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clássicos curitibanos – a garrafa de joão turin

a garrafa de turin - atelier joao turin 2013 - almirante tamandare/pr

Súbito, o paranaense João Turin voltou à baila. Primeiro foi o baixo-astral do fechamento do espaço que levava o nome do artista, na Rua Mateus Leme. Depois, a ruidosa compra de suas peças pelo empresário Samuel Lago. Some-se ao Turin days o fato de a presidente Dilma presentear o papa Francisco com a pequena peça Frade lendo, feita pelo escultor na década de 1940. Foi um “momento ternura”.

Para coroar, o episódio da garrafa-surpresa, encontrada no pedestal do Tiradentes, no Centro de Curitiba. Em tese, o objeto estranho não identificado estaria escondido ali desde 1927 (agora se sabe que desde 1932), quando o escultor doou o monumento à comunidade italiana. Como já foi apurado, a despeito dos internautas – cuja imaginação deve fazer inveja a Dan Brown –, dentro do recipiente não está a certidão de nascimento de Alvaro Dias. Tampouco uma carta de Turin, missivista compulsivo. O mistério permanece. Diz-se que há outra garrafa escondida na praça, esperando para galgar a fama. Aguardemos os próximos capítulos.
José Carlos Fernandes, Gazeta do Povo, 02/08/13

abertura da garrafa joao turin - 01/08/13 - alm. tamandaré/pr

A garrafa foi aberta no ateliê e fundição do Instituto João Turin, em Almirante Tamandaré/PR. O processso foi conduzido por Maurício Appel, membros da Fundação Cultural de Curitiba e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Foi usado um saca-rolha para retirar a cortiça que fechava a garrafa. Uma pinça foi utilizada para pegar o documento. Devido à dificuldade, os responsáveis preferiram quebrar a garrafa para ter acesso à carta. Depois, o documento foi umedecido com vapor para facilitar a abertura, e lido em voz alta.
Eduardo Santana, Paraná Online, 01/08/13

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O escultor Elvo Benito Damo, responsável pela restauração e forja de novas peças da obra de João Turin, durante o procedimento de abertura da garrafa, em 01/08/2013.

Conforme os pessimistas esperavam, o mistério da garrafa não passou de uma burocrática correspondência à posteridade, datada de 25 de janeiro de 1932, registrando em ata a colocação da estátua de Tiradentes em seu local atual e a existência de outro recipiente num buraco mais embaixo. Por outro lado, os otimistas esperavam encontrar na garrafa do escultor João Turin o mapa do tesouro do Pirata Zulmiro, com o traçado subterrâneo milagroso para as obras do metrô.  
Dante Mendonça, Paraná Online, 01/08/13

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Aos 25 dias do mês de janeiro de 1932, nesta cidade Coritiba, sendo interventor interino o Dr. João Pernetta, Prefeito Municipal Cel. Joaquim Pereira de Macedo, na Praça Tiradentes, procedeu-se a remoção deste monumento da posição primitiva para a atual que dista daquela cerca de 35 metros, na direção Oeste, tendo sido encontrada uma garrafa contendo uma acta impressa com diversas assinaturas autógraphos, a primeira página do jornal “O Dia” de 21 de abril de 1927 e algumas moedas de níkel e cobre. A garrafa referida foi colocada na última camada de alvenaria bruta e debaixo do pedestal.

busto de joão turin por erbo stenzel - molde
Molde de busto de João Turin, esculpido por Erbo Stenzel.

Um leitor me escreveu. Seu e-mail trata de uma mensagem do escultor João Turin, morto em 1949, psicografada num centro espírita de Curitiba. O contato sobrenatural fora feito um dia após a abertura da tal garrafa, encontrada na Praça Tiradentes. É recado breve – Turin faz rapapés ao evento garrafal que mobilizou a cidade e manda avisar aos seus que passa bem. Achei que era trote, deixei estar. Pois, por sorte o mensageiro me ligou, não do além, mas de um celular, o que não deixa de ser extraordinário: a conversa transcorreu sem que a linha caísse uma única vez.
José Carlos Fernandes, Gazeta do Povo, 09/08/13

olor femera ou frade lendo - joao turin
Molde original em gesso da escultura “Olor fêmera”, rebatizada como “Frade lendo”, no acervo do Ateliê João Turin, em Almirante Tamandaré/PR.

