Olhar Comum

retratos prediletos – manoela canta cartola

15 de julho de 2013 - por gil

Manoela, 10/11/13.

CLIQUE E OUÇA – A sorrir eu pretendo levar

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“a imagem do teatro” – fotografias de chico nogueira, gilson camargo e milla jung – hall da secretaria de estado da cultura – curitiba/pr

20 de maio de 2013 - por gil

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Eduardo Moreira e Antônio Edson, em “A Rua da Amargura” (1994). Grupo Galpão, direção Gabriel Villela. Foto Gilson Camargo.

O efêmero tornado eterno

A diversidade e a riqueza da cena teatral curitibana dos anos 90 foi intensamente registrada pelo trabalho de diversos fotógrafos locais. Entre eles, três profissionais de destaque legaram ao MIS/PR um valioso acervo que documenta o trabalho de grandes atores, expoentes de diversas gerações, como Mário Schoemberger e Guilherme Weber, entre tantos outros, e faz uma expressiva evocação da obra de alguns dos diretores paranaenses mais atuantes no período, como Marcelo Marchioro, Edson Bueno, Cleon Jacques, João Luiz Fiani e Felipe Hirsch.

Obras de Gilson Camargo nesta exposição traçam um panorama revelador de grandes momentos do teatro brasileiro, com imagens de peças apresentadas nos primeiros anos do Festival de Teatro de Curitiba, hoje o mais importante evento do gênero no país.

A qualidade técnica e artística das fotos de Chico Nogueira (também importante ator e diretor teatral), Gilson Camargo e Milla Jung aqui expostas, representam nos dias atuais um valioso testemunho da força criativa da arte teatral que acontece nos palcos curitibanos. Uma arte que embora efêmera em relação à sua dimensão temporal, se eterniza na alma de seus espectadorese e pode ainda ser revivida através da contemplação desse impressionante conjunto de imagens.

Fernando Severo, diretor do MIS/PR

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Fotos de Chico Nogueira. Na imagem maior, Mário Schoemberger em “O Ventre do Minotauro” (1998).

“Trinta e nove anos de teatro! Trinta e cinco de fotografia de teatro! Muitas peças, muitos e muitos filmes depois (essas fotos aqui são de 1998 e 1999), cá estou, mais uma vez, a reverenciar o trabalho dessas pessoas tão especiais, tão preciosas para mim: atores, diretores, técnicos, todos, enfim, com quem tive e tenho a felicidade, desde há muito, de compartilhar o palco e a vida!”
Chico Nogueira

Clique e assista a entrevista concedida por Chico Nogueira ao programa “Passado e Presente”, da ÓTV, em abril de 2013 – http://www.otv.tv.br/programa/passado-e-presente/passado-e-presente-fala-sobre-o-teatro-paranaense/

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Fotos de Gilson Camargo. Na imagem maior, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres em “Flash and Crash Days” (1992).

“Fotografar espetáculos é uma atividade constante na minha vida profissional. As fotos desta exposição foram produzidas entre os anos de 1992 e 1999 e registram meu trabalho como fotógrafo no Festival de Teatro de Curitiba, em suas primeiras edições.”
Gilson Camargo

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Fotos de Milla Jung. Na imagem maior, Guilherme Weber em “Esperando Godot” (1991).

“Falar de teatro em Curitiba passará sempre por estes dois nomes: Guilherme Weber e Felipe Hirsch. Essa juventude que veio do frio agora conquista outros públicos em outros lugares bem longe daqui. Mas está marcado, como a boa herança, todo o trabalho árduo que desenvolveram, fazendo-nos amadurecer como espectadores. É um privilégio ter tido acesso à Sutil Companhia de Teatro desde suas primeiras montagens!”
Milla Jung

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A Imagem do Teatro
De 09 de abril a 05 de julho de 2013
Hall da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná
Rua Ébano Pereira, 240, Centro, Curitiba/PR
Entrada Gratuita

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Governador do Estado do Paraná: Beto Richa
Secretário de Estado da Cultura: Paulino Viapiana
Diretora Geral: Valéria Marques Teixeira
Coordenadora do Sistema Estadual de Museus: Christiane Vianna Baptista
Diretor do Museu da Imagem e do Som do Paraná: Fernando Severo
Curadoria: Fernando Severo
Pesquisa e documentação MIS/PR: Graça Bandeira
Coordenação administrativa MIS/PR: Renildes Carli
Apoio técnico MIS/PR: Camila Macedo, Gefferson Vaz, Janaina Veiga e Mateus Bravo

chiris gomes, felipe custódio, maureen miranda e octavio camargo em “algum lugar nenhum”

31 de março de 2013 - por gil

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Falar de sonhos parece sempre leve e colorido e também é isso, ou melhor, também pode ser isso. No caso da nova peça da Clepsidra Cia de Arte, abordar o tema sonhos é falar de um instante, de um passeio da mente no universo onírico, desse assunto comum a todos aonde ideias são descobertas e perdas descortinadas, onde três atores e um músico viajam numa linha muito tênue, entre um universo de paisagens psíquicas onde o real e o imaginário andam de “mãos dadas”. Aonde o músico Octavio Camargo desenvolve sonatas de Beethoven ao vivo no piano, aonde duas irmãs interpretadas por Chiris Gomes e Maureen Miranda estão perdidas em Algum Lugar Nenhum, título da peça, ora sonhando, ora acordadas dentro do sonho, aonde o ator Felipe Custódio faz o irmão que já mora, já habita esse espaço do inconsciente. Todos de branco, todos dormindo acordados, unem-se em prol de algo além dos pesadelos, das descobertas, das lamúrias, das tolices, e sem medo de serem ingênuos se jogam nesse mar de lembranças em Algum Lugar Nenhum.

