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os delatores da inconfidência – espetáculo com drama em dois atos, intermezzo, poemas e canções

Texto original: Paulo Bearzoti

PERSONAGENS DO ESPETÁCULO

• Grupo musical
• Bárbara Eliodora (Narradora, Advogada)
• Governador Fanfarrão Minésio
• Conselheiro Procurador Real de Justiça
• Juiz Sérvolo de Moura
• Marquês de Ouro Preto
• Alberico Bico Doce
• Cecília Meireles
• Guardas
• Conde da Diamantina
• Tiradentes

Tiradentes_escuartejado_(Tiradentes_supliciado)_by_Pedro_Américo_1893a
Tiradentes esquartejado. Óleo sobre tela de Pedro Américo (1893).

SONETO DE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

Torno a ver-vos, ó montes; o destino
Aqui me torna a pôr nestes outeiros;
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Corte rico, e fino.

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,
Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros
Atrás de seu cansado desatino.

Se o bem desta choupana pode tanto,
Que chega a ter mais preço, e mais valia,
Que da cidade o lisonjeiro encanto;

Aqui descanse a louca fantasia;
E o que até agora se tornava em pranto,
Se converta em afetos de alegria.

FALADOR PASSA MAL – OS ORIGINAIS DO SAMBA

Falador passa mal, rapaz!
Falador passa mal!
Falador passa mal, rapaz!

Quem mandou você mentir?
Você vai se machucar!
Novamente aqui estou
Você vai ter de me aturar!

Que malandro é você?
Que não sabe o que diz
Cuidado que muita mentira
Você pode perder o nariz!
Olha, eu vou te dá um alô
Que é pra você se mancar.
Olha, eu vou te dá um alô
Que é pra você se mancar.

Se você saiu por aí
E não conseguiu
Arranjar alguém
Deixe que alguém
Saia por aí
E consiga arranjar você!
Porque

Falador, falador, falador, falador
Falador passa mal, rapaz!
Falador passa mal!
Falador passa mal, rapaz!

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Um dos músicos da Banda diz:

“Nós somos a Banda Mímesis, e lhes damos as boas-vindas neste Teatro de Variedades, intitulado Os Delatores da Inconfidência. Teremos Música, Drama, História e Poesia. Desejamos boa noite e esperamos que aproveitem o espetáculo!”

SUINGUE DO DELATOR

O delator é um cara de sorte:
escapou da prisão e da morte!

O delator é um cara sincero:
pelo menos assim eu espero!

O delator nunca mais se disfarça:
ele até já entregou seus comparsas!

O delator não é um dedo-duro:
é um cara de grande futuro!

Há quem diga
que você ganhou dinheiro com a intriga.
Há quem fale
que sem grana sua palavra não vale.

Na verdade, eu guardei um tesouro,
na verdade, sem ele eu estouro,
na verdade, eu perdi o decoro,
na verdade sem grana eu me moro!

Há quem sinta
que é o melhor é sempre dar uma pinta.
Há quem pense
que no fundo o crime compense.

O delator já está arrependido:
e por isso entregou os bandidos.

O delator não é um X-9:
ele fala e não há quem comprove!

O delator não é alcaguete:
ele fala com voz de falsete!
Deus do céu, mas quem é que delata?
São só trinta moedas de prata!

Há quem diga
que você ganhou dinheiro com a intriga.
Há quem fale
que sem grana sua palavra não vale.

Na verdade, a pílula eu douro,
na verdade, não há mal agouro,
na verdade, eu escolho o meu foro
na verdade sem grana eu me moro!

Há quem sinta
que é o melhor é sempre dar uma pinta.
Há quem pense
que no fundo o crime compense.

Confesso que foi com mulheres,
confesso, se é que preferes,
confesso o que quer que quiseres,
assim dedurei o alferes!

Vale nada
a sua delação premiada!

Confesso que não dei por visto,
confesso que eu não sou bem quisto,
confesso que eu nunca desisto,
assim dedurei Jesus Cristo!

Vale nada
a sua delação premiada!

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Entra no palco, a Narradora Bárbara Eliodora.

BÁRBARA: Sejam bem-vindas, sejam bem-vindos,
todas e todos!
Esta noite encenaremos o lindo
enredo de um grande engodo.
Uma história que se passa
num tempo de devassa.
Uma história que proclama
a insanidade da derrama.

Foi no século dezoito, em Minas.
Diante da Rainha louca, Dona Maria,
o povo brasileiro tentaria,
pela primeira vez reverter sua sina
de servidão e de Colônia.
Como a Rússia czarista foi para a Polônia,
como a Espanha e a França para os bascos,
o Brasil também tinha seu carrasco,
numa elite entreguista e oligarca
privilegiada pela ordem escravocrata
e pela descoberta do vil metal
que atiça sobre esta nossa terra
a cobiça da Coroa de Portugal,
já dominada pelo Reino da Inglaterra.

Uma chaga que nas Cartas Chilenas
Tomás Antônio Gonzaga
ironizou com a adaga
mordaz de seu poema,
tecendo o retrato
de um tempo de leões com pés de pato,
tigres que voavam, camelos
que pariam homens, e penedos
roliços que nadavam sobre as ondas.

Eis, porém, que repentinamente estronda
o grito contido da brava gente,
organizada no Movimento Inconfidente,
que, apesar de toda sua ambivalência,
representou o nascimento
entre nós do sentimento
popular de independência.

Entretanto, nesta peça,
recriaremos um triste aspecto que atravessa
não apenas o nosso passado obtuso.
Refiro-me ao uso
judicial de delatores, o império
de Judas e Joaquim Silvério,
cuja impostura
decorre às vezes do gosto pela usura,
e às vezes decorre da tortura…

Mas estamos nos adiantando…
Vamos primeiro apresentar o bando
que então governava a Capitania
de Minhas Gerais e por lá vivia
falando sempre contra
a corrupção que em toda parte se encontra.
Entre os tais se conta o Conselheiro Procurador,
e o Fanfarrão Minésio, nosso Governador.

Se as atitudes deles surpreenderem,
não pensem, mesmo assim, que lhes contamos,
por verdadeira história, uma novela
da classe das patranhas impossíveis.
Uma velha madrasta me persiga,
um marido ciumento me atormente,
e eu tenha um monte de gatunos filhos,
que um puto não me deixem, se estes caras
não fazem inda mais do que eu refiro.

E para vos guiar neste maroto enredo,
que tanta trapaça interpreta,
tendes aqui a mim, que fui poeta
e numa época de tantos degredos
não tive medo dos caminhos ignotos,
desvendei os segredos da mineralogia
– além de ter sido a esposa que de fato instruía
o também poeta Alvarenga Peixoto.
Meu nome? É Bárbara Eliodora.

Chega, então, de arenga e de demora!
Vamos agora enfiar-nos na sondagem
da alma dos delatores.
Senhoras e senhores,
palmas, por favor, às personagens!

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Entram o Conselheiro, Procurador Real de Justiça, e o Governador da Capitania de Minas Gerais, Fanfarrão Minésio.

ATO I

CENA 1

CONSELHEIRO: Pois é como vos digo, Governador Minésio. Trata-se de uma conspiração em curso. Se não tomarmos medidas enérgicas e urgentes, estaremos colocando em risco as riquezas e a própria unidade do Reino.
GOVERNADOR: Senhor Conselheiro, não estarás exagerando? Uma revolta? Dessa gentinha? Uns vagabundos que, francamente, provocam-me muito mais a galhofa do que o medo. Tu chegaste há pouco do Reino e talvez te impressiones por alguns iluministas que andem pela Europa. Mas aqui…
CONSELHEIRO: Compreendo perfeitamente, Governador. Não se faz preciso mais que alguns instantes nesta Colônia maldita para perceber não apenas os mosquitos e o calor infernal, mas também a decadência moral da populaça. Mesmo assim, notai que, desde a descoberta do ouro…
GOVERNADOR: Do ouro, garantimos o nosso quinhão, que o cobramos de azorrague na mão!
CONSELHEIRO: Não descreio de vossos cuidados, mas os meios de desvio são insondáveis, e uma coisa vos asseguro: jamais vi terra tão corrupta! A propina é o motor de todos os negócios. Aqui, como diz o poeta: é furtar e foder!
GOVERNADOR: Por isso mesmo que não acredito. Se vivem a furtar-se e foder-se ininterruptamente, como haveriam de organizar-se para uma revolta!
CONSELHEIRO: Pois eu vos asseguro que, se não agirmos logo, há o risco de que por cá se passe o mesmo que em terras de Inglaterra, com a tal Independência das 13 colônias daqueles Estados Unidos. Por aqui, já se fala em liberdade e até em América…
GOVERNADOR: Custa-me crer…
CONSELHEIRO: Senhor Governador, minhas ordens provêm diretamente da rainha Dona Maria e do próprio reino de Inglaterra.
GOVERNADOR: Pois não me diga! Os ingleses, mas que chique! Estão interessados em nós?
CONSELHEIRO: Em nosso ouro, quereis dizer.
GOVERNADOR: Ora, pois sempre lhes pagamos o quinhão, e bem pesado.
CONSELHEIRO: Por isso mesmo é que a Corte Britânica exige que tomemos providências.
GOVERNADOR: Mas o que devemos fazer? Quais são teus conselhos, Conselheiro?
CONSELHEIRO: Temos que agir pelo método das aproximações constantes, como nos logaritmos. Em primeiro lugar, um aumento repentino de impostos, uma derrama! Isso fará que esses revoltosos metam o focinho pra fora. Com isso, poderemos identificar os líderes. Em seguida, por meio de umas táticas britânicas, vamos encontrar delatores a quem oferecer uma, digamos, colaboração premiada. Realizaremos, então, um julgamento imparcial e, a seguir, aplicaremos as condenações. Penas de prisão, de exílio e, para certos elementos mais proeminentes, a forca e o esquartejamento! Será trabalhoso, mas organizaremos uma “força-tarefa”.
GOVERNADOR: Oh, vejo que trazes tudo já esquematizado. “Método de aproximações constantes”, “táticas britânicas”, “força-tarefa”… É divino! Mas o que é isto de “colaborações premiadas”? Eu, na verdade, tenho horror a esta gente…
CONSELHEIRO: Isso, Excelência, deixaremos a cargo de um magistrado, um juiz especial!
GOVERNADOR: Especial? Pois por aqui não haverá juízes para este julgamento?
CONSELHEIRO: São todos comprometidos com a subversão! Ou estão cobertos por besteiras iluministas sobre direitos do homem, como se este povinho merecesse qualquer direito além da forca. Não, Excelência, teremos de buscar um juiz-de-fora!
GOVERNADOR: Quanta novidade! Um juiz-de-fora! Pois viva! E de onde virá este homem?
CONSELHEIRO: De uma província do Sul, uma região agrícola de nossa Colônia. Mais precisamente, da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba!
GOVERNADOR: Ora, mas deve ser um bronco, um bárbaro, um caipira no mínimo.
CONSELHEIRO: Não, não, estais enganado, Excelência. Nesta pequena vila predominam elementos reinóis, espanhóis e até italianos e germânicos. Lá, os indígenas são exemplarmente punidos. Não têm sequer o direito de habitar a região central da vila, sendo competentemente recolhidos para as áreas periféricas.
GOVERNADOR: Ora, mas isso todos tentam. Aqui já editamos várias instruções…
CONSELHEIRO: Perdão, Excelência. O que digo é que lá eles realmente lograram reservar o centro para os brancos. Hoje, Curitiba é um verdadeiro modelo para a Colônia.
GOVERNADOR: Uma vila modelo!
CONSELHEIRO: Uma vila modelo! Por isso, é de lá que virá nosso juiz-de-fora. Trata-se, além disso, de alguém que estudou Direito diretamente na Ilha Real Britânica!
GOVERNADOR: Pois, salve! E quando poderemos vê-lo?
CONSELHEIRO: Em poucos minutos. Tem viajado nas últimas duas semanas e daqui a pouco já irá cruzar por esta porta.
GOVERNADOR: Oh, Senhor Conselheiro, então devemos, antes disso, nos desincumbir daquele nosso negócio, compreende? Daquele trato, como dizer, aquele nosso entendimento a respeito daquele metal amarelo que bem conheces…
CONSELHEIRO: Sim, claro, com esta luta contra os corruptos, eu já ia me esquecendo. Quer dizer que nossa operação de busca e apreensão nos resultou produtiva?

