existe o sol a lua o som a luz as estrelas o céu as nuvens tudo tudo tudo tem fumaça então o carnaval é feito cachaça é feito pau cú buceta efeito ópio é a desgraça para atingir a graça é pipoca pulando numa panela suja de óleo diesel é lama lama lama lama até dentro do rabo nas orelhas no couro cabeludo é isso que eu quero é isso que eu busco deste carnaval tudo de bem e tudo de mal um entrando no outro e virando bicho para que então possamos ver como bichos cheirar como bichos comer como bichos sentir como bichos e ser bichos para que talvez então retornemos ao animal que já fomos um dia e então poder brincar um carnaval feito gente grande aí então serei eu só só eu e ninguém mais eu e meus instintos eu e meus desejos eu solto no mundo eu louco de pedra aí meu mundo é meu aí meu mundo me entendeu só eu aí na rua aí no mundo e não mais aquele escravo do próprio conforto de não ser ninguém porque ninguém chama mais atenção eu não eu não eu prefiro assim eu na contra mão prestes a me espatifar em um trem automóvel ou caminhão para então morrer e nascer e renascer todos os dias da minha vida o carnaval é um rasgo no tempo e no espaço tudo é possível não há Deus tudo é possível aí eu tipo assim um saci uma lenda aí então eu atingi o cume eu atingi o cume só o cume interessa aí então tudo de novo tudo igual até o próximo carnaval tipo pedal de bicicleta que vai girando girando girando girando girando até te secar secar teu líquido teus sais mineirais até você virar caveira e caveira é carbono e com carbono se indentifica se qualifica se quantifica se alivia alívio alívio alívio
Adriano Petermann

CLIQUE E OUÇA – Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua
Sérgio Sampaio

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“(…) Puxando carrinhos construídos à mão através das ruas na procura de lixo reciclável, estes catadores de maneira não oficial fornecem à cidade uma força vital de trabalho: os catadores servem a um programa pré-existente de reciclagem (promovido pela cidade como um exemplo de suas diretrizes urbanas) emprestando-lhe uma adição complexa e complicada, a da troca injusta. Pois os catadores contam com o lixo da cidade como uma economia pirata, e a cidade, por sua vez, conta com os catadores, adotando a sua pobreza como uma fonte radical de eficiência: os catadores estão lá, todos os dias, serpenteando pelas ruas da cidade, lançando sombra à coleta oficial e seus caminhões, esperando chegar lá primeiro… (…)”
“Manual para construção de um carrinho como um dispositivo para elaboração de conexões sociais” – Octavio Camargo e Brandon LaBelle / Errant Bodies Press – 2009.

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Os textos apresentados neste post são fragmentos das referências utilizadas pelo projeto “Amoradores de Rua“, disponíveis em seu blog. – http://amoradores.blogspot.com

Elenco: Adriano Petermann, Martina Gallarza, Maurício Vogue, Felipe de Souza, Marcelo Szymanski e Diego Marchioro.
Direção: Rafael Camargo



2 comentários para ““amoradores de rua”, pátio da reitoria / ufpr – curitiba – 09/04/10”

  1. Tweets that mention Olhar Comum » Arquivo » “amoradores de rua”, pátio da reitoria / ufpr - curitiba - 09/04/10 -- Topsy.com disse:

    […] This post was mentioned on Twitter by Giselle Hishida, Marcos Cordiolli and Sala de aula, Ana. Ana said: "Amoradores de Rua" imagens e textos sobre o modus vivendi na rua. http://www.gilsoncamargo.com.br/blog/?p=3824 […]

  2. sindrominha disse:

    Oi adorei as fotos.
    Gostaria muito que conhecesse o meu Blog sobre síndrome do pânico. Obrigado desde já.
    http://sindromemm.blogspot.com

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