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chiris gomes, felipe custódio, maureen miranda e octavio camargo em “algum lugar nenhum”

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Falar de sonhos parece sempre leve e colorido e também é isso, ou melhor, também pode ser isso. No caso da nova peça da Clepsidra Cia de Arte, abordar o tema sonhos é falar de um instante, de um passeio da mente no universo onírico, desse assunto comum a todos aonde ideias são descobertas e perdas descortinadas, onde três atores e um músico viajam numa linha muito tênue, entre um universo de paisagens psíquicas onde o real e o imaginário andam de “mãos dadas”. Aonde o músico Octavio Camargo desenvolve sonatas de Beethoven ao vivo no piano, aonde duas irmãs interpretadas por Chiris Gomes e Maureen Miranda estão perdidas em Algum Lugar Nenhum, título da peça, ora sonhando, ora acordadas dentro do sonho, aonde o ator Felipe Custódio faz o irmão que já mora, já habita esse espaço do inconsciente. Todos de branco, todos dormindo acordados, unem-se em prol de algo além dos pesadelos, das descobertas, das lamúrias, das tolices, e sem medo de serem ingênuos se jogam nesse mar de lembranças em Algum Lugar Nenhum.

Quando estiver sonhando olhe para sua mão, procure por ela, se você conseguir vê-la vai saber que isso é sonho.

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Personagens: Rosa, Esmeralda e Anjo/guardião do sonho

Rosa: No vôo de hoje eu fiquei pensando em como o céu é longe de nossas cabeças. E quem morre, realmente vai embora? Que é incrível quando pedimos algo pra alguém que já morreu… Esse alguém nos escuta? Esse alguém olha por nós?
Esmeralda: Eu acho que sim (pausa). Porque senão, qual o sentido disso tudo?

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Esmeralda: Não vai falar? Falo eu. Sempre que eu saía para brincar, nossa mãe queria saber exatamente aonde eu iria estar. Quando eu entrava, ela me chamava para o seu quarto, me tomava nos braços, me cobria de beijos, acariciava meus cabelos e dizia: “Eu te amo tanto!”, e quando eu espirrava, ela dizia: “Saúde, você sabe o quanto eu te amo, não sabe?“, e quando eu levantava para pegar um lenço, ela dizia: “Deixe que eu pego, eu te amo tanto!”, e quando eu procurava uma caneta para fazer a lição de casa, ela dizia “Use a minha, tudo por você!”, e quando eu sentia uma coceira na perna, ela dizia: “É aqui?, deixa que eu faço isso pra você”, e quando eu dizia que ia subir para o meu quarto, ela me chamava: “O que eu posso fazer por você?, eu te amo tanto!”, e eu sempre quis dizer, mas nunca disse:
Ame-me… menos.

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Guardião: A vantagem de não se ter alguém é que também não se perde ninguém. Eu estou falando da morte. Não tenho mais tanto medo de ficar sozinho, eu já estou sozinho nos meus sonhos, sozinho em algum lugar nenhum.

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Esmeralda: Gosto de pensar que o mundo não está preparado pra mim, mas talvez a verdade seja que eu não estou preparada para o mundo. Sempre cheguei tarde para a vida. Eu não quero ser uma daquelas pessoas tristes que nunca se sentem em casa em lugar nenhum.
Rosa: Quando eu me sinto… quando sinto pena de mim, eu esquento um chá…

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CENA 4 (acordadas dentro do sonho)

Esmeralda: Eu fico desesperada quando isso acontece!
Guardião: Isso o que?
Rosa: Isso o que?
Esmeralda: Isso que aconteceu agora! Isso! Quando perco minha cabeça, minhas palavras, minhas coisas, meus amigos!
Rosa: Assim não dá! Você se desespera por qualquer coisa!
Esmeralda: O que você tá falando? Também está aí, sufocada dentro das tuas perdas, das tuas lembranças.
Rosa: Aí é que você se engana! Eu tôaqui porque gosto de procurar as minhas coisas mesmo sabendo que elas estão aqui dentro!
Guardião: Sempre penso: se eu meter a mão na caixa de fósforos assim, de primeira, tudo será sorte!!!