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Enquanto fala, o Governador se dirige para fora da cena, voltando com duas malas na mão.

GOVERNADOR: E como não haveria de ser? Contamos com uma tropa de elite, capaz de recolher o tributo devido ao Reino e seus leais servidores. Veja, aqui está a tua mala.
CONSELHEIRO: Oh, que maravilha, que linda mala!
GOVERNADOR: E esta é a minha mala!
CONSELHEIRO: Vejo que igualmente bem fornida!
GOVERNADOR: Enquanto aguardamos este juiz-de-fora, tratemos de reservar as nossas malas. Seria talvez fastidioso perdermos tempo explicando nossos operativos de busca e apreensão, que, ao fim e ao cabo, só dizem respeito a nós mesmos.

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O Governador leva as malas para fora da cena.

CONSELHEIRO: Certamente, ele ficaria entediado com um relato dessa natureza. E, aliás, por falar nele, ei-lo que já se adentra. Não sei se lhe referi o nome. É o doutor Sérvolo de Moura.
GOVERNADOR: Oh, um autêntico Mourão!

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Entra o Juiz Moura e canta, juntamente com o Conselheiro e o Governador:

CENA 2

SUINGUE DO MAGISTRADO

Ah, uh – eu sou o tal!
Uh, ah – do Brasil e Portugal!

Fiz curso em Oxforde,
pago férias em Miami,
sou tratado como um lorde,
ganhei prêmio em Notre Dame.
E agora é meu juízo
dar um jeito neste mundo:
cuidado, vagabundos,
que eu não durmo no serviço!

Ah, uh – eu sou o tal!
Uh, ah – do Brasil e Portugal!

Dizem que exagero
nos interrogatórios,
dizem que eu procuro
a todo custo um dedo-duro.
De fato eu só prospero
porque tenho iniciativa
e ordeno quando quero
condução coercitiva!

Ah, uh – eu sou o tal!
Uh, ah – do Brasil e Portugal!

A praga que se infesta
desde o Pampa à Amazônia,
é o povo que não presta,
mas corrompe esta Colônia.
E querem que eu engula
camarão, vieira e lula?
Onde já viu
a Independência do Brasil?

Ah, uh – eu sou o tal!
Uh, ah – do Brasil e Portugal!

Não gosto de rodeio,
nem ninguém me representa,
por isso até grampeio
o presidente e a presidenta.
Pro bem dos brasileiros,
decidi que doravante
os novos governantes
sou eu mesmo quem nomeio!

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CONSELHEIRO: Seja bem-vindo, doutor Moura.
GOVERNADOR: Doutor Moura, é um grande prazer! Fez boa viagem? Deseja repousar?
JUIZ MOURA: Não, de modo algum. Aproveitei a longa jornada, estudei o inquérito e creio já reunir as condições para tomar pé da situação imediatamente.
CONSELHEIRO: Excelente, Excelência! Pois, então, amanhã mesmo vamos fazer circular a notícia da derrama.
JUIZ MOURA: Perfeito! Já preparei as confissões e as sentenças. Poderemos decretar as prisões em tempo absolutamente inédito!
CONSELHEIRO: A propósito, Doutor Moura. Eu conversava aqui com nosso diligente Governador Fanfarrão Minésio a respeito do procedimento denominado “colaboração premiada”. Parece que será necessário talvez promulgar algum decreto…
JUIZ MOURA: Exatamente. Trata-se de um excelente método, aplicado há muitas décadas pelo governo britânico. O primeiro passo é encarcerarmos um delator.
GOVERNADOR: Ora, isso não há de faltar… Entre essa gente, contam-se os tipos mais asquerosos.
JUIZ MOURA: Mesmo assim, seria conveniente criar uma motivação adicional…
GOVERNADOR: Oh, mas temos de nos ater aos ilustradíssimos diretórios de Sua Magnificência, o Marquês de Pombal, inspirados pelas mais humanistas doutrinas…
JUIZ MOURA: Tolices, galicismos, tristes influências francesas, que só têm feito retardar nossa organização social!
GOVERNADOR: Mas, Excelência…
JUIZ MOURA: Penso que esse ponto se resolve por duas frentes. De um lado, é necessário editar um decreto que regulamente a participação dos delatores. Deles, naturalmente, deve-se exigir a mais sincera verdade. Se voltarem atrás com sua palavra, devem ser imediatamente levados à forca!
GOVERNADOR: Exige-se, além disso, a comprovação, por documentos ou outros ofícios, daquilo que seus lábios afirmarem…
JUIZ MOURA: Não necessariamente. O mais importante é a palavra. Por isso, somente aceitaremos cristãos que estejam em dia com suas confissões. Esta é a primeira das inovações que aprendi com os ingleses.
CONSELHEIRO: Oh, por favor, explique-nos, Excelência! Adoro essas novas doutrinas.
JUIZ MOURA: Como sabeis, os crimes mais organizados, como a corrupção, o contrabando de ouro, bem como a Conjuração dos Inconfidentes, esse tipo de crime não deixa rastros facilmente identificáveis. Numa palavra, pode não haver provas.
CONSELHEIRO: Sim, é verdade! Oh, quanta inteligência!
GOVERNADOR: Com fazemos então para punir esses criminosos?
JUIZ MOURA: Temos de contar com os colaboradores. Se eles, mediante juramento, acusam os criminosos, e se o juiz tiver convicção da culpa dos réus, então é o que basta!
CONSELHEIRO: Oh, notável, brilhante!
JUIZ MOURA: O mais importante não são as provas, mas a nossa convicção!
CONSELHEIRO: Espantoso! Estou maravilhado com a astúcia de Vossa Excelência!
JUIZ MOURA: Para isso, entretanto, é fundamental que os colaboradores sejam devidamente incentivados!
GOVERNADOR: Sim, é claro. Mas como fazê-lo, os diretórios de Pombal…
JUIZ MOURA: É aí que entra a segunda medida. Meditai e respondei. Este é ou não é um país cristão e católico?
GOVERNADOR: Oh, sem dúvida que o é!
JUIZ MOURA: Então, será ou não justo valermo-nos de preceitos cristãos e católicos?
CONSELHEIRO: Oh, sem dúvida que o será!
JUIZ MOURA: Pois, então, devo lembrar-vos que ainda tendes à mão o Manual de Interrogatórios do Santo Ofício… Seria necessário, naturalmente, retirar alguns exageros. No geral, contudo, ele poderá nos ser perfeitamente útil.
CONSELHEIRO: Sim, é claro, a Inquisição! Seus métodos são de fato muito edificantes.
JUIZ MOURA: Bastaria, talvez, editar um ofício de caráter reservado, para circulação interna, lembrando a validade do Manual do Santo Ofício…
GOVERNADOR: Oh, Vossa Excelência é muito letrado… Temo, contudo, que algum gaiato possa recorrer com embargos aos tribunais superiores…
JUIZ MOURA: Compreendo, Governador,
que temeis, mas, por favor:
num caso assim controverso
vos responderei em verso.
Se grave demanda tendes,
lembrai-vos do amigo Mendes!
Se for embargo espinhoso,
não esqueceis do Barroso!
Vos afianço com certeza:
sempre estarei no caminho
da Ilustríssima Nobreza
do popular Barrosinho!
GOVERNADOR: O Barrosinho! Mas, claro, havia me esquecido… O amigo Barrosinho!
CONSELHEIRO: Por Deus, não teremos enrosco, que o Barrosinho está conosco!
GOVERNADOR: Sendo assim, não há problema, Excelência. Habilitarei o Manual do Santo Ofício!
JUIZ MOURA: Ótimo, perfeito! Passemos, então, ao exame das lideranças.
GOVERNADOR: Bem, estas certamente nos serão informadas pelos delatores… Não? Não é assim? Ora, então, já não compreendo mais nada!
CONSELHEIRO: Deveis perdoar-lhe, Excelência! Nosso Governador Minésio é um homem devotado às artes do espírito e ao cotidiano da administração.
GOVERNADOR: Senhores, esclarecei-me, por favor!
CONSELHEIRO: Veja, meu bom Governador Minésio, nossos serviços infiltrados e nossa própria avaliação política já determinaram quem são os líderes deste nefasto movimento. Francamente, não poderíamos depender dos delatores e do julgamento para firmar nossas convicções…
JUIZ MOURA: Muito bem, senhor Conselheiro, muito bem colocado!
GOVERNADOR: E o que dizem, então, nossos infiltrados e nossa análise política? A mim me parece que um verdadeiro larápio sem dúvida seja o Marquês de Ouro Preto.
CONSELHEIRO: Não, não, Governador, por favor, não podemos agir assim com um homem do porte do Marquês de Ouro Preto. Trata-se de uma pessoa da mais alta estirpe.
GOVERNADOR: E um velhaco, ladrão e contrabandista.
CONSELHEIRO: Claro, claro. Nossos homens com certeza indicam-lhe equívocos, talvez por inocência ou má influência. Teremos provavelmente de lhe aplicar uma pesada multa, mas não podemos considerá-lo como parte da baderna.
JUIZ MOURA: Lembrai-vos, Governador, que o cabeça será enforcado e esquartejado.
GOVERNADOR: Bem, então, será alguém como o Conde de Mariana ou o Senhor das Lavras…
CONSELHEIRO: Não, não, calma, não é isso!
GOVERNADOR: Bem, quem será então?
CONSELHEIRO: Nossos estudos pormenorizados e as informações que nos foram meticulosamente transmitidas pelos homens infiltrados…
JUIZ MOURA: … e devo acrescentar que meus concentrados estudos, feitos durante a viagem até estas Minas Gerais, confirmam perfeitamente esta conclusão…
CONSELHEIRO: … indicam que a principal liderança, que, após o julgamento e as provas, deverá ser condenado à força e ao esquartejamento, indubitavelmente é o alferes Joaquim José Ignácio da Silva, conhecido como Tiradentes!
JUIZ MOURA: Exato, é este mesmo: José Ignácio Tiradentes da Silva!
GOVERNADOR: Ora, ele é, de fato, um sujeito popular. Foi o mais votado para a Câmara Municipal. Mas todos o têm na conta de pessoa mui honesta. Tem origem simples, é trabalhador, muito falante e perspicaz…
CONSELHEIRO: Calma, Governador, já vos pedi calma!
JUIZ MOURA: Este é o homem ideal para a forca! Tenho nisso a mais plena convicção!
GOVERNADOR: Ora, bem, se os senhores assim o consideram, quem sou eu para me opor… Mas ele não terá agido sozinho. Quem mais, então, lhe fará companhia no patíbulo?
JUIZ MOURA: Não se trata de congestionar o patíbulo… Uma cabeça basta para refrear os instintos do carrasco e dar a necessária lição ao povo.
GOVERNADOR: Por certo, mas quem mais está com ele?
CONSELHEIRO: Dois são os comparsas principais, que também terão de suportar os necessários constrangimentos.
GOVERNADOR: E quem são eles?
CONSELHEIRO: Dois poetas.
GOVERNADOR: Poetas? Homens de letras, sonhadores? Serão mesmo perigosos revolucionários?
CONSELHEIRO: Sem dúvida, e do pior tipo! Um deles é um certo Cláudio Manuel da Costa, um poetastro metido a chefete de endemoniados.
JUIZ MOURA: Este terá sua parte na epopeia!
CONSELHEIRO: O outro, como mencionei, é também um poeta. Tem o nome de Tomás Antônio Gonzaga, mas adota o pseudônimo de Dirceu. Escreveu a obra Marília de Dirceu. É especialmente asqueroso, este Dirceu!
GOVERNADOR: Ah, este até eu já ouvi falar. Todas as pessoas de bem odeiam este fulano, este zé-povinho, zé-ruela, este Dirceu!
CONSELHEIRO: Eu nem o conheço e também odeio este Dirceu!
JUIZ MOURA: Sabem, nem sei por quê, mas eu também o odeio! Odeio este Dirceu!!!
OS TRÊS: Morte a este Dirceu!
GOVERNADOR: Oh, que bela manhã, que decisões sábias, prudentes, ponderadas e cristãs!
CONSELHEIRO: Serão elas a base de uma nova sociedade, não tenho dúvida!
JUIZ MOURA: Uma sociedade mais humana e liberal, livre da corrupção e da subversão!
GOVERNADOR: Oh, sinto-me tão feliz, adoro tomar parte assim do processo histórico!
CONSELHEIRO: Obrigado, doutor Moura! Sem Vossa Excelência, nós nada conseguiríamos!
JUIZ MOURA: Eu também vos agradeço. Sinto-me sempre satisfeito quando estou junto a homens que, como vós, trazem as mãos limpas!