Quando estiver sonhando olhe para sua mão, procure por ela, se você conseguir vê-la vai saber que isso é sonho.

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Personagens: Rosa, Esmeralda e Anjo/guardião do sonho

Rosa: No vôo de hoje eu fiquei pensando em como o céu é longe de nossas cabeças. E quem morre, realmente vai embora? Que é incrível quando pedimos algo pra alguém que já morreu… Esse alguém nos escuta? Esse alguém olha por nós?
Esmeralda: Eu acho que sim (pausa). Porque senão, qual o sentido disso tudo?

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Esmeralda: Não vai falar? Falo eu. Sempre que eu saía para brincar, nossa mãe queria saber exatamente aonde eu iria estar. Quando eu entrava, ela me chamava para o seu quarto, me tomava nos braços, me cobria de beijos, acariciava meus cabelos e dizia: “Eu te amo tanto!”, e quando eu espirrava, ela dizia: “Saúde, você sabe o quanto eu te amo, não sabe?“, e quando eu levantava para pegar um lenço, ela dizia: “Deixe que eu pego, eu te amo tanto!”, e quando eu procurava uma caneta para fazer a lição de casa, ela dizia “Use a minha, tudo por você!”, e quando eu sentia uma coceira na perna, ela dizia: “É aqui?, deixa que eu faço isso pra você”, e quando eu dizia que ia subir para o meu quarto, ela me chamava: “O que eu posso fazer por você?, eu te amo tanto!”, e eu sempre quis dizer, mas nunca disse:
Ame-me… menos.

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Guardião: A vantagem de não se ter alguém é que também não se perde ninguém. Eu estou falando da morte. Não tenho mais tanto medo de ficar sozinho, eu já estou sozinho nos meus sonhos, sozinho em algum lugar nenhum.

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Esmeralda: Gosto de pensar que o mundo não está preparado pra mim, mas talvez a verdade seja que eu não estou preparada para o mundo. Sempre cheguei tarde para a vida. Eu não quero ser uma daquelas pessoas tristes que nunca se sentem em casa em lugar nenhum.
Rosa: Quando eu me sinto… quando sinto pena de mim, eu esquento um chá…

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CENA 4 (acordadas dentro do sonho)

Esmeralda: Eu fico desesperada quando isso acontece!
Guardião: Isso o que?
Rosa: Isso o que?
Esmeralda: Isso que aconteceu agora! Isso! Quando perco minha cabeça, minhas palavras, minhas coisas, meus amigos!
Rosa: Assim não dá! Você se desespera por qualquer coisa!
Esmeralda: O que você tá falando? Também está aí, sufocada dentro das tuas perdas, das tuas lembranças.
Rosa: Aí é que você se engana! Eu tôaqui porque gosto de procurar as minhas coisas mesmo sabendo que elas estão aqui dentro!
Guardião: Sempre penso: se eu meter a mão na caixa de fósforos assim, de primeira, tudo será sorte!!!

Cena 5 (sonho)

Rosa: Esmeralda diz que dói seu peito. Não pára de reclamar de angústia! Esmeralda chega a ser cansativa em casa; ninguém aguenta mais tanta reclamação!
Esmeralda: Numa noite…
Rosa: Numa noite de gritos agudos, a família inteira não conseguia dormir…
Esmeralda: Nessa noite minha irmã resolveu acabar com meu sofrimento.
Rosa: É , eu resolvi acabar com a dor da moça. Levantei com dificuldade de madrugada e fui conversar com ela, que já estava rouca de desespero. Esmeralda, aonde dói exatamente? (Esmeralda põe as mãos no peito com a boca aguada e os olhos tremendo).
Esmeralda: A minha irmã voltou para o quarto e trabalhou incansavelmente a noite toda! Todos os gatos da casa sobre seus pés!
Esmeralda: As sete horas da manhã todos estavam curiosos para saber o que a irmã tinha feito, trancada a noite toda, cheio de velas acesas!
Rosa: Então abri a porta do quarto dizendo: “Só quero ver Esmeralda”!
Esmeralda: Então, foram me chamar.
Guardião: Ela veio muito fraca e cambaleante feito pessoa que bebe.
Rosa: Ela veio muito fraca e cambaleante feito pessoa que bebe…
Esmeralda: É, eu vim muito fraca e cambaleante feito bêbada. Entrei no quarto dela, que, sorrindo apontou para a cama e… lá estava!
Rosa (empolgada): E lá estava a cura para suas dores no peito.
Esmeralda: Sobre a cama um lindo vestido azul bem claro, que é a cor que mais gosto!
Rosa: Que é a sua cor! Esmeralda ficou tão comovida que sua angústia… E ela finalmente pôde…
Esmeralda: Pude o que mesmo?
Rosa: Pôde… enfim, pôde…
Esmeralda: Pude…

Música: Octavio Camargo, Troy Rossilho, Chiris Gomes, Luiz Felipe Leprevost, sobre tema de Ludwig van Beethoven.

Quero ter essa fé de que vim ao mundo
Para me despir
Não para me vestir

Todos os nossos pertences no meio da rua
Onde estão os preços
Para quererem tocar o ar

Invocações das dimensões incógnitas do mundo, venham para mim
Eu sou louco, quero atravessar objetos
Quero dançar com você

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Movimentos para o adágio da Sonata nº 1, de Ludwig van Beethoven.

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CENA