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guido viaro – auto retratos

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óleo sobre tela /1914 – 31,5×32 cm.  Acervo da família.

Viaro por ele mesmo

Alguém perguntou-me uma vez o que eu era. O que eu era? Confesso que até então nunca tinha pensado nisso. De fato, o que eu era? Como eu sou? Meu retrato? Retrato físico ou moral? Fiquei perplexo a tal pergunta, não soube responder. Geralmente tenho resposta pronta, mas aquela vez fiquei de boca aberta como um pateta. Como eu era? Que significava isso? Mas para que? Nunca me tinha proposto esta questão. Havia alguma necessidade de saber o que uma pessoa era: mera curiosidade ou finalidade especulativa? Afinal a gente é o que é — com seus brancos e pretos —, sua particular elasticidade para poder adaptar-se, para melhor se locomover, para invadir o campo branco, hoje, e amanhã o preto se for necessário, segundo as necessidades que a própria vida impõe ao sujeito.

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óleo sobre tela /1934 – 39×44 cm.  Acervo da família.

Como sou eu? Isso que é bonito! Eu sou o que sou; o espelho me fala a mesma linguagem de sempre, clara e insuspeita, sobre isso não tenho ilusões. Até os dias são contados pelo frio e indiferente amigo. Mas esse amante não parece interessar-se pela imagem física, quer conhecer a outra, aquela que nem o espelho e nem a foto revelou jamais a ninguém. Como se pode, então, descobrir o monstro que está escondido no fundo de nosso ser, assim sem prévio cerimonial, assim displicentemente? Apresentar ao lado de um Leo forte e sadio, o outro Leo raquítico ou vesgo? Um sósia que o mundo não pode aceitar por não ser a cópia autêntica do outro… ora, quem acreditará nesta figura que leva o mesmo nome, a mesma altura, os mesmos olhos, se vista obliquamente exibe toda a falsidade da primeira e a contrafação da segunda?

Então que queres conhecer? Seria bom desistir, amigo. Há mil séculos que tu vês criaturas que buscas em mim? Por que me segues olhando duro ou serenamente a todos os minutos que apareces? Por que és minha própria sombra? Por que te escondes e apareces de repente? És mais cômico do que trágico amigo. Será que ainda não pudeste entrar pela porta de serviço e espiar a teu prazer a pantomima? Os bastidores acolhem serenos e o pano de boca, veda? Será que tua perspicácia não alcançou a safadeza no olhar dos vendilhões de feira? Devias tudo ter adivinhado, mas, como queres tanto saber o que sou, vou te contar simplesmente o que sei.

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óleo sobre tela /1935 – 43×44,5 cm.  Acervo da família.

Nasci nu como os outros, em terra longínqua muito pobre e bonita. Meus pais fizeram tudo para mim, não correspondi porém às esperanças deles. Às vezes tenho remorsos disso, já é tarde (não pensem que o digo por cinismo), o que posso fazer agora? Nada. Com vinte anos, a política me pegou pelos cabelos e me empolgou ao ponto de ser chutado logo depois. Por quê? Por falta de equilíbrio, exorbitância de limites e outras coisas. Viajei um pouco, conheci homens de bem e maus sujeitos, sofri fome, que é o penúltimo dos tormentos. Quase sempre fui mal interpretado, embora sendo franco e honesto. Foi justamente neste setor humano que a sociedade sempre se equivocou. Por quê? Porque o homem social sempre foi ser fictício, um ser forjado de acordo com o ambiente, geralmente um boneco consciente com finalidades determinadas. O ser “fauve” nunca foi apreciado, nenhuma sociedade por mais livre pode aceitar o indivíduo que diz na lata o que sente e o que pensa. Pode, à primeira vista, achar graça, engolir sabiamente a pílula, segundo a ciência oriental, mas em seguida — logo que puder — afunda o sujeito sem dó nem piedade.

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óleo sobre tela /1935 – 23×27,5 cm.  Acervo da família.

Queres saber o que sou? Sou, no final de contas, um pobre diabo como tem tantos, talvez mais ainda que os tantos por ser visionário. Gostaria de ser útil; gostaria de fazer grandes coisas, o sonho me empolga — não à maneira das donzelas — mas depois… vejo, com nenhuma surpresa, que os sonhos eram castelos de papelão e que só resta ao homem o trabalho honesto e consciente.

Às vezes quero ser um forte, ter coragem, me bater à maneira antiga, mas cadê coragem? No fundo sou profundamente covarde (não tenho medo de mim mesmo porque em tal caso seria parecido com a anedota espanhola), mas, que o Sancho Pança tem grande atuação em mim é um fato, não posso negá-lo. Artisticamente não sou ainda um fracassado, graças às qualidades da vontade.

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óleo sobre tela /1947 – 35×49 cm.  Acervo da família.