Os três saem de cena.

INTERMEZZO

TRÊS ROMANCES DO “ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA”, DE CECÍLIA MEIRELES

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Entra Bárbara Eliodora.

BÁRBARA: Deixemos em paz por um instante
estes honrados governantes,
e a patética escala de suas vaidades.
Neste nosso Teatro de Variedades,
para honrar o público e mais bem agradá-lo,
preparamos um poético intervalo.

Na distante década de 1950,
a brilhante poeta Cecília Meireles, atenta
às lutas e anseios da gente brasileira,
em versos louvou a Conjuração Mineira.
Valendo-se da forma tradicional do romance,
criou uma obra de grande alcance,
esplêndido estilo e consciência:
eu me refiro ao Romanceiro da Inconfidência.

Três dos romances tecem o retrato
dos torpes delatores e de seus relatos.
Quem ouvi-los com atenção, há de
perceber sua notável e triste atualidade,
e esta verdade inclemente
será o tema de nosso entreato.
Cavaleiros e damas,
peço-vos, novamente,
aplausos a quem declama!

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Entra a primeira declamadora.

ROMANCE DE JOAQUIM SILVÉRIO

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros
– e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes!

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério!
Pois ele encontra remorso,
coisa que não te acomete.
Ele topa uma figueira,
tu calmamente envelheces,
orgulhoso e impenitente,
com teus sombrios mistérios.
(Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
Há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.)

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O poema a seguir é interpretado por dois cantores declamadores, um dos quais acompanhado de pandeiro, a modo de uma embolada.

ROMANCE DOS DELATORES
(Adaptado – com versos modificados e supressão de duas estrofes)

1ª VOZ: O que andou preso me disse
que dissera o Carcereiro,
que dissera o Capitão.
(Pareceu-lhe parvoíce,
e não me delatou primeiro
que não teve ocasião.)

2ª VOZ: Foi porque o Carcereiro
passou logo pro Meirinho,
e o Capitão e o Ouvidor
foram sempre companheiros,
e por fim nesse caminho,
eu chego no Governador.

1ª VOZ: Mas agora que o Meirinho,
o Capitão e mais o preso
são da mesma condição,
já que não têm mais padrinho,
vou fazer com mais desprezo
a minha declaração.

2ª VOZ: A minha denúncia é breve,
não sei nem se houve delito,
nem se foi conspiração.
Mas se o povo não se atreve,
eu vos deixo por escrito
os nomes que adiante vão.

1ª VOZ: Haja ou não haja delito,
esses nomes assinalo,
e faço a minha delação.

2ª VOZ: O que dizem eu repito,
apenas meu nome calo,
por ser um fiel vassalo,
acima de suspeição.

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Entra o último declamador.

ROMANCE DA TESTEMUNHA FALSA

Que importa quanto se diga?
Para livrar-me de algemas,
da sombra do calabouço,
dos escrivães e das penas,
do baraço e do pregão,
a meu pai acusaria.

Como vou pensar nos outros?
Não me aflijo por ninguém.
Que o remorso me persiga!
Suas tenazes secretas
não se comparam à roda,
à brasa, às cordas, aos ferros,
aos repuxões dos cavalos
que, mais do que as Majestades,
ordenarão seus Ministros,
com tanto poder que têm.

Não creio que a alma padeça
tanto quanto o corpo aberto,
com chumbo e enxofre a correrem
pelas chagas, nem consiga
o inferno inventar mais dores
do que os terrenos decretos
que o trono augusto sustêm.

Não sei bem de que se trata:
mas sei como se castiga.
Se querem que fale, falo;
e, mesmo sem ser preciso,
minto, suponho, asseguro…
É só saber que palavras
desejam de mim. Se alguém
padecer, com tanta intriga,
que Deus desmanche os enredos
e o salve das consequências,
se for possível: mas, antes,
salvando-me a mim, também.

Talvez um dia se saibam
as verdades todas, puras.
Mas já serão coisas velhas,
muito do tempo passado…
Que me importa o que se diga
o que se diga, e de quem?

Por escrúpulos futuros,
não vou sofrer desde agora:
Quais são torpes? Quais, honrados?
As mentiras viram lenda.
E não é sempre a pureza
que se faz celebridade…

Há mais prêmios neste mundo
para o Mal que para o Bem.
Direi quanto me ordenarem:
o que soube e o que não soube…
Depois, de joelhos suplico
perdão para os meus pecados,
fecho meus olhos, esqueço..
– cai tudo em sombras, além…

Talvez Deus não me conforme.
Mas o Inferno ainda está longe,
– e a Morte já chega à praça,
já range, na Ouvidoria,
nas letras dos depoimentos,
e em cartas do Reino vem…

Vede como corre a tinta!
Assim correrá meu sangue…
Que os heróis chegam à glória
só depois de degolados.
Antes, recebem apenas
ou compaixão ou desdém.

Direi quanto for preciso,
tudo quanto me inocente…
Que alma tenho? Tenho corpo!
E o medo agarrou-me o peito…
E o medo me envolve e obriga…

– Todo coberto de medo,
juro, minto, afirmo, assino.
Condeno. (Mas estou salvo!)
Para mim, só é verdade
aquilo que me convém.

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No palco, uma cadeira ao centro. No canto, uma mesa com uma cadeira. Entra a Narradora, Bárbara Eliodora.

ATO II

BÁRBARA: Pois muito bem, todos a postos,
vai começar a função!
O primeiro passo é derramar impostos,
e promover as buscas que terminarão
por debelar a luta dos Inconfidentes.
Neste roteiro de traidores e delinquentes
veremos inquéritos forjados,
delatores premiados,
magistrados acusadores, processos
repletos de prisões preventivas
e conduções coercitivas em excesso.
E se tivermos um bom dissídio,
quem sabe até nos apareça
alguém que a cabeça
perca e seja levado ao suicídio.

Para toda esta festa se enfeita
a bela cidade de Vila Rica, que à guisa
de respeito ao Reino de Portugal se mobiliza.