Com bolsa de estudos cedida pelo Governo do Paraná, em 1905, que lhe possibilitou o ingresso na Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, Turin viveu parte de sua formação artística na Europa. Morou em Paris durante dez anos, onde se consagrou no Salom des Artistes Français, com a obra Exílio (1912). Segundo o historiador da arte José Roberto Teixeira Leite, o artista deixou em seu estúdio da Rue Vercingentorix, um sem número de obras, pois sua intenção, nunca concretizada, era retornar à capital francesa. Ele voltou ao Brasil em 1922. Integrado ao discreto ambiente artístico-cultural da capital paranaense, João Turin produziu grande número de monumentos, estátuas, bustos, relevos e, inclusive, pinturas, cerâmicas e ilustrações, destacando-se os monumentos dedicados a Rui Barbosa e Tiradentes, em Curitiba.
Revista de História da Biblioteca Nacional, 07/08/13

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Molde original em gesso de busto do Coronel Lacerda ou Barão do Cerro Azul.

Depois de tantos anos de existência e de ter visto e observado, lido e vivido com todas as classes, desde os mais humildes, vagabundos, gatunos, “apaches” e gente de raças e costumes diferentes, e ter conhecido verdadeiros fanáticos, espíritas, teósofos, católicos, comunistas, fascistas e positivistas, chego agora à conclusão sadia de que tudo isso é fraqueza humana… é dentro da propria vida que devemos encontrar a felicidade, tornando-a simples e banindo todas as complicações que inventaram para iludir o seu semelhante…
João Turin, on a Facebook

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A estátua na qual foi encontrada a garrafa, que representa o líder da Inconfidência Mineira – Joaquim José da Silva Xavier –, fica no marco zero da capital, a Praça Tiradentes. O monumento é apenas uma das obras feitas por Turin que fazem parte do patrimônio histórico da cidade. Integram a obra do artista espalhada pelas praças da capital a peça Luar do Sertão (a onça rugindo que fica na rotatória ao lado da sede da prefeitura) e a escultura de uma águia, na Praça Santos Andrade.Todas essas obras serão revitalizadas como parte de um projeto do Ateliê João Turin. A intenção é restaurar todo o acervo do artista e elaborar materiais que resgatam sua vida e obra. Além disso, serão criados novos moldes para poder reproduzir as esculturas. Essas três estátuas originais, por exemplo, voltam para as praças em agosto, mas as cópias farão parte de exposições que vão percorrer o país e o mundo.
Antonio Senkovski e Raphael Marchiori, Gazeta do Povo, 01/08/13

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… e dentro da garrafa tinha um bilhete escrito assim: A Curiosidade Matou o Gato!
Maringas Maciel, fotógrafo do projeto João Turin, on a Facebook

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…podia ser pior, podia ser gengibirra!
Luca Rischbieter

Muito bom isso não?
que história!
e
eu gosto
de
gengibirra
Samuel Ferrari Lago

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A restauração ponta-a-ponta das obras de João Turin – que inclui o resgate histórico e digitalização de sua documentação, passando pela confecção de inventários, catálogos, livros, fotografias, sites bilíngues e até exposições nacionais e internacionais – faz parte de um grande projeto iniciado depois que os direitos sobre o acervo foram comprados pelo colecionador curitibano Samuel Ferrari Lago.

Segundo o gestor do ateliê, Maurício Appel, as obras de Turin estiveram à espera de um destino que desse a devida visibilidade ao artista pelos últimos 25 anos. “O acervo ficou parado após sua morte em 1949. O projeto atual não recebeu nenhum benefício de nenhum edital do governo, pelo contrário, para cada obra fundida, a família Lago doará uma obra em bronze para o Museu Oscar Niemeyer, do Governo do Estado do Paraná”.
Revista de História da Biblioteca Nacional, 07/08/13

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Um comentário para “clássicos curitibanos – a garrafa de joão turin”

  1. Sdruvz disse:

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