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biblioteca franco giglio infestada de cupins

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Este está sendo o destino da saudosa Biblioteca Franco Giglio, no bairro Campina do Siqueira, em Curitiba. Fundada em 12 de outubro de 1982, o espaço está fechado desde fevereiro de 2011 devido a uma “infestação de cupins” e terá que passar por uma reforma. Porém, não há previsão para o reinício das atividades, segundo informações da responsável pelas Casas de Leitura da Fundação Cultural de Curitiba. “Em situações inesperadas como essa não temos previsão de orçamento e, por este motivo não temos como prever nem o início das obras, muitos menos o da reabertura”. Há também outro motivo para a demora. Desde sua inauguração, o imóvel ocupado pela biblioteca não possui indicação fiscal. Segundo informou Rosana Mello, assessora da Diretoria Administrativa e Financeira da Fundação Cultural, “como é a primeira vez que o espaço precisa de reformas, será necessário aguardar a tramitação do processo para fazer a regularização do terreno”.

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Ela está lá, a casa amarela como sempre esteve ao final da rua da casa dos meus pais. Casa onde eu nasci e passei minha infância, parte dela vivida intensamente dentro da Franco Giglio. Eu, meus irmãos e a criançada do bairro fomos atraídos na década de 80 para lá; era o nosso ponto de encontro, além de ser, sem dúvida alguma o lugar mais divertido do bairro. Era também o espaço em que os pais sentiam-se seguros, pois das 9 às 18h tínhamos atividades. O dia inteiro e gratuitamente. Da tradicional hora do conto às aulas de flauta doce, formação de bandinha, aulas de artesanato, teatro, até as inesquecíveis aulas de história da arte ofertadas pela Rose Giglio, viúva do pintor italiano que dá nome à biblioteca. Uma homenagem da cidade ao artista plástico que embora nascido na Itália, em Dolce Acqua, na Liguria, em plana Riviera Dei Fiori, passou os melhores anos de sua vida em Curitiba.

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Dirigida pela bibliotecária Lia Munhoz da Rocha, com auxilio de Roseli de Almeida Giglio e Suzana Maria Camargo, a pequena casa na Rua Jerônimo Durski 1039, se tornou um ativo centro cultural. Eu e minha irmã fomos as primeiras cadastradas e tínhamos as carteirinhas 01 e 02. Frequentamos desde o início, tanto no período escolar como nas férias e foi neste lugar que a minha curiosidade e gosto pela arte e cultura foram despertados. Foi também aí que eu fiz novos amigos e percebi o quanto a leitura era um mundo gostoso de viver. Logo após a inauguração, as bibliotecárias foram de casa em casa convidar os moradores do bairro a conhecer o espaço. Depois, quando uma multidão de crianças já a frequentava (sem exagero, era uma multidão!), fomos nós que batemos de porta em porta para arrecadar livros e revistas para a biblioteca. Eu tinha nove anos e vivia aquele sentimento gostoso de pertencimento, de fazer parte. Era assim a Franco Giglio. Aconteceram tantas coisas por lá; até eleição de prefeito mirim fizemos! Minha irmã caçula ganhou o concurso de dublagem, meus irmãos participavam do campeonato de vôlei e eu amava os passeios que a Rose Giglio fazia para que conhecêssemos os museus da cidade.

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Apresentação da banda formada nas aulas de música da biblioteca, em 1983.

Desde 1982 até hoje a casinha amarela foi mantida por todas as gestões da prefeitura de Curitiba. Porém, na época de sua abertura, o presidente da Fundação Cultural, Carlos Frederico Marés proporcionou uma revolução nunca vista nas bibliotecas de bairro da cidade, valorizando e respeitando os espaços, tornando-os de fato ativos pólos culturais. Não era simplesmente abrir a porta, e sim chamar o bairro para participar, era fazer com que as crianças opinassem, fizessem parte. Afinal, a biblioteca era nossa!

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Hoje ao passar perto da Franco Giglio, vi uma casa abandonada e, ao que me parece, quase despercebida. Tão despercebida quanto o demoradíssimo processo para o início das obras a que se referiu a responsável pelas bibliotecas (hoje Casas de Leitura). Os cupins, presume-se, estão dentro da casa mas, por fora a situação é de total abandono: lixo jogado e mato alto.

Será que hoje em dia ela realmente não faz mais falta? No meu tempo, em que a rua era o nosso espaço de lazer, estaríamos tristes pelo destino da nossa biblioteca. Estaríamos sem o lugar mais divertido do bairro.

Texto: Ana Carolina Caldas
Fotos da biblioteca em 09 de julho de 2011: Gilson Camargo

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Festa de Natal em 1982. Na foto, junto com as crianças, Lia Munhoz da Rocha, Rose Giglio e Suzana Maria Camargo.

Passei parte de minhas férias, durante a pré-adolescência, na Biblioteca Franco Giglio. Desta época, guardo muitas recordações inestimáveis, além da influência educativa que exerceu na minha vida e nas minhas escolhas. Lembro-me da eleição para prefeito(a) mirim, das aulas de arte, dos jogos de volei, dos piqueniques coletivos e da tão esperada hora do conto. Quando me tornei professora, muitas destas experiências dirigiram meu jeito de ensinar mas, aprendi fundamentalmente a valorizar a cultura e a arte e compreender a importância da existência de múltiplos espaços educativos na cidade, que mesmo sem a intenção explícita e dirigida de ensinar, educam, formam e ampliam os horizontes.