Chia de dia pela rua o carro,
tine de noite o ferro da corrente,
ouve-se o berro do soldado,
e o escarro do tenente.
Uns na cal, outros no barro,
sempre nos grilhões, os vagabundos
nem que estejam moribundos,
trabalham nas galés que em cada canto esbarro.
Não há milho, feijão, não há farinha,
a nova loteria se avizinha,
e o roceiro de medo a tropa arreia.
A igreja se recheia de mendigos,
e se a causa questiono de tais perigos,
toda a gente me diz: – Estão erguendo uma cadeia!

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Entram o Conselheiro e o Juiz Moura.

CENA 1

JUIZ MOURA: Pois muito bem, Sr. Conselheiro, finalmente poderemos julgar os Inconfidentes, importante passo para a regeneração moral deste povo corrupto.
CONSELHEIRO: Oh, Sr. Juiz, sabe que estou até emocionado? E devo acrescentar a grande honra de participar desta força-tarefa chefiada por Vossa Excelência.
JUIZ MOURA: Sim, muito obrigado. Vamos já tomar nossos lugares, sempre bem coordenados: o senhor como acusador, eu como magistrado.

Ambos se dirigem para o canto do palco.

JUIZ MOURA: Declaro aberta a sessão. Com a palavra o Senhor Procurador do Reino.
CONSELHEIRO: Gostaria, inicialmente, Excelentíssimo Juiz, de apresentar um comunicado a esta Corte. Nesta madrugada, faleceu, na cela que ocupava na sede da Milícia Real, por sua comprovada liderança no movimento terrorista da Inconfidência Mineira, o poeta Cláudio Manuel da Costa. Causa da morte: suicídio.
BÁRBARA: Mentira! Cláudio Manuel morreu torturado!
JUIZ MOURA: Quem foi? Quem proferiu semelhante ofensa à Rainha e a esta Corte? Na certa, alguém aqui também deseja suicidar-se…
CONSELHEIRO: São estes patifes, Excelência, estão em toda parte, apesar de nossas ações civilizadoras. Se houvesse eleições, era capaz até que o tal Tiradentes se elegesse governador ou presidente…
JUIZ MOURA: Pois se a Colônia só tem bandidos, ladrões e vagabundos, é natural que eles queiram a mesma praga para governá-los.
CONSELHEIRO: E é por isso que jamais poderemos ter eleições de qualquer espécie!
JUIZ MOURA: Deixe. A hora deles não tarda. Chame o primeiro indivíduo a ser interrogado!
CONSELHEIRO: Que entre o Marquês de Ouro Preto.

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As luzes apagam-se, deixando o Juiz e o Conselheiro às escuras. Apenas se mantém um foco de luz sobre a cadeira no centro do palco. Entra o Marquês de Ouro Preto e lá se senta.

CENA 2

JUIZ MOURA: Digníssimo Sr. Marquês de Ouro Preto, aceitai os cumprimentos desta Corte.
CONSELHEIRO: Sede bem-vindo, nobre amigo, agradecemos a vossa presença.
MARQUÊS: É um prazer conversar convosco, Excelências.
JUIZ MOURA: Sr. Marquês, como sabeis, temos empreendido esforços para desbaratar uma perigosa rede de corruptos terroristas que intentavam proclamar a Independência da Colônia e instituir aqui uma República. Alguns parece até que almejavam libertar os escravos.
MARQUÊS: É verdadeiramente assustador. Por felicidade, vós estais à frente desta nobre força-tarefa.
JUIZ MOURA: Entendei, Excelentíssimo Sr. Marquês, que, devido às formalidades de praxe, faz-me necessário inquirir-vos uma questiúncula sabidamente falsa, sem a qual, entretanto, eu poderia incorrer em um vício processual.
MARQUÊS: Por favor, Excelentíssimo Sr. Juiz.
JUIZ MOURA: Certos delatores, não mais que uns quinze ou vinte, entenderam por bem combinar-se entre si e dizer que vós participastes de uma outra dessas reuniões de Inconfidentes, não mais do que dez ou dozes vezes. Enfim, algo desimportante, mas que me vejo obrigado a vos inquirir …
MARQUÊS: Oh, Excelência, sabeis que, com a idade, os sentidos nos falecem, para não falar da memória… Já faz um bom par de anos que estou praticamente sem audição. Fui, de fato, uma ou outra vez, para atender compromissos de cordialidade, a essas casas em que, agora se sabe, desfilavam estes delinquentes. Mas, devido à minha surdez, jamais ouvi patavinas do que falavam. Sequer vi as pessoas, porque também os olhos na verdade me falham…
JUIZ MOURA: Oh, claro, é perfeitamente compreensível. Eu mesmo penso às vezes que os sentidos me claudicam. Está tudo explicado. Vou já intimar esses torpes delatores a excluir qualquer menção a vós, sob pena de que percam os benefícios. Está de acordo, Sr. Conselheiro Procurador?
CONSELHEIRO: Indiscutivelmente de acordo, Excelentíssimo Juiz. Farei inclusive constar uma nota de agradecimento à lealdade do Sr. Marquês.
MARQUÊS: Muito obrigado, então, Excelências. Já vou indo, que tenho negócios a ver. A propósito, podeis estar certos de que entregarei a prometida contribuição, em magotes de ouro, para a Academia de Letras Jurídicas fundada por Vossas Excelências. Uma grande iniciativa, que muito ilustrará esta pobre Colônia.
JUIZ MOURA: Oh, muito bom, Excelentíssimo Marquês!
CONSELHEIRO: Esta academia, de fato, ilustrará enormemente a Colônia. Vossa contribuição é assaz bem-vinda.
MARQUÊS: Passar bem, senhores!
JUIZ MOURA: Certamente passaremos, Sr. Marquês! Conselheiro, mande entrar o próximo indivíduo.
CONSELHEIRO: Previno-vos que o próximo interrogado é um facínora, muambeiro, traficante de ouro e de escravos da pior espécie, embora, apropriadamente, um de nossos principais informantes, de nome Alberico Sefa, vulgo Bico Doce.
JUIZ MOURA: Pois que entre este Bico de Sefa.

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Entra Alberico Bico Doce e com o Conselheiro e o Juiz Moura.

CENA 3

CANÇÃO DO EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ

Ilustríssima Excelência
sei que a vossa sapiência
por aqui não tem igual.
Peço, pois, vossa clemência,
vim provar minha inocência
neste vosso tribunal.

Se eu roubei, foi muito pouco,
num momento de pipoco,
que eu garanto já passou.
Quem não quer não faz reboco,
acho até que tem um troco
que eu guardei para o senhor.

Mas onde é que já se viu,
seu malandro traiçoeiro!
Eu não caio em teu ardil,
eu fiz curso no estrangeiro,
pra salvar este Brasil
da ralé dos brasileiros!
Seu juiz, seja clemente,
eu não sou inconfidente,
nunca nem ouvi falar.
Mas se assim se faz preciso,
asseguro em bom juízo
posso mesmo delatar.

Um ladino muito astuto
declarou que sou corrupto
pra escapar da sua prisão.
Se o senhor ficar contente,
eu delato o Tiradentes,
inimigo da nação.

Que bom que você se abriu,
delatando este encrenqueiro.
Pra salvar o meu Brasil,
eu fiz curso no estrangeiro.
Vá pra puta que pariu
a ralé dos brasileiros!

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Toda a plateia vaia. Alberico e o Juiz Moura fazem gestos contra a plateia. o Juiz Moura retoma seu lugar na penumbra, e Alberico Bico Doce senta-se na cadeira ao centro do palco.

CONSELHEIRO: Em nome do Rei e na presença de Deus, Alberico Bico Doce, jura falar a verdade, convenientemente ao Reino e a este Juízo?
ALBERICO: Se bem entendi, juro que a verdade será aquela que vocês disserem que seja.
CONSELHEIRO: Sr. Bico Doce, você tomou conhecimento destes movimentos revoltosos em nossa Vila Rica? Tomou parte de algum dos encontros?
ALBERICO: Olhe, seu Doutor, lhe digo que seja difícil qualquer coisa de monta que se passe por esta Vila e suas lavras onde eu não tenha metido o meu bico.
CONSELHEIRO: Poderia, então, caracterizar esse grupo dos Inconfidentes?
ALBERICO: Bem, eu penso que entre eles estavam dois tipos, sendo que o primeiro tipo preponderava sobre o segundo. O primeiro era dos ricos, uns larápios, cuja especialização era roubar o Reino das Senhorias, bajulando, porentemente, os mesmos que eles roubavam, sendo que sua revolta nada mais era que roubar ainda mais, quer dizer, não pagar nenhum imposto e ficar com todo o ouro.
JUIZ MOURA: Pois é o que presumimos. Corruptos, interessados em furtar e foder o Reino! Pois decline, Bico de Sefa, quem era o líder desses malfeitores?
ALBERICO: Pois era justamente esse que acabou de sair, o tal do Marquês de Ouro Preto.
CONSELHEIRO: Muita calma nesta hora, Sr. Docinho. Devo lembrar que está sob juramento e bem jurado. Já sabe que o Manual do Santo Ofício foi cabalmente ativado para lidarmos com denúncias infundadas, como esta que acabou de fazer.
ALBERICO: Mas não era o Senhor mesmo, Senhoria Conselheiro, que falou pra dizer que o líder era o Marquês?
JUIZ MOURA: Isso foi antes que ficasse claro, mediante as mais coerentes explicações, dadas agora mesmo pelo Sr. Marquês. A partir deste momento, qualquer um que o acuse incorrerá em falso testemunho.
ALBERICO: Ah, bem, quer dizer então que ele pagou o que a Senhoria lhe pedia?
CONSELHEIRO: Já lhe pedi calma e atenção. O Sr. Marquês se constitui um de nossos mais generosos colaboradores. Mas ele nada paga a mim ou ao Sr. Juiz em caráter pessoal, apenas faz contribuições à nossa Academia de Justiça.
ALBERICO: Muito bom, só não percam da lembrança que eu também estou nesta uma tal Academia do Ouro. Sou sócio-fundador da premiação colaborada.
CONSELHEIRO: Lembraremos, desde que você também esteja sempre com a memória em bom estado. Prossiga. Falava dos dois grupos, o dos ricos e o outro?
ALBERICO: O outro era uns pobre-coitados, uns que viviam cheios de ideais, falavam até em desobrigar os africanos, em seguir a América, enfim, esses não valem nada.
JUIZ MOURA: E quem eram os chefes?
ALBERICO: Um era este poeta aí, que vocês surraram ontem à noite até matar.
CONSELHEIRO: Não seja idiota, tratou-se de um suicídio.
ALBERICO: Já se viu suicidar-se com os cadarços do calção, amarrados numa prateleira… Pra não falar dos gritos que deu pra ouvir até no Largo da Bica… Mas, enfim, trato e trato, e o meu não sai do prato.
JUIZ MOURA: Quem mais era chefe? Acaso o chefe maior não era esse tal Tiradentes, esse Joaquim José Ignácio da Silva?
ALBERICO: Ah, não, esse aí não vale nada mesmo. Não tem um tostão. Melhor a gente tratar de algum outro rico, como o Conde da Diamantina, que tem um monte de ouro e é bem estúpido, coitado, parecia até fazer parte dos pobres. Agora, esse Tiradentes aí só faz mesmo o dentismo. Não tem eira, nem beira, nem angu na cuscuzeira. A não ser que se queira pra suicídio, tal qual o poeta…
CONSELHEIRO: Sr. Alberico, devo lembrar-lhe novamente o Santo Ofício…
ALBERICO: Ah, quer dizer que é pra suicídio? Por que não avisa logo? Então, eu mesmo, com um olho no gato e outro no torresmo, vos contrato que o tal do Tiradentes estava lá em todas as revoltas e era mesmo o mais revoltado de todos.
CONSELHEIRO: Ótimo, muito bom, já é o suficiente. Agora, quanto ao Conde da Diamantina…
ALBERICO: Ah, bom, achei até que as Senhorias tinham esquecido a tanajura… Ele também, estava lá, no meio da safadice, se lambuzando todo na conjura.
CONSELHEIRO: Muito bem, excelente, vejo que o senhor dará, de fato, um perfeito acadêmico. Por mim, Excelentíssimo Juiz, é o que basta.
JUIZ MOURA: Está dispensado, Sr. Bico de Sefa, saia logo.
ALBERICO: Eu saio, mas não se esquecedes: eu dedurei e não fiz desdouro; o meu eu quero em magotes de ouro! Quem chupa bunda de abelha achando que é doce, acaba sempre levando ferroada.

