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helena portela e claudete pereira jorge em “helena”

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CLIQUE E OUÇA – poema de Helena Kolody, por Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

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Helena Kolody nasceu em Cruz Machado em 12 de outubro de 1912. Seus pais, ucranianos, se conheceram e se casaram no Brasil. Helena passou a infância em Três Barras, interior do Paraná. Infância plena de sol e cigarras… é no contexto de mundo da imigração e da colonização das terras paranaenses na primeira década do século XX que Helena Kolody teve seu primeiro contato com a natureza e a realidade circundantes.

Sou brasileira, de pais ucranianos. Poderia ter sido Olena. Sou Helena, uma paranaense, cidadã honorária de Curitiba.
Minha infância transcorreu no interior em meio à natureza: rios, árvores, flores, vento, chuva e animais.
Uma tia de Rio Negro, Rosa Kolody Procopiak, foi quem me alfabetizou. Li rápido. Escrever nem tanto. Era canhota e naquele tempo isso era um “capricho”. Obrigaram-me a utilizar a mão direita para escrever. Faço todo o resto com a esquerda.

Meu pai, embora trabalhasse muito de dia, à noite, acendia o lampião na mesa, cada um de nós se sentava em seu lugar, lendo e lendo sem parar. Líamos em ucraniano e em português. Meu pai dizia: Por manter viva a memória, mantenho viva a pátria! Assim foi minha infância, plena de leitura, sol e cigarras…..

Ao amanhecer, geava forte, mas depois fez muito sol. Minha mãe disse….
Nasci num ranchinho de chão batido, feito de tábuas toscas, morada provisória de meus pais. Embora de sangue eslavo, nasci como uma índia e orgulho-me disso. Antes do alvorecer, milhares de pássaros se punham a gorjear; eu me acordava e ficava ouvindo aquele canto. Impregnei-me de natureza desde os primeiros dias de minha vida.

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CLIQUE E OUÇA – poema de Helena Kolody, por Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Aquelas tardes em Três Barras
Plenas de sol e de cigarras!
Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros
No áspero tronco dos pessegueiros

A chuva-de-ouro
Era um tesouro
Quando floria
De áureas abelhas
Tudo zumbia
Alfombra flava
O chão cobria….
O cão travesso, de nome eslavo,
Era um amigo, quase um escravo
Merenda agreste:
Leite crioulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado
Cheirando a favo

Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda corria
Para cantar no imenso terreiro:
“Mais um  dia, Vossa senhoria…”
“Bom barqueiro! Bom barqueiro….”
Soava a canção pelo povoado inteiro

E a própria lua cirandava e ria.
Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair.
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!

No riacho claro, as segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(ai, ai, que susto! Virgem Maria!)
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos…
Longínqua infância…. Três Barras
Plena de sol e cigarras…

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(Prece)
Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
de ser o coração singelo que perdoa,
a solícita mão que espalha, sem medidas,
estrelas pela noite escura de outras vidas
e tira d’alma alheia o espinho que magoa.

Esse poema recebeu o “imprimatur” da Igreja e é lido como se fosse uma oração.
Salvou uma linda jovem, porém depressiva, do suicídio.
Antes do gesto trágico, resolveu ler o livro que eu lhe dera de presente.
Abriu-o aleatoriamente, leu “Prece”, jogou o veneno fora e ganhou a vida.
Veja só… eu tenho vários poemas depressivos…
E se ela abrisse um deles?

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CLIQUE E OUÇA – trecho do espetáculo, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Em algumas poesias, desde a sua primeira coletânea, Helena sublinha abertamente a sua ligação sanguínea e espiritual com a pátria de seus antepassados; a Ucrânia. Com sua história, seu povo, seu desejo de liberdade e finalmente, com a imigração no Brasil, suas sofridas lutas. A dor dos antepassados, despertava no espírito da poeta e em sua memória de sangue um profundo sentimento de compaixão.

Sofre e chora em mim o espírito dos meus antepassados.