Profa. Dra. Andrea Caldas – diretora do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR)

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No Carnaval de 1983, com as fantasias confeccionadas pelas próprias crianças.

Eu era pequena, me lembro, no Bigorrilho. Na mesma rua que hoje virou um grande corredor de corrida de carros cada vez mais vorazes de velocidade, a vida passava em outro ritmo. Nesta rua brincávamos com os vizinhos, corríamos e apertávamos campainhas. Primeiro veio a grande notícia, uma praça, onde era a caixa d’água do Bigorrilho, hoje pomposamente chamado de Reservatório Batel. E a grande novidade se alastrou pela rua… onde ficávamos sabendo de todas as notícias do bairro. Inaugurou uma biblioteca!!!
Eu, já leitora voraz, assim como os carros nas ruas por velocidade, fiquei encantada! Éramos pobres, não viajávamos nas férias e, livros, eu só ganhava no Natal. Aquela pequena casinha antiga, amarelinha, ampliou meu mundo para além das ruas do Bigorrilho.
Hora do Conto, aulas de flauta, de cerâmica, o curso de História da arte espanhola, El Greco… Ainda lembro exatamente do quebra-cabeça com uma pintura de Arcimboldo. Foram tantas as referências, não só literárias, que me acompanharam a vida toda!
Eu lia dois livros por dia, não podia perder tempo, eram muitos… Emprestava um de manhã, lia durante o almoço, em casa. À tarde devolvia e logo pegava outro para a noite… A minha velocidade era outra. Eu passava minhas férias inteiras lá!
Cresci, frequentei outras bibliotecas, a Pública do Paraná, principalmente, mas a Franco Giglio me acompanhou a vida toda. Ao visitar o Louvre, quando vi pela primeira vez uma tela de El Greco, aquele momento emocionante me remeteu diretamente à Roseli e suas aulas de arte. Ou ainda, quando adulta, encontrava a Dra. Helen Butler Muralha, lembrava dela, com seu sorriso generoso, nos recitando poesias de Sidônio Muralha.
Quando tive meus filhos e tentei descobrir qual herança eu deixaria para eles, pensei: minha infância dentro daquela maravilhosa biblioteca. E criei a Bisbilhoteca, que é a minha leitura da Franco Giglio, minha homenagem à biblioteca que me trouxe tanta alegria. E não longe da original, no Bigorrilho, mesmo bairro onde nasci e cresci.
Uma das grande emoções que tive foi receber na Bisbilhoteca a visita da Roseli, quando ainda viva, e poder contar o quanto aquele trabalho com crianças de bairro rendeu frutos!
Se vocês olharem bem para a foto do carnaval desta matéria, verão o Gritinho de Carnaval! Hora do Conto… E tantas outras ideias que já realizamos e outras que vamos realizar.
E, para além da nostalgia de uma infância em meio aos livros e à cultura dentro da Franco Giglio, aquela biblioteca, assim como imagino que outras pela cidade, marcaram infâncias, proporcionaram outras leituras do mundo à muitos adultos que hoje produzem e transmitem essa paixão pelos livros à muitas outras crianças!
Passo quase todos os dias em frente à Franco Giglio e observo o abandono. No início achei que era por causa das obras da rua, mas logo se vê que aquela casinha de sonhos, tombada, está jogada à própria sorte. Não temos mais Suzanas e Roselis, apaixonadas por livros, crianças e cultura…
Temos pessoas que cumprem seu horário de trabalho. É certo que o mundo mudou e as crianças não andam mais sozinhas pelas ruas, que as pesquisas são feitas em casa, na internet. Mas a vocação de encontro e de lazer desses espaços públicos jamais deve ser perdida. As bibliotecas, Casas de Leitura como são chamadas hoje, devem ser abertas todos os dias, inclusive finais-de-semana, com uma programação atraente, trazendo crianças e suas famílias para desfrutarem do que jamais poderiam ter em casa: a convivência com o mundo da cultura e a convivência com outras pessoas.

Cláudia Serathiuk – proprietária da Bisbilhoteca Cultura Infanto Juvenil

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Biblioteca Franco Giglio. Desenho de Cláudia Serathiuk – outono de 1988.



2 comentários para “biblioteca franco giglio infestada de cupins”

  1. gilda werneck de capistrano disse:

    que pena, tomara consigam recuperá-la logo!!!

  2. Corina Denzeler disse:

    Nossa essa era minha biblioteca preferida …. Passei Dias de ferias e Dias depois da escola la. Muitas lembrancas que ate hoje e digo para minhas filhas…. Biblioteca Franco Giglio deveria se tornar um lugar sempre bem cuidado … Tive aulas de volley, flauta, desenho…. E Trieste ver essa casinha acolhedora de minha juventude Sozinha e abandonada ….. Espero que se recupere o mais rapido possivel…..

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