Alberico levanta-se e sai.

JUIZ MOURA: E agora, Sr. Conselheiro?
CONSELHEIRO: Nosso próximo interrogado é o Conde da Diamantina.

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Entra o Conde da Diamantina e senta-se na cadeira ao centro do palco.

CENA 4

CONSELHEIRO: Senhor Conde, dispensaremos as formalidades. Aqui todos nos conhecemos. A pergunta é simples: vós ides colaborar ou insistireis em propalar mentiras?
CONDE: Que mentiras, Senhor Conselheiro? Busquei colaborar, assinei termo de colaborador, disse toda a verdade que testemunhei.
CONSELHEIRO: Insistis, portanto, que não vistes a esse Tiradentes tomando de assalto o ouro de Sua Majestade? Recebendo propina dos contrabandistas? Não sabeis que ele recebeu casas, escravos e joias devido a seu comportamento corrupto.
CONDE: Nada disso sei ou presenciei. Com este alferes encontrei-me raras vezes. Em todas, pareceu-me um homem direito…
CONSELHEIRO: Não estava ele porventura envolvido com a Inconfidência?
CONDE: Ora, no movimento contra a derrama, vós sabeis, tomaram parte quase todos os homens livres de Vila Rica e mesmo certos escravos.
JUIZ MOURA: Cessai com tantas mentiras! Esses Inconfidentes não passavam de uma meia dúzia espúria, que será condenada à forca. Temo, entretanto, que também será este o destino do Senhor Conde…
CONSELHEIRO: Lembrai-vos, além disso, do Manual do Santo Ofício e seus estimuladores métodos de interrogatório…
JUIZ MOURA: Deveis inicialmente tirar toda a roupa, ficar nu e submeter-vos a uma revista íntima, que não nada de vosso corpo deixará de fora…
CONSELHEIRO: Sereis confinado em nossa cela especial, que não tem janelas, onde não entra a luz do sol… Um cômodo ao lado do forno, com calor e fumaça…
JUIZ MOURA: Perdereis vosso cargo, sereis exposto à pública execração…
CONSELHEIRO: Tereis vossos bens confiscados, não podereis mais retornar a Vila Rica…
JUIZ MOURA: E alguns homens, nossos conhecidos, terão de aplicar-vos certas técnicas preparatórias para o bom sucesso do interrogatório…
CONSELHEIRO: Técnicas que certamente já presenciastes aplicada a malfeitores vulgares ou escravos fujões…
JUIZ MOURA: E, por fim, meu nobre Conde, lembrai-vos de que tais métodos podem estender-se aos familiares do interrogado, inclusive às mulheres e crianças, sempre no intuito de avivar-lhe a memória e dar-lhe maior loquacidade…
CONSELHEIRO: Pois quem chupa bunda de abelha achando que é doce, acaba levando ferroada…
CONDE: Oh, por favor, por Deus, Vossas Excelências não chegariam a esse ponto…
CONSELHEIRO: Como sois tolo, senhor Conde! Deveis ter comido bacalhau em excesso…
CONDE: Minha família não tem qualquer envolvimento… Ela, para mim, é sagrada.
JUIZ MOURA: Pensai bem, meu nobre Conde. Basta um só nome, não mais que dez letras…
CONDE: Vossas Excelências não fariam semelhante crueldade… Ou fariam?
JUIZ MOURA: Para proteger a Colônia contra o terrorismo… O nobre Conde não sabe o que podemos fazer… Mulher, filhos, filhas… Nossos agentes do Santo Ofício…
CONDE: Seria a maior das vilanias…
CONSELHEIRO: Calma, meu amigo Conde, não ides perder o juízo. Vamos repetir: quem era o chefe dos ladrões, que conspirava contra o Reino, ameaçava os homens bons desta Colônia, contrabandeava ouro, era sórdido, cruel, violento?
JUIZ MOURA: Era Ti … Ti … Tira …
CONDE: Era Ti … ra … den … tes …
CONSELHEIRO: Ora, bravo! Bravo! Enfim, a lucidez e a verdade!
JUIZ MOURA: Perfeito, Senhor Conde, excelente. Agora, falta apenas um pequeno pormenor, sobre o qual, aliás, já nos manifestamos. Aquela contribuição, lembrai-vos, a piedosa doação para a nossa recém-criada Academia das Luzes…
CONDE: Sim, claro, o ouro… Como poderia esquecer-me?
JUIZ MOURA: Ótimo, parabéns! Sereis imediatamente solto, sem qualquer demora. E com a mesma presteza esperamos a contribuição. Compreendido?
CONDE: Tão claro como o sol de todo dia. Ou como as Luzes de vossa Academia. Por Deus, como é grande a minha vergonha e a minha covardia…

O Conde levanta-se e sai.

JUIZ MOURA: Quem será o próximo indivíduo?
CONSELHEIRO: Trata-se de um indivíduo feminino, Excelência.
JUIZ MOURA: Ora, pois, e como se chama?
CONSELHEIRO: Teremos de ver. É conhecida apenas como Poeta.
JUIZ MOURA: Que entre, então, essa Poeta.

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Entra uma mulher com roupas atuais, não caracterizada como as demais personagens.

CENA 5

CONSELHEIRO: Qual o seu nome, Poeta?
CECÍLIA: Cecilia, Cecília Meireles.
CONSELHEIRO: Você é parente do Doutor Henrique Meireles?
CECÍLIA: Não, por Deus, julgo que não, era só o que me faltava…
CONSELHEIRO: Qual sua profissão?
CECÍLIA: Sou poeta.
CONSELHEIRO: Lá isso é uma profissão? Produz algo? Como se pode viver disso? Indique, por favor, uma ocupação mais honesta.
CECÍLIA: Esta é uma das ocupações mais honestas que conheço. Mas estamos indo muito rápido. A pergunta inicial parece-me outra: por que estou aqui, do que exatamente sou acusada?
JUIZ MOURA: Não lhe compete, senhora, fazer perguntas, mas fornecer respostas. De qualquer modo, vamos esclarecer. A senhora não é acusada de nada, nem está sendo julgada. Trata-se apenas de uma tomada preliminar de depoimento.
CECÍLIA: Por que, então, vim aqui mediante condução coercitiva? Não poderiam simplesmente ter-me intimado para depor?
JUIZ MOURA: Isso, novamente, não lhe diz respeito. Se respondo, o faço quase por caridade. A condução coercitiva é um recurso previsto pela legislação, podendo ser usado quando a Corte o julgar pertinente.
CECÍLIA: Para humilhar-me, sem dúvida, ou prender-me sem aviso.
JUIZ MOURA: Mais propriamente, para que não combine o que vai falar com os demais acusados. Nada há de abusivo. É a lei. E é até melhor que a prisão preventiva.
CECÍLIA: Eu poderei, ao menos, manter-me em silêncio?
JUIZ MOURA: Isso será imediatamente tomado como uma confissão de culpa, o que abreviará em muito a conclusão de sua sentença.
CONSELHEIRO: Retomemos, entretanto, o ponto: qual sua profissão?
CECÍLIA: Já respondi a esta pergunta, embora a resposta, aparentemente, não tenha agradado a Vossas Excelências…
CONSELHEIRO: A senhora é a secreta autora de um panfleto anônimo, publicado em versos que ironizam o governo desta Colônia e que se intitula Cartas chilenas?
CECÍLIA: Evidente que não. Esta obra foi escrita mais de 120 anos antes do meu nascimento.
CONSELHEIRO: Saberia indicar quem é, então, o autor desta torpe versalhada?
CECÍLIA: Este tema é polêmico, julguei que Vossas Excelências o soubessem…
JUIZ MOURA: Previno a senhora quanto a essas respostas evasivas… Não sei se sabe, mas julgo conveniente informá-la de que o Manual do Santo Ofício foi especialmente reabilitado para esta série de julgamentos contra os Inconfidentes.
CECÍLIA: Eu havia compreendido, pelo que me disseram os senhores, que não estivesse sendo julgada…
CONSELHEIRO: A senhora é autora do poema épico Vila Rica?
CECÍLIA: O autor deste belíssimo texto acaba de aparecer morto nas celas sob custódia de Vossas Excelências: é o poeta Cláudio Manuel da Costa.
CONSELHEIRO: Se a senhora é poeta, de que poemas então é a autora?
CECÍLIA: Com amor à causa da liberdade, com admiração pelo passado de nossa luta pela independência, tive a alegria de escrever o Romanceiro da Inconfidência.
JUIZ MOURA: Trata-se de uma obra infame, repugnante e subversiva!
CONSELHEIRO: Uma versalhada odienta, que instiga a rebeldia popular!
CECÍLIA: Fico feliz de constatar que Vossas Excelências deram-se ao esforço de ler os romances…
CONSELHEIRO: Em absoluto, por quem nos toma? Colhemos tais opiniões de nossos delatores e censores.
JUIZ MOURA: E com base nisso já tomamos as medidas cabíveis. Sua obra está confiscada e não poderá mais ter acesso aos fundos públicos de cultura. Recebemos milhares de críticas e não tivemos outra opção.
CECÍLIA: Críticas, de quem?
CONSELHEIRO: Dos movimentos que prezam pela verdadeira liberdade de o Brasil tornar-se uma nação livre e colonial.
CECÍLIA: A luta do povo brasileiro contra a ditadura resultou no fim da censura. A liberdade de expressão é uma cláusula constitucional pétrea.
CONSELHEIRO: Não seja tola. A ditadura já aí está. Dela nos aproximamos progressivamente, como numa tábua de logaritmos.
JUIZ MOURA: Acabamos de ouvir três de seus romances, em que fica claro seu escárnio contra nossos colaboradores premiados, mormente o Sr. Joaquim Silvério. Fala em testemunhas falsas, que os colaboradores recebem pagamentos, que a maioria conta por ouvir dizer… Infâmias, enfim, que justificam a obstrução da obra.
CONSELHEIRO: Lembre-se, de toda forma, que mesmo a Constituição que a senhora cita não traz a liberdade de expressão como um valor absoluto, mas cerceado por outros princípios, como o respeito aos direitos humanos.
CECÍLIA: Disto os senhores realmente entendem, de direitos humanos…
CONSELHEIRO: Outro moderador é a apologia ao crime. Seus textos instigam não apenas a subversão, mas também a corrupção e a pedofilia.
CECÍLIA: E os senhores dizem tudo isso muito bem acompanhados, na parceria de gente como o Conde Cunha, o Comendador Vieira Lima, os Duques Moreira e Franco…
JUIZ MOURA: Chega, cale-se! A senhora está previamente condenada ao silêncio obsequioso. Não poderá publicar e será processada. Guardas, levem-na imediatamente!

