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bolacha maria – um punhado de neve que restou da tempestade* – ftc 2008

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Sol Faganello
Quando fiz o teste para ser admitida no elenco da companhia me pediram que eu contasse uma história, eu não me lembro da história que contei, a história ficou extraviada na memória, como a anedota que quando comecei a contar descobri que não me lembrava do meio e do fim, ou como a anedota da qual eu me lembrava do final mas não tinha qualquer registro de como começava, eu não me lembrava também em que ponto da história havia era uma vez.
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Alan Raffo
Quando fiz o teste para ser admitido no elenco da companhia me fizeram uma pergunta. Muitas perguntas.
Tem perguntas que são difíceis de responder. Tem uma pergunta que me atormenta. Só uma. E é exatamente esta a pergunta que insistem em fazer.
– Você está se sentindo bem?
A pior pergunta do mundo. Ela me tortura.
No almoço, a forma de segurar o garfo causa apreensão entre os demais à mesa.
– Você está se sentindo bem?
Saio do banheiro onde o chuveiro me tomou trinta segundos a mais que o habitual.
– Você está se sentindo bem?
Chego para o café da manhã às sete e dez em vez de às sete e quinze.
– Você está se sentindo bem?
Levanto no meio da noite para beber um copo d’água. Ouço batidas na parede do quarto.
Meu vizinho está preocupado.
– Você está se sentindo bem?
Espirro.
– Você está se sentindo bem?
Não ouso suspirar.
– Você está se sentindo bem?
Uma pergunta, qualquer pergunta, inclusive esta, exige por sua própria natureza uma resposta.
Puta que o pariu. Pode ser uma resposta.
O silêncio. Pode ser uma resposta.
Um puta que o pariu mudo. Pode ser uma resposta.
Então aquele que ouviu a resposta faz uma pergunta. A mesma pergunta. Repete a pergunta.
– Você está se sentindo bem?
É o que eu ouço:
-Você está se sentindo bem?
Após esta pergunta que me assola, eu sempre sinto a mesma coisa.
Uma necessidade enorme de não estar me sentindo bem.
É isto. Uma necessidade torturadora de não estar me sentindo bem.
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Tatiana Blum
Quando fiz o teste para ser admitida no elenco da companhia me pediram que eu contasse uma história, é necessário que a história principie com era uma vez?, eu disse, não é necessário, ela disse, não é mesmo necessário, ela disse, mas agora eu já falei era uma vez e portanto há era uma vez no princípio da minha história, eu disse, eu posso riscar a frase era uma vez do meu relatório, ela disse, não é necessário, eu disse, então comece a história, ela disse.

Peça 1: O pano se abre, dois atores estão em cena. Olham-se e começam a rir desembestados, sem parar, até que, duas horas depois, o pano se fecha.
Peça 2: O ator estático diante de um botão de rosa. Quando a rosa desabrocha, o ator tira o lenço do bolso e enxuga o suor da testa.
Peça 3: Diante do teatro, a atriz sobe no mastro da bandeira e fica tremulando ao vento. É arriada por um coro grego às seis da tarde.
Peça 4: Ato I: O ator entra em cena e larga um macaquinho no meio do palco. O ator sai de cena. O macaquinho fica livre para fazer o que quiser. Ato II: O macaquinho entra em cena e larga o ator no meio do palco. O macaquinho sai de cena. O ator fica livre para fazer o que quiser. Ato III: O ator e o macaquinho compram entradas e vão embora.
Peça 5: Durante 23 segundos, trezentos atores cruzam gritando pelo palco. O palco permanece vazio e silencioso pelas próximas três horas.
Peça 6: Três mulheres nuas improvisam durante seis horas num dos camarins do teatro. Volta e meia o público na platéia consegue ouvir algum ruído.
Peça 7: O ator permanece três atos em pé no meio do palco olhando para um ponto fixo no fundo da platéia. Então caminha até o proscênio e diz, patético: Eu não disse?!
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Diego Fortes

Uma bússola com quatro nortes. Longitude. Latitude.
Acidentes geográficos. Sismos.
Brandindo um mapa, eu sempre comuniquei a quem interessar pudesse que conhecia exatamente a localização do meu paraíso perdido.
Aquele orgulho imenso ao informar que sabia onde ficava o meu paraíso perdido.
Todos me olhavam com inveja. Todos que tinham seus paraísos perdidos apenas como lembrança, olhavam com inveja para o meu mapa.
Eu conhecia o caminho para voltar ao meu paraíso perdido.
Conhecia todos os detalhes do caminho.
Como atravessar os desertos. Como cruzar as florestas.
Quais as voltas necessárias para evitar os animais perigosos.
O lugar dos alimentos e das águas para saciar o viajante. Tudo.
Eu informava a quem interessar pudesse que retornaria ao meu paraíso perdido a qualquer momento. Ah, a inveja que eu provocava.
O meu paraíso perdido eu conhecia o lugar. Eu sabia a localização exata dele.
Que vida importante vive quem sabe onde fica o paraíso perdido.
O endereço do paraíso perdido.
O que os invejosos não percebiam era que eu nunca deixava de chamar o paraíso de perdido. Se os invejosos percebessem isto, seria o meu fim.
Fim que eu mesmo não evitava. Eu estragava tudo todas às vezes. (incontido riso nervoso)
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Alexandre Nero
Quando fiz o teste para ser admitido no elenco da companhia me pediram que eu contasse uma história, uma história que eu vivi?, eu perguntei, uma história vivida por outras pessoas?, eu perguntei, uma história que me contaram?, eu perguntei, uma história que eu inventei?, eu perguntei, uma história, eles disseram, qualquer história, eles disseram, eu não me lembrava se eram eles ou somente uma pessoa que estava aplicando o teste, às vezes a minha memória indicava que era uma única pessoa, uma mulher com um vestido verde, outras vezes que eram várias pessoas mas nenhuma delas era a mulher com vestido verde.

– Eu sei a história de uma atriz.
A história da atriz é assim: A atriz olhou para a platéia e esperou o foco de luz fechar lentamente até iluminar apenas o rosto. Então ela disse: A felicidade não bateu na porta, a felicidade colocou um bilhete por baixo da porta, o bilhete dizia:
Foda-se.
Blecaute.

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* fragmentos do roteiro original

Agradecimentos
A Armadilha Cia. de Teatro
Autor: Manoel Carlos Karam
Direção: Nadja Naira

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2 comentários para “bolacha maria – um punhado de neve que restou da tempestade* – ftc 2008”

  1. Nina Ribas disse:

    Que olhar hein seu moço?! Gostei muito das fotos e do seu espaço virtual….um abraço.

  2. Michele Menezes disse:

    Sabe que eu não tinha visto essas fotos ainda?! Eu estou procurando as coisas que foram publicadas na internet sobre o BOlacha pra fazer o relatório e fiquei impressionada! Parabéns! Beijos

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