Cena 5 (sonho)

Rosa: Esmeralda diz que dói seu peito. Não pára de reclamar de angústia! Esmeralda chega a ser cansativa em casa; ninguém aguenta mais tanta reclamação!
Esmeralda: Numa noite…
Rosa: Numa noite de gritos agudos, a família inteira não conseguia dormir…
Esmeralda: Nessa noite minha irmã resolveu acabar com meu sofrimento.
Rosa: É , eu resolvi acabar com a dor da moça. Levantei com dificuldade de madrugada e fui conversar com ela, que já estava rouca de desespero. Esmeralda, aonde dói exatamente? (Esmeralda põe as mãos no peito com a boca aguada e os olhos tremendo).
Esmeralda: A minha irmã voltou para o quarto e trabalhou incansavelmente a noite toda! Todos os gatos da casa sobre seus pés!
Esmeralda: As sete horas da manhã todos estavam curiosos para saber o que a irmã tinha feito, trancada a noite toda, cheio de velas acesas!
Rosa: Então abri a porta do quarto dizendo: “Só quero ver Esmeralda”!
Esmeralda: Então, foram me chamar.
Guardião: Ela veio muito fraca e cambaleante feito pessoa que bebe.
Rosa: Ela veio muito fraca e cambaleante feito pessoa que bebe…
Esmeralda: É, eu vim muito fraca e cambaleante feito bêbada. Entrei no quarto dela, que, sorrindo apontou para a cama e… lá estava!
Rosa (empolgada): E lá estava a cura para suas dores no peito.
Esmeralda: Sobre a cama um lindo vestido azul bem claro, que é a cor que mais gosto!
Rosa: Que é a sua cor! Esmeralda ficou tão comovida que sua angústia… E ela finalmente pôde…
Esmeralda: Pude o que mesmo?
Rosa: Pôde… enfim, pôde…
Esmeralda: Pude…

Música: Octavio Camargo, Troy Rossilho, Chiris Gomes, Luiz Felipe Leprevost, sobre tema de Ludwig van Beethoven.

Quero ter essa fé de que vim ao mundo
Para me despir
Não para me vestir

Todos os nossos pertences no meio da rua
Onde estão os preços
Para quererem tocar o ar

Invocações das dimensões incógnitas do mundo, venham para mim
Eu sou louco, quero atravessar objetos
Quero dançar com você

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Movimentos para o adágio da Sonata nº 1, de Ludwig van Beethoven.

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CENA FINAL (acordadas)

Guardião: Já esteve mais feliz do que agora?
Rosa: Já esteve mais feliz do que agora, deitada aqui?
Esmeralda: Acho que não. Não.
Rosa: E já esteve mais triste?
Esmeralda: Não.
Rosa: Não é assim com todo mundo, sabia? Algumas pessoas, minha irmã, só ficam mais e mais felizes a cada dia.
Esmeralda: E algumas pessoas só ficam mais e mais tristes.
Rosa: E algumas pessoas como você ficam as duas coisas.
Esmeralda: E você? Está mais feliz e mais triste agora do que jamais esteve?
Rosa: Claro que sim.
Esmeralda: Por quê ?
Guardião: Porque nada me deixa mais feliz e nada me deixa mais triste do que você.
Rosa: Porque nada me deixa mais feliz e nada me deixa mais triste do que você.

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Elenco: Chiris Gomes, Felipe Custódio, Maureen Miranda e Octavio Camargo
Texto e direção: Maureen Miranda
Direção Musical: Octavio Camargo
Iluminação: Raul Freitas
Cenografia: Rhenan Queiroz
Figurinos: Maureen Miranda
Vídeo: Trunkshot Studios
Fotografia: Gilson Camargo
Design gráfico: Vinícius Sequeira
Produção geral: Bia Reiner e Felipe Custódio
Realização: Clepsidra Cia de Artes

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As imagens que ilustram esta matéria foram realizadas em dois momentos: para divulgação, durante os ensaios do espetáculo, e no Teatro José Maria Santos, em Curitiba/PR, durante sua primeira temporada.

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