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Entram dois guardas. A Poeta reage com bastante veemência, buscando a todo custo livrar-se. Com grande violência, eles, entretanto, a imobilizam, a amordaçam e a levam arrastada.

JUIZ MOURA: Cada qual que nos aparece… Não fosse nosso patriotismo e o compromisso com a evolução moral deste povinho… Quem vem agora? Que entre logo.
CONSELHEIRO: Sinto informar-vos, Meritíssimo, mas trata-se de um outro poeta…
JUIZ MOURA: Mais um? Por isso que o país anda nesta merda… Pois só tem vagabundo…
CONSELHEIRO: Chama-se José de Alvarenga Peixoto. Previno-vos, além disso, que, pelo grande sentimento de culpa, ele se encontra à beira da demência, se não que já totalmente louco.
JUIZ MOURA: Pois que entre. Vejamos se manterá essa loucura diante de nosso tribunal.

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Entra o Poeta Alvarenga Peixoto. Parece, de fato, em transe. Entra declamando.

CENA 6

ALVARENGA: Bárbaros filhos destas brenhas duras,
Nunca mais recordeis os males vossos;
Revolvam-se no horror das sepulturas
Dos primeiros avós os frios ossos:
CONSELHEIRO: Cala-te, idiota, comporta-te diante do Sr. Juiz!
JUIZ MOURA: Se esperas ser dispensado do depoimento, Sr. Alvarenga, afetando seres um desmiolado, previno-te que isto não tem acolhida no Manual do Santo Ofício.
ALVARENGA: Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.

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O Juiz e o Conselheiro saem do canto escuro e alcançam a boca de cena, onde está Alvarenga Peixoto. O Juiz Moura toma-llhe a cabeça pela mão e a levanta com rispidez.

JUIZ MOURA: Seu miserável, abjeto, crês que podes impunemente afrontar este Juízo?
ALVARENGA: Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera?
CONSELHEIRO: É um cretino, celerado… Ficou ainda pior após o suicídio de seu amigo Cláudio…
JUZ MOURA: Queres o mesmo destino? O suicídio combina bem com a alma dos poetas…
CONSELHEIRO: Guardas! Agarrem imediatamente este condenado!

Entram Guardas, que agarram e imobilizam Alvarenga Peixoto.

JUIZ MOURA: Confessa enquanto tens alguma chance de misericórdia. Como foi teu envolvimento com a Inconfidência? Quem tomou partido nesta intriga?

Alvarenga Peixoto, imobilizado, permanece em silêncio.

CONSELHEIRO: Sr. Alvarenga, entenda a nossa posição… Estamos aqui para investigar um fato bárbaro, que ameaça o Reino. Por que não colaboras? Sabemos que és um homem culto, decente. Afinal, como foste meter-te com esses brasileiros?
ALVARENGA: Rômulo porventura foi romano?
Não era, o grande Henrique, lusitano,
Quem deu princípio à glória portuguesa?
JUIZ MOURA: Ora, poesias… Na vida real, são todos uns brutos incivilizados…
ALVARENGA: Isto, que Europa barbaria chama,
Quão diferente é para quem ama
Os ternos laços de seu pátrio berço!
JUIZ MOURA: Um povo corrupto, lascivo, que sequer é branco…
ALVARENGA: Estes homens de vários acidentes,
Pardos e pretos, tintos e tostados,
São os escravos duros e valentes,
Aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
Rasgam as serras, tendo sempre armados
Da pesada alavanca e duro malho
Os fortes braços feitos ao trabalho.
CONSELHEIRO: Encontra-se entorpecido pela Revolução… Não ouve a voz do bom-senso.
JUIZ MOURA: Será que nem a rogos físicos te dobras, sequer a concreta perspectiva da morte?
ALVARENGA: Eu não lastimo o próximo perigo,
Que é ventura também achar a morte,
Quando a vida só serve de castigo.
CONSELHEIRO: Só rindo, mesmo, mas, a bem da verdade, não me espanta. Este foi sempre um homem, como dizer, excêntrico, heterodoxo… Consta, inclusive, que por anos manteve uma relação amorosa não oficializada pelo sagrado matrimônio…
JUIZ MOURA: É fato, Sr. Conselheiro, todos o sabem.
CONSELHEIRO: Desta relação espúria nasceu mesmo uma menina, uma tal Maria Ifigênia.
JUIZ MOURA: A mãe da criança, amásia do Sr. Alvarenga, decerto também não vale nada.
CONSELHEIRO: Vós sois polido, Meritíssimo. Eu diria que não é mais que uma prostituta.
JUIZ MOURA: Uma vaca, uma vadia.
CONSELHEIRO: Uma completa vagabunda.
JUIZ MOURA: E, aliás, como se chama mesmo este demônio em forma de mulher?
CONSELHEIRO: Parece-me que se chama Bárbara.
JUIZ MOURA: Um nome muito apropriado por sinal…
CONSELHEIRO: Bárbara Eliodora. Não é isso mesmo, Sr. Poeta?
ALVARENGA: Bárbara? Bárbara! Bárbara…
CONSELHEIRO: Creio, Sr. Juiz, que só nos resta chamar a Juízo essa meretriz, essa Bárbara. Por certo, suas carnes serão mais tenras que a deste louco.
ALVARENGA: Bárbara! Bárbara! Bárbara!

As luzes focam Alvarenga Peixoto. No canto, igualmente iluminada, aparece Bárbara Eliodora.

BÁRBARA: José! José! Tu me chamaste? Aqui estou. Sou eu, Bárbara.
ALVARENGA: Bárbara bela,
Do Norte estrela,
Que o meu destino
Sabes guiar,
De ti ausente,
Triste somente
As horas passo
A suspirar.
Isto é castigo
que Amor me dá?
BÁRBARA: Eu me orgulho de ti, José. Orgulho-me de nossa militância, da causa que com o risco de nossa própria vida defendemos.
ALVARENGA: Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar;
Mas orgulhosa
Sorte invejosa
Desta fortuna
Me quer privar.
Isto é castigo
que Amor me dá.
BÁRBARA: José, estão te testando, humilhando, coagindo. Creem que vamos enlouquecer.
ALVARENGA: Ah, quem já bem depressa vira
Acabar este enredo, este sonho, esta quimera,
Que passa por verdade e é mentira!
BÁRBARA: Temos de ser nos manter sãos e verdadeiros, José. Não trair a nossa verdade. A sanidade e a verdade são a nossa vitória. Tu poderás resistir, José?
ALVARENGA: Sou vassalo, sou leal:
como tal, fiel, constante,
Sirvo à glória da imperante,
Sirvo à grandeza real,
Ao famoso vice-rei,
Ao ilustre general,
Sempre fiel a Portugal,
E às bandeiras que jurei.
BÁRBARA: Que é isso, José? Fraquejas? Desejas ceder, tornar-te um traidor? Por quê? Temes a dor, a prisão, o exílio, a morte?
ALVARENGA: A prisão não lastimo – outra vez digo –
Lastimo os caros filhos, a consorte,
A perda irreparável de um amigo.
BÁRBARA: Que horror, José! Tu delator? Por temor pessoal ou por temeres o mal à tua família? Nunca! A denúncia nunca. Prefiro a morte, a viuvez, os filhos órfãos, mas quero o teu nome limpo e honrado. Quero ver-te como herói e não traidor.
ALVARENGA: Se filhos, se consorte não tivera,
Um momento de vida eu não quisera…
BÁRBARA: Não, José! Caiam sobre nós todos os castigos por haveremos trabalhado pela liberdade da Pátria. Arruínem-se nossa casa e nossa família, mas não comprometas nunca teus companheiros que se bateram, como tu, por uma causa justa e santa. Por Deus, José, poupa a tua família a nódoa da delação!

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A luz sobre Bárbara Eliodora se apaga. Voltam as luzes sobre o Juiz Moura e o Conselheiro.