CLIQUE E OUÇA – trecho do espetáculo, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Desde criança, ouvi os versos de Tarás Chewtchenko. Minha mãe sempre lia em voz alta. O poeta mais importante da  Ucrânia. Nos tempos sombrios o que restou da Ucrânia era tão somente a sua poesia. O país era o poeta. Na adolescência, cheguei a ler seus versos no original. E comecei a traduzir alguns poemas. Os ucranianos ficaram felizes e publicaram as traduções. Então, papai me disse: estão bem traduzidos, mas a tradução exige muito cuidado, porque no original, certas palavras têm uma conotação poética diferente, uma força expressional que se perdem na tradução. Eu me acovardei e não traduzi mais. As poesias do Tarás eram rimadas, eu também quis traduzir com rimas e introduzi palavras que não existiam no original e, com isso, traí o poeta. As vezes se trai sem querer…

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CLIQUE E OUÇA – poemas de Helena Kolody, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Pintou estrelas no muro
E teve o céu
Ao alcance das mãos

Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada

Que importa a nuvem no horizonte,
Chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.

Quem é essa que me olha
De tão longe
Com olhos que foram meus?

A esperança engana, mente o sonho, eu sei.
Que mentiras lindas eu mesma inventei e contei pra mim.

Não ando na rua.
Ando no mundo da lua,
Falando às estrelas.

Quase um casamento eu tive…

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CLIQUE E OUÇA – trecho do espetáculo, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Olha, o que eu posso dizer é que amei e que ele já morreu.
Era um escritor muito inteligente, mas bebia…
Eu queria me casar e ter filhos, meu sonho sempre foi ser mãe, este é o meu sonho mais frustrado.
Então eu disse pra ele: Você tem que parar de beber. Naquele tempo eu não sabia que era uma doença, achava que ele podia parar de beber e pronto!
Ele disse: Está bem, eu paro. Dois meses ele conseguiu, depois tomou umas carraspana, daquelas de falar um monte de besteira. Eu pensei vou esperar mais um pouco; dois meses depois, mais bebedeira.
Eu disse: Eu não posso me casar com você!
Ele disse: Se você casar com outro eu morro.
Eu disse: Prometo que não caso com outro porque eu gosto de você e, se eu não caso com você, não caso com mais ninguém! E não casei.
Tenho certeza que Deus me quis poetisa, se eu tivesse me casado vocês não estariam lendo esses poemas. Marido e filhos consumiriam meu temperamento amoroso.

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Daquilo que foi escrito, Dona Helena, o que a senhora considera o mais importante em poesia, resumindo o que foi a sua vida, a sua trajetória?

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

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CLIQUE E OUÇA – trecho do espetáculo, por Claudete Pereira Jorge, Helena Portela e Octavio Camargo

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Sempre tive pra mim que eu não queria envelhecer. A própria memória se despoja de um monte de fatos e lembranças, principalmente de coisas que eu li e não lembro mais. Dos meus próprios versos eu esqueço. E com isso eu não me conformo, porque, sempre tive uma memória tão boa… eu era capaz de guardar de cor livros inteiros. Ganhei raciocínio com a idade, mas perdi muito de memória e memória é meu arquivo. Daí começo a pensar como professora de biologia: todos os dias morrem milhares de células em meu cérebro e isto não é recuperado. É muito trágico.

Mas ainda sei que sou Helena Kolody, paranaense de Cruz Machado, vivendo há  mais de meio século em Curitiba. Por vocação e escolha fui apaixonadamente professora. Acho que já falei isso… Nasci poetisa. Desde criança amei os pássaros, as palavras e as canções. Na adolescência, comecei a cantar meus sonhos em versos. De sonhos aprisionados em poemas inventei muitos livros. Acho que já falei isso também… Dedico-me agora a aplaudir as novas gerações.

Hoje moro em um apartamento cujas janelas se abrem para a praça mais movimentada da cidade. Raramente escrevo. Agora sou uma simples espectadora, igual uma camponesa que se senta no fim da tarde e vê a vida acontecer… Mas ainda sonhando… Escuto cigarras, talvez…

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Orvalho no olhar.
Constelações na memória.
Nos cabelos, luar.

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Dezenas de livros….. centenas de poemas… consagrada…..
Ainda assim ela dizia com a doçura e a humildade que lhe eram peculiar:

Todas as coisas tem seu tempo, tem alguns privilegiados, não sei se pelo
Talento ou pelo que, ficam, mas o resto se esquece, passa!
Então, muito tranquila, meu nome desenho com giz no muro do tempo.
Choveu, sumiu!

