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giacomo joyce – leitura dramática na biblioteca pública do paraná – bloomsday 2011

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Bloomsday é a festa literária que ocorre simultaneamente em diversos países em homenagem ao escritor irlandês James Joyce e seu livro Ulysses, cuja história se passa inteiramente no dia 16 de junho de 1904. Publicado em 1922, o livro influenciou os rumos da ficção contemporânea.
A data foi comemorada em Curitiba nos dias 14, 15 e 16, no auditório da Biblioteca Pública do Paraná (BPP), com entrada franca, em iniciativa do Museu da Imagem e do Som (MIS).
A Cia. Iliadahomero participou do evento no dia 16/06 com a leitura dramática realizada pela atriz Helena Portela, dirigida por Octavio Camargo (imagem acima), do livro “Giacomo Joyce”, traduzido para o português pelo curitibano Paulo Leminski e editado em 1985 pela Editora Brasiliense.

O Giacomo Joyce talvez não fosse uma escrita pra ser publicada… parece que foi um romance ou uma paixão que o Joyce teve por uma aluna, ele fez lá algumas anotações, mas que, enfim, se perderam e essas anotações não foram publicadas. Elas foram depois resgatadas por um irmão e em função da celebridade do Joyce acabou o texto chegando até nós.
Em relação a cidade, esse texto é especialmente importante porque foi a primeira publicação aqui da cidade de Curitiba de uma tradução do James Joyce feita pelo Paulo Leminski. Eu acho que a presença do Leminski deve ter influenciado isso também, pra que o pessoal tão precocemente aqui começasse a se interessar pelo Joyce.
O texto é composto por alguns parágrafos que foram encontrados no caderno dele e independente da verdade histórica de se esse romance com uma aluna aconteceu ou não, nesse pequeno livrinho o Joyce se ufana, de alguma maneira, de que isso aconteceu. Acho também que ele não foi inicialmente pensado como um texto dramatúrgico, e aqui fica, para uma platéia muito especial, o registro de que gostaríamos de dividir com vocês esse “experimento”.
A leitura do texto vai acontecer entre quatro blackouts e ele tem um desenvolvimento dramático de palestra aula. Curiosamente Joyce era um professor de inglês e o tradutor desse texto também foi professor muitos anos, o Leminski deu aula em cursinhos, então ele tem também um pouco dessa inspiração. Eu vou deixar vocês com a Helena e vou ficar lá em cima apagando e acendendo a luz. Então…. Joyce.
Octavio Camargo

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“Quem? Um rosto pálido circundado por pesadas peles perfumadas. Os movimentos dela são tímidos e nervosos. Ela usa um monóculo. Sim: uma sílaba breve. Um riso breve. Um breve bater de pálpebras.(…)
Teia de aranha sua caligrafia, traçada longo e fino com tranqüilo desdém e resignação: uma garota de categoria.”

“Aqueles frios dedos serenos tocaram as páginas, imundas e lindas, onde minha vergonha vai brilhar para sempre. Frios dedos serenos e puros. Será que nunca erraram?
Seu corpo não tem cheiro: uma flor inodora.
Nas escadas. Uma frágil mão fria: timidez, silêncio. olhos escuros lânguidos e líquidos: cansaço.
Turbilhões de vapor cinza sobre o banhado. Seu rosto, como estava cinza e solene! Emaranhados cabelos úmidos. Seus lábios apertam suave, o hálito sofredor se solta. Beijada.
Minha voz, morrendo nos ecos de suas palavras, morre como a voz exaustisábia do Eterno chamando Abraão através dos ecos das colinas. Ela se encosta contra a parede acolchoada: feições de odalisca no escuro luxúria. Seus olhos beberam meus pensamentos: e dentro da úmida morna submissa escuridão convidativa da sua feminilidade minha alma, também se dissolvendo, derramou e verteu e transbordou uma semente líquida e abundante…… Agora coma-a quem quiser!….”

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“Despreparo. Um apartamento nu. Nojenta luz do dia. Um grande piano preto: túmulo da música. Equilibrado em sua borda um chapéu de mulher, com flores vermelhas, o guarda-chuva, fechado. Seu brasão: capacete, escarlate, e lança sem ponta sobre um fundo, preto.
Dedicatória: Me ame, ame meu guarda-chuva.”

Link para o texto integral na traduçao de Paulo Leminski

ulisses_foto_gilsoncamargo_bloomsday_bpp_16_06_11curitiba_webApós a leitura houve a exibição de As Alucinações de Ulisses (1967) – dirigido por Joseph Strick. Primeiro filme de longa-metragem adaptado de uma obra de James Joyce.

É preciso entender, é claro, que a incompreensibilidade de uma obra é, como tudo mais, historicamente determinada: questão que sucessivas leituras irão pouco a pouco resolvendo, até criar em torno do corpo estranho certo número suficiente de constelações hermenêuticas, interpretações, diluições, sobretudo, que nos permita pisar no terreno firme da redundância, do já sabido, do “estou começando a entender”. Em arte, o novo sempre se manifesta sob a modalidade do difícil. (Nota de Paulo Leminski)



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