Eu não sou um pintor nato, mas um artista em caminho. Até agora nada de notável produzi, colhi muitos elementos, anotações em quantidades. Explorei até os meus próprios sedimentos para ver se achava elementos novos que me facilitassem a escalada da montanha, sem nada ver, sem nada encontrar, só escombros e cadáveres de outros esforços mal digeridos. Quanto é difícil, Senhor, fazer alguma coisa sadia. Olhando distraidamente uma noite estrelada e considerando em seguida nosso arcabouço, não preciso dizer mais nada e depois a outra advertência: apodrecemos, que tal?

g-002_img_0510-gv-1950-auto-retrato-137x117cm-zincogravura-acfamilia-nmgvzincogravura /1950 – 11,7×13,7 cm.  Acervo da família.

Creio na amizade e ainda mais na inimizade. Destas tenho muitas e que muito me honram. Amizades bem poucas e todas conquistadas com bastante paciência. Tenho poucos apreciadores sinceros, de certo não se pode esperar por uma conquista total, uma vez que aqueles que nos são parecidos são poucos: devem ser poucos, de fato, e entre esses devem ser considerados aqueles anônimos que vivem ligados ao nosso espiritualismo, pelos fios invisíveis das analogias interiores. Já este fato de termos gente que nos entende faz com que as torturas e as dúvidas de que somos constantemente assaltados se tornem menos doloridas.

Essas torturas morais refletem no físico, uma necessidade contínua de se movimentar, de falar, de atacar sem motivo os outros, por que isso? Para esvaziar a vesícula, para não arrebentar. O que me faz parar alguns tempos sem falar e sem destilar veneno é a pintura. Aí no campo posso ficar duas, três e quatro horas sem nada pedir, preocupado em interpretar a natureza, tentando harmonizar o de fora com o de dentro, de maneira a me satisfazer pessoalmente. Poucas vezes consigo isso. Outras, estou no campo e pinto coisas que não tem nada com as que estão diante dos olhos, mas estou no ambiente e isto me basta.

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óleo sobre papelão /1954 – 48,5×65 cm.  Acervo da família.

Tentei várias vezes fazer vida de atelier, como muitos conhecidos fazem, entrar e sair a hora fixa, não resisti, porém, muitos dias. Um horário fixo me oprime como um pesadelo, e a mais, tenho a impressão que o tempo escraviza o homem de tal maneira a fazer dele um ser avesso, que contraria todas as leis, principiando por aquela do bom senso. Fazer tudo a hora fixa, como se fosse uma máquina, para se mostrar alguém excelentemente organizado é bem forte. O homem deve ser o que ele é, sem o uso da lixa.

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óleo sobre tela /1959 – 40×50 cm.  Acervo da família.

O homem galvanizado de hoje é meio homem, assim ele paga o próprio tributo social. Dizia que o atelier é excelente amigo da gente quando se quer trabalhar, quando se é perseguido por alguns fantasmas, por alguns amantes e a gente, de dentro do atelier pode responder: não estou, não tem ninguém! O atelier é bom para pensar, para estudar e assentar notas. É bom porque contém todos os nossos esforços, uma parte dos nossos pensamentos, pensamentos que nos custaram dias e noites de insônia. Embora tudo isso represente uma parte de vida interior, tem dias que não podemos ficar nem um minuto nesse ambiente.

Dias em que negamos tudo o que fizemos, tudo o que está dentro como se fosse um lugar de mentira. Mas, não seria mentir mesmo tudo o que nós fazemos? Não será talvez uma contrafação pueril da natureza o que grafamos sobre um piano, mesmo alcançando o essencial que é a poesia? Tudo o que sai de dentro e que não tem a feição comum das coisas que o mundo está habituado a ver diariamente seria pacotilha ou a verdadeira confissão da alma? E esta displicente confissão que representa a essência do ser e que o mundo exterior clama pela irrealidade, não seria um caminho falso que leva ao abismo?

Nada sei. Sei que só me resta trabalhar tenaz e continuamente para poder, um dia no fim da vida, dizer que consegui pouco em tanto esforço, mas fiz alguma coisa.

Guido Viaro – Revista Joaquim #18 – maio de 1948.

Link para página do Museu Guido Viaro,  inaugurado em 10/11/2009, em Curitiba – PR

Link para post sobre Pintores da Paisagem Paranaense.

* as  reproduções apresentadas neste post foram gentilmente cedidas por Tulio Viaro, cineasta e neto do artista. Publicarei na sequência outras séries de pinturas, na intenção de trazer à público parte da pictografia paranaense, ainda pouco disponibilizada na internet.



3 comentários para “guido viaro – auto retratos”

  1. Marcelo De Angelis disse:

    belo registro, belo resgate. volto mais tarde para melhor apreciá-lo.

  2. NATALIA disse:

    DE TA LI E

  3. Biel disse:

    Gilson, sensacional esse seu trabalho sobre os pintores paranaenses.
    Ainda tenho muito interesse em saber como você trabalha com a iluminação para fotografar esses trabalhos…?
    abraço.

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