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Elenco: Claudete Pereira Jorge, Helena Portela
Texto e Direção: Rafael Camargo
Música: Octavio Camargo
Stand by: Maia Piva
Iluminação: Erica Mityko
Cenário/Figurino: Ricardo Garanhani
Programação visual: Marcelo de Angelis
Fotografia: Gilson Camargo
Gravação de áudio: Estudio do Troy
Direção de Produção: Nautilio Bronholo Portela
Coordenação de Projeto e Produção: Jewan Antunes
Realização: NBP Produções

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Minha vida é um largo rio de águas mansas
Vida sem ilusões nem esperanças
De curso sempre igual.
Rio sem a imponência das cachoeiras,
Sem o encanto verde das ilhas,
Nem o ímpeto rumoroso das corredeiras.
Sem grandes alegrias nem profundas mágoas
Rio de planície ignorada; rio, cujas águas
Passarão sem deixar memória
De sua silenciosa trajetória.
Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d’agua
Que canta e murmura na mata silenciosa.

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As imagens externas que ilustram esta matéria foram produzidas na réplica da igreja de São Miguel Arcanjo, no Memorial Ucraniano do Parque Tingui, em Curitiba, para divulgação do espetáculo. As imagens de palco foram produzidas no teatro do Sesi Portão, durante a sua primeira temporada, em outubro de 2012.

Os textos são fragmentos do original de Rafael Camargo e poemas da autora.

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Bem, aí­ está o kit divulgação Helena.

E cara, te digo: gostei muito de fazer esse trabalho. A Claudete é maravilhosa! Em tudo. Principalmente quando dizia: – não, pára, peraí­… não vamos poluir o cartaz assim… tira isso e aquilo, mantenha limpo… a cliente ideal.

No começo tive que superar uma rejeição natural à sugestão dela de usar o Aquarela, poema da Kolody que fala nas andorinhas. Imagem poética belissima, mas visualmente já banalizada. Você encontra muito por aí­ a mesma alusão.

Mas tive sorte e, depois de algumas tentativas capengas, indo a campo inclusive, cheguei à cena ideal. Aquela que cumpria com a sugestão de uma escala musical sem exagerar na referência. Alguém brincou que a andorinha que está em vôo é wirelesss, hehehehe.

Trabalhar com o azul, resgatar o azul, cor que tenho negligenciado nos últimos anos e que já foi fundamental pra mim me deixou muito feliz. E azul é a cor dos olhos da poeta. E azul e branco são as cores da Grécia, terra de origem da outra Helena, tão famosa e bela.

Deu certo. E mesmo tendo realizado o trabalho em meio a uma campanha polí­tica, ainda gosto dele. Principalmente por ter um ar tão silencioso. E azul.

A Claudete tinha razão. E, assim que tive a oportunidade fui até ela agradecer pela sugestão. No seu post, acho que vale pelo menos citar o poema como idéia mater. E se quiser reproduzir os versos, vão já aqui. No mais, é contigo.

Marcelo de Angelis

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CLIQUE E OUÇA – poemas de Helena Kolody, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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(Pirilampejo)
O sapo engoliu
a estrelinha que piscava
no escuro do brejo.
Ficou mais sombria a noite
sem o seu pirilampejo.

(Aquarela)
Sol de primavera.
Céu azul, jardim em flor.
Risos de crianças.
Na pauta dos fios elétricos,
Uma escala de andorinhas.



6 comentários para “helena portela e claudete pereira jorge em “helena””

  1. helena portela disse:

    suas fotos são escandalosamente lindas! muito obrigada, meu querido!

  2. Barbara Kirchner disse:

    Sem dúvida, uma das postagens mais lindas que já vi! Gracias, Gil, por oportunizar o registro de duas almas absurdamente lindas. Amplex a todos os envolvidos!

  3. jewan antunes disse:

    kkkkkk

  4. jewan antunes disse:

    kkkkkkkkkkkkçççççççççççççççççççççççççççççlllllllllllllllllllllllllllllllllllllll

  5. jewan antunes disse:

    preciso mandar o link pro email do jewan.. como faço???

  6. Olhar Comum » Helena Portela e Claudete Pereira Jorge em “Helena” disse:

    […] Conteúdo produzido pela Olhar Comum e originalmente publicado em http://www.gilsoncamargo.com.br/blog/?p=7356 […]

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