CONSELHEIRO: Demente, não vais falar? Teremos de torturar-lhe a esposa e a filha? Quem sabe a essas prostitutas não agrade se lambuzarem como alguns dos nossos guardas.
JUIZ MOURA: Parece sonhar. Acorda, desgraçado dos infernos!
ALVARENGA: Que sonho, que sonho eu tive nesta
Feliz, ditosa, sossegada sesta!
Eu vi o Pão d’Açúcar levantar-se,
E no meio das ondas transformar-se
Na figura do índio mais gentil,
Representando só todo o Brasil:
Que o índio valeroso, ativo e forte,
Não manda seta em que não mande a morte.
CONSELHEIRO: Insano, terrorista de merda!
JUIZ MOURA: Não tarda por esperar. Sentirá quanto custa desafiar a Justiça do Reino!
ALVARENGA: A quem sabe morrer, a morte
Nem é morte nem é mal.
JUIZ MOURA: Levem-no, Guardas, para fazer companhia a seu amigo Cláudio Manuel!
ALVARENGA: Feliz governo, queira o Céu sagrado
Que eu chegue a ver esse ditoso dia!
JUIZ MOURA: Que horror, Sr. Conselheiro, ver nos olhos a loucura dos terroristas.
CONSELHEIRO: De fato, Dr. Moura. No entanto nos aproximamos do momento crucial.
JUIZ MOURA: Sim, é um alento. Eu já mal podia conter-me.
CONSELHEIRO: Que entre o réu-mor, o heresiarca, o chefe dos insurgentes, o Alferes Tiradentes!

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CENA 7

SAMBA-ENREDO DO IMPÉRIO SERRANO 1969 – HERÓIS DA LIBERDADE
(Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira)

Ô ô ô ô
Liberdade, Senhor!
Passava a noite, vinha dia,
o sangue do negro corria
dia a dia.
De lamento em lamento,
de agonia em agonia,
ele exigia
o fim da tirania.
Lá em Vila Rica,
junto ao Largo da Bica,
local da opressão,
todo o povo promovia,
mesmo que tardia,
a sua redenção.
Com flores e alegria,
veio a abolição,
e a Independência
laureando o seu brasão.
Ao longe, soldados e tambores,
alunos e professores,
acompanhados de clarins
cantavam assim:
já raiou a liberdade,
a liberdade já raiou!
Esta brisa
que a juventude afaga,
esta chama
que o ódio não apaga pelo Universo
é a evolução
em sua legítima razão.
Samba, ô, samba,
tem a sua primazia
de gozar da felicidade.
Samba, meu samba,
presta esta homenagem
aos Heróis da Liberdade!
Ô ô ô ô
Liberdade, Senhor!

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Entra Tiradentes acompanhado de Bárbara Eliodora, sua advogada. Ele senta-se. Ela permanecerá em pé, movimentando-se próxima à cadeira no centro do palco.

JUIZ MOURA: Seu nome?
TIRADENTES: Joaquim José Ignácio da Silva.
CONSELHEIRO: Vejo que te fazes acompanhar de um advogado… Mal começo… Certamente tens parte na coisa, do contrário te garantias com a palavra pessoal. Temes, acaso, traíres a ti próprio e por isso necessitas de orientação para falar?
BÁRBARA: A presença de um advogado – ou advogada – é um direito constitucional previsto desde a Antiguidade. Não vejo por que Vossas Excelências veem nisso qualquer sinal de culpa do meu cliente.
CONSELHEIRO: É verdade, Senhora, que o advogado é uma invenção antiga. Mas também é verdade que Sócrates, que era inocente, podendo valer-se de um advogado, defendeu-se, contudo, solitariamente. E Nosso Senhor Jesus Cristo também não teve advogado perante Pilatos ou Caifás.
BÁRBARA: E ambos foram injustamente condenados à morte… Noto, porém, que estamos plenamente de acordo quando vós vos pondes em conformidade com Pilatos ou com os detratores de Sócrates.
JUIZ MOURA: Silêncio! Caluda! Não permitiremos este tipo de intervenção, que, além do mais, só nos faz perder tempo com retóricas. Além disso, quem é a senhora, com que autoridade se apresenta diante desta Corte?
CONSELHEIRO: A senhora parece-me familiar… Não é…
BÁRBARA: Sou Bárbara Eliodora, advogada do Sr. Joaquim José Ignácio da Silva.
CONSELHEIRO: Eu logo vi! A amásia daquele terrorista desmiolado, o tal Alvarenga Peixoto!
JUIZ MOURA: Então és aquela que teve filho e viveu três anos sem os laços do matrimônio, e ainda assim estaria, não fosse a intervenção de Sua Eminência, o Bispo.
BÁRBARA: Pois tenho muito orgulho de minha relação com José Alvarenga Peixoto e muito amor por nossos quatro filhos, a começar da primeira, Maria Ifigênia.
CONSELHEIRO: É da natureza da serpente pecadora orgulhar-se de seu pecado.
JUIZ MOURA: Com que atributos apresenta-se a Pecadora ante este tribunal como advogada? Como julgas ter obtido o conhecimentos das leis?
CONSELHEIRO: Quem sabe na alcova de algum advogado, após a prisão de seu amásio…
BÁRBARA: não me tome pelas putas dos puteiros dos Procuradores do Reino!
CONSELHEIRO: Sua víbora meretriz! Sou cristão, defendo os dez mandamentos! Já lhe mostro…
JUIZ MOURA: Silêncio, sua vadia! Sem ofensas no tribunal!
BÁRBARA: Aprendi leis defendendo-me das absurdas acusações de Vossas Excelências. Confiscaram os bens de meu marido, e eu tenho lutado nos tribunais pelos meus direitos à metade destes bens.
JUIZ MOURA: Chega! Já gastamos tempo demais com esse falatório! Se queres defendê-lo, tanto pior para ele. Retomemos o interrogatório. Senhor José Ignácio, tu tomaste parte da revolta dos Inconfidentes? Previno-te de que és, de longe, o nome mais citado em todos os depoimentos de todos os colaboradores.
BÁRBARA: Uma questão de ordem, Excelência. Desejo apresentar dois ofícios de contestação a este juízo.
CONSELHEIRO: Isto é um absurdo, Meritíssimo. Uma ação procrastinatória, uma torpe chicana!
JUIZ MOURA: Do que se trata? Dize, mas sê breve.
BÁRBARA: A defesa questiona a vinda de um juiz-de-fora para conduzir este processo. Vila Rica conta com muitos magistrados. Por que arcar com esse custo, quando se luta contra a corrupção e o desperdício? Fere-se, com isso, o princípio do juiz natural, um dos fundamentos do Direito, e criamos um tribunal de exceção.
CONSELHEIRO: Como disse, Meritíssimo, uma afirmação ridícula!
JUIZ MOURA: De fato, Conselheiro. A objeção está negada!
BÁRBARA: Em que termos, Excelência?
JUIZ MOURA: Nos termos da minha negativa. A lei me faculta este direito e assim o faço. Não há nada demais em trazer um juiz-de-fora. O importante é investigar os fatos e condenar os réus. Não é o juiz que está em julgamento. Qual a outra objeção?
BÁRBARA: Mesmo admitindo que um juiz-de-fora possa jugar esta causa, há que notar que Vossa Excelência, Doutor Moura, revela-se francamente predisposto a condenar Tiradentes. Comporta-se como verdadeiro juiz-acusador, atuando em parceria com o Ministério Real e não com a necessária imparcialidade.
CONSELHEIRO: É o cúmulo da impertinência! A defesa ofende a honra do magistrado!
JUIZ MOURA: A defesa pretende mesmo fazer interpelações todo o tempo? Boa tática esta… Objeção negada, nos mesmos termos da negativa anterior.
BÁRBARA: Tiradentes, como todos os envolvidos neste tribunal de exceção, encontra-se, além disso, submetido a uma alongada e injustificada prisão preventiva, que se arrasta por mais de três anos, sem que ele tenha qualquer culpa firmada.
CONSELHEIRO: Era só o que nos restava, mesmo! Soltar os réus e as testemunhas, facilitando fugas e inviabilizando toda a investigação.
JUIZ MOURA: Chega destas objeções repetidas que visam apenas tumultuar o depoimento! Já disse que estão todas negadas! Os questionamentos sobre a imparcialidade deste julgador constituem mero diversionismo e, embora sejam compreensíveis como estratégia da defesa, não deixam de ser lamentáveis, já que não encontram qualquer base fática nem se escoram em argumentos minimamente consistentes. Voltemos ao réu, cuja condenação, afinal, é o que importa. Senhor José Ignácio, podes confirmar, afinal, se és o incendiário revoltoso apontado por unanimidade nos confiáveis depoimentos colhidos no curso das investigações?
TIRADENTES: Veja, Doutor, vocês têm se valido apenas de alcaguetes…
CONSELHEIRO: Protesto, Excelência. O réu deve dirigir-nos o indispensável tratamento formal.
JUIZ MOURA: De fato. Não pode nos tratar como queira, mas conforme as normas.
TIRADENTES: E qual é este tratamento?
JUIZ MOURA: De Excelentíssimo Senhor Doutor, por exemplo. Ou Meritíssimo, Magnânimo, Magnificência, Ilustríssimo. Ou, ainda, pelo nome completo dos cargos que ocupamos. Eu sou o Doutor Ordenado Inquisidor, ou seja, o DOI.
CONSELHEIRO: E eu, o Conselheiro Ordenado Defensor Inquisitorial, ou seja, o CODI.
TIRADENTES: Vós sois o DOI e o CODI…
CONSELHEIRO: Isto, rapaz, asseguro-te que seja a mais simples verdade…
JUIZ MOURA: Por Deus que isto já me irrita! Pela terceira e última vez, caso não queiras sair daqui já para a forca. És ou não um sórdido Inconfidente?
TIRADENTES: Não compreendo, Excelentíssimos e Magníficos Senhores Representantes da Corte Real Portuguesa, o que entendeis por revolta ou subversão. O que vos digo é que que quem pensa que o povo está contente, está enganado. Este povo só vai parar quando houver um governo que o represente de verdade. Na Colônia, como em qualquer outra parte, o povo quer ter o direito de ser respeitado e viver com dignidade. Tenho orgulho de ter empreendido ações, embora pequenas, que ajudaram o povo a erguer a cabeça.
CONSELHEIRO: Por mim, Excelência, não há mais o que perguntar. É daqui para a forca.
JUIZ MOURA: Pondere, Conselheiro, o carrasco precisa afiar sua lâmina, e o patíbulo demora um pouco a ser erguido… O senhor tem alguma alcunha? Qual sua profissão?
TIRADENTES: Todos me conhecem por Tiradentes, porque exerço, em geral graciosamente, o ofício de dentista. Sou militar, com o posto de alferes das tropas reais. Já fui minerador e comerciante.
JUIZ MOURA: Bom que lembrasse estas duas últimas ocupações, porque também sobre ti recaem acusações de corrupção, de desvio do ouro que por lei e direito divino pertence à Rainha Dona Maria, enfim, és acusado de enriquecimento ilícito, fruto de tua atividade como chefe de organização criminosa.
TIRADENTES: Rico? Então não me contaram nada e falta me darem os bens a que tenho direito… Não, Excelentíssimas Excelências, não sou rico. De posses, tenho-as muito poucas.
JUIZ MOURA: Não é o que consta nos autos. És acusado de receber vantagens para permitir o contrabando de ouro. Recebeste, por exemplo, do Barão Odílio Prestes uma casa bastante ampla, com ao menos três cômodos, uma cabana tripla!
CONSELHEIRO: E um sítio, onde passas os finais de semana, em pleno conforto, diante de um lago. Até compraste dois barquinhos e neles puseste o nome de teus netos.
TIRADENTES: Casa, sítio? Desculpem, não possuo nada disso. Também não tenho netos…
JUIZ MOURA: Detalhes, pormenores irrelevantes diante do relato dos colaboradores.
BÁRBARA: Protesto, Excelência!
JUIZ MOURA: Mas quem falou?
BÁRBARA: Eu, a advogada, em nome da defesa.
JUIZ MOURA: Oh, ainda estás aí…
BÁRBARA: Excelência, Tiradentes é inocente destas acusações infundadas, sendo culpado apenas de desejar uma vida melhor para o povo brasileiro e esforçar-se para combater as muitas injustiças que grassam na Colônia. Já por mais de três anos, contudo, ele tem sido objeto de uma investigação politicamente motivada. Nenhuma evidência crível de culpa foi produzida, enquanto provas esmagadoras de sua inocência são descaradamente ignoradas. Este julgamento politicamente motivado ataca o Estado de Direito, a democracia e os mais básicos direitos humanos. Trata-se, de uma farsa e de uma grande preocupação para o povo brasileiro.
CONSELHEIRO: A senhora fala de povo brasileiro, como se tal coisa existisse…
BÁRBARA: Na falta de qualquer prova contra Tiradentes, vós recorreis às suas próprias convicções, baseadas em uma implacável perseguição contra um herói do povo brasileiro. Para disfarçar essa completa ausência de provas sobre sua alegada corrupção, usais supostas narrativas de inexistentes testemunhas, a quem despudoradamente premiais ou a quem cruelmente ameaçais, sempre com o intuito de deles obter aquilo que previamente desejais, ou seja, mentiras que visam a condenar Tiradentes.
JUIZ MOURA: Não deixes de notar, Senhora Advogada, que a conspiração e a corrupção foram relatadas por pessoas íntegras: o coronel Joaquim Silvério dos Reis, o tenente-coronel Basílio de Brito e o comerciante português Inácio Correia de Pamplona.
BÁRBARA: Notai, Excelência, que todos obtiveram, com isso, o perdão integral de suas dívidas, medida especialmente apreciada nestes tempos de impiedosa derrama.
CONSELHEIRO: O Conde da Diamantina acabou de confirmar os crimes de Tiradentes.
BÁRBARA: Um infeliz, submetido a tortura, que deve estar a caminho de suicidar-se…
TIRADENTES: Os argumentos e a razão agora não mais adiantam… Meus acusadores sabem que não roubei, não fui corrompido e que meus atos visam tão-somente a justiça. Mas não podem recuar depois de um massacre que promoveram publicamente. Tornaram-se prisioneiros das mentiras que criaram a partir de narrativas facciosas e mal apuradas. Estão condenados a me condenar e devem avaliar que se não me prenderem, serão eles os desmoralizados perante o mesmo povo brasileiro que eles dizem que não existe.
JUIZ MOURA: Não te foi concedida a palavra! Não ouses novamente falar sem ter sido perguntado! O interrogatório, aliás, já se alonga desnecessariamente…
TIRADENTES: Digo isso somente porque, desde que esse processo começou, o Excelentíssimo Juiz proferiu várias palestras sentenciando que era preciso uma forte repercussão pública, porque senão ele não conseguiria prender as pessoas, e sobretudo prender as pessoas para fazer com que as pessoas delatassem. Porque tem gente que delatou bem depois que foi presa. O Conde de Diamantina está há mais de dois anos preso. De início ele disse “não, não”, mas, assim, ele ficaria a vida toda na cadeia, poderia até ir para a forca comigo. Aí ele percebe que, nesta Colônia, vale a pena delatar, que delatar é um prêmio, pra você conviver com a riqueza que você roubou. O cara está preso, no maior sufoco. Aí ele olha e vê que os outros, que delataram, estão morando em quintas de luxo, usufruindo suas lavras de ouro. Então ele pensa: Porra, eu já estou condenado, eles podem até aplicar o Manual do Santo Ofício, tem mais uns três processos contra mim e o que eu tenho que falar é apenas dizer que o Tiradentes sabia? Este Tiradentes não faz parte da família dele, não é filho, não é genro, não é nada dele. Por que que eu vou pegar tantos anos de cadeia por causa de um mísero alferes? Assim foi com o Conde, assim foi com outros. Eu já prestei vários depoimentos, e é visível que o que menos importa é o que tenho a dizer. O processo já está pronto, a condenação já está pronta.
JUIZ MOURA: Nada disso importa. A lei está do nosso lado. Recentemente, um colega magistrado escreveu, a respeito da sentença sobre o poeta Tomás Antônio Gonzaga: “Não tenho provas contra Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura assim me permite”. Aí está, disse tudo.
BÁRBARA: De fato, não se pode alegar que este julgamento seja dissimulado. Afinal, o que o juiz Moura sempre deixou claro foi o seu viés político. Sua sentença envergonha a Colônia ao ignorar evidências esmagadoras de inocência e dirigir violações contínuas aos direitos humanos básicos e ao devido processo legal. Trata-se de um processo de exceção em que o juiz e a promotoria foram conduzidos pela política e não pela lei.
JUIZ MOURA: Chega de conversa! A audiência está encerrada! Guardas, levem o prisioneiro. Que ele agora se prepare para a forca. E para coisa pior, após sua morte. Se a advogada quiser resistir, irá também conhecer o cadafalso.
TIRADENTES: Esta caçada é parte de um método repugnante de luta política. Não é o Tiradentes que pretendem condenar, é o projeto político que represento junto com milhões de brasileiros. Na tentativa de destruir uma corrente de pensamento, estão destruindo os fundamentos da independência e da liberdade de nosso povo. Porque a única prova que existe nesse processo é a prova de meu compromisso com a verdade e a justiça, contra a opressão e a exploração de uma nação por outra, a prova da minha inocência.
Hoje me condenam à morte. Eu morro, mas eu não morro. Sobrevivo como ideia, como exemplo, como resistência. Vou para o cadafalso? Para a forca? Pois vou sem medo. Não sou apenas eu, não sou somente um. Tenho dez vidas, e todas elas vão sobreviver, a todo tempo renascer. Poderia dizer-lhe que, se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu morreria. Mas não é isso. Tenho dez vidas, e dez vidas vou viver. Na massa do povo, na forma do exemplo. Que esta é a maior contribuição que Tiradentes nos deu. É porque houve Tiradentes, que nós iremos resistir, que nós podemos acreditar.

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Entram os guardas, que agarram Tiradentes. Este luta e por certo tempo resiste. Os guardas, porém, o agridem com extrema violência, terminando por levá-lo imobilizado. O Juiz e o Conselheiro também saem. A advogada fica sozinha em cena.

BÁRBARA: Como todos aprendemos desde crianças, Tiradentes foi vítima da lei aplicada pela Metrópole de Portugal, por ter lutado pela independência do Brasil.
Na época, seu julgamento foi politicamente tendencioso. Todos os recursos judiciais foram esgotados em sua defesa, mas foi necessário prosseguir na luta política e popular até que sua verdade fosse reconhecida.
A repressão aos Inconfidentes teve um impacto enorme na vida da Colônia, não só no adiamento da Independência, mas também no prosseguimento da escravidão. Valeu-se de métodos torpes, como o assassinato do poeta Cláudio Manuel da Costa, registrado então como suicídio. Pelo laudo, o poeta teria se enforcado usando os cadarços de seu calção, forçando o corpo para baixo. A mesma farsa que seria usado em relação ao jornalista Vladimir Herzog, quase 200 anos mais tarde.
Hoje, entretanto, Tiradentes reconhecido como um herói de nossa pátria, e há milhares de praças, escolas, avenidas e um feriado nacional em honra a Tiradentes.
A História, por fim, o absolveu.
Assim a História também julgará este momento, obscuro e golpista, pelo qual passamos. Absolverá os inocentes que hoje a lei julga culpados. E condenará estes muitos ditadores, corruptos e entreguistas que hoje se propagam como honestos salvadores da Pátria.
Eles julgam que nos vencerão porque acreditam que somos fracos porque somos generosos. Temos, de fato, o coração aberto para as dores da humanidade. Eles, porém, desconhecem a força de nossa convicção, de nossa militância aplicada à História.

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Vem á boca de cena o mesmo componente da banda que declamou o soneto de abertura.

SONETO FINAL – CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence o tigre, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.

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CANÇÃO FINAL DA INCONFIDÊNCIA AOS NOSSOS DIAS

Em Minas,
as doutrinas mais idôneas,
insuflaram na colônia,
a insônia da elite reinol.
Levavam
palavras de independência
às lavras da Inconfidência
pelos cânticos do Sol

da Vila Rica,
da Marília de Dirceu,
da Dona Chica,
de um sonho que não morreu.

Que a História enfim,
nem na derrota sequer
se esqueceu de Joaquim
José da Silva Xavier!

Mas hoje nossa elite reativa
a justiça seletiva
que o golpe de Estado aplicou,
e o povo do Brasil vê que inda impera
a escravidão da miséria,
e a intriga vil do delator.

Pois no palco que encena a nossa História,
nosso passado de glória,
popular e nacional,
louvemos na memória Tiradentes,
que a voz dos Inconfidentes
é mais do que nunca atual.

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Apresentação de estréia do espetáculo no Espaço Mímesis, em Curitiba, em 21/4/2018.



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