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o ser humano

Apesar da pretensão orgulhosa de dominar a natureza, somos ainda assim suas vítimas, porque não aprendemos a nos dominar pessoalmente. Lentamente, mas inelutavelmente, caminhamos para o desastre. Não há mais deuses a quem possamos recorrer. As grandes religiões do mundo sofrem de uma anemia aguda uma vez que as divindades propícias desertaram dos bosques, dos rios, das montanhas, dos animais, enquanto os homens-deuses foram relegados a nosso inconsciente. Vivemos na doce ilusão que eles levam uma vida ignominiosa entre as relíquias do nosso passado. Nossa vida presente é dominada pela deusa Razão, nossa maior e mais trágica ilusão. É graças a ela que “vencemos a natureza”.

Mas isso não passa de uma mensagem publicitária, porque esta pretensa vitória sobre a natureza produziu o fenômeno desastroso da superpopulação, sem mencionar nossa incapacidade mental para adotar medidas políticas urgentes e necessárias. Continuamos a admitir como algo natural os conflitos entre os homens, e cada qual procura afirmar, constantemente, sua superioridade sobre os demais. Como se pode falar de vitória sobre a natureza?

Como toda mudança deve principiar em alguma parte, é o indivíduo isolado que terá a intuição e que promoverá a transformação. Esta mudança só pode germinar no indivíduo e seu agente pode ser qualquer um de nós. Ninguém pode ficar de braços cruzados, olhando em sua volta, até que um outro realize o que o primeiro não quis fazer. Infelizmente, nenhum de nós sabe exatamente o que fazer: talvez valesse a pena que cada um interrogasse a si mesmo, a fim de descobrir alguma coisa no seu inconsciente que fosse útil a todos. A consciência parece ser incapaz de nos auxiliar. O homem de hoje percebeu dolorosamente que nem suas grandes religiões, nem suas diversas filosofias, fornecem idéias fortes e dinâmicas que lhe dêem a segurança necessária para enfrentar o estado atual do mundo.

Eu sei o que diriam os budistas: tudo iria bem se as pessoas seguissem o caminho múltiplo do Dharma (lei) e aprendessem a conhecer verdadeiramente o Si. Os cristãos nos dizem que se as pessoas acreditassem em Deus, o mundo seria melhor. O racionalista afirma que se as pessoas fossem inteligentes e sensatas, todos os problemas seriam solucionados. O trágico é que nenhum racionalista se esforça por que Deus não se comunica mais com eles, como fazia no passado. Quando me fazem esta pergunta, penso sempre naquele rabino a quem indagavam por que motivo Deus não aparecia mais aos homens de hoje. O rabino respondeu: “Hoje não há mais ninguém que seja capaz de se curvar tão baixo.”

C.G. Jung


Cartaz de Foca Cruz para espetáculo teatral “Totum Dominatum Est (Tigris Bondus)”.



2 comentários para “o ser humano”

  1. anna disse:

    Humildade, é só o que nos restou. Não é possível apontar o dedo para lado nenhum, ou responsabilizar alguém. Ou dizer “isto nunca mais acontecerá”. Estamos aqui – na Terra – também, como todo o resto. Na mesma condição que todos os outros habitantes. Na mesma situação de constante impermanência.

  2. jan disse:

    O homem moderno está muito ocupado desenvolvendo, utilizando e buscando necessidades desnecessárias. Não lhe sobra tempo para cuidar de desnecessidades, antes consideradas necessárias. O ter, o individualismo, tomaram conta do ser, que não se importa com as conseqüências de ser como é, do seu agir/falta de agir. Ocupado demais, para se preocupar com seres humanos, ou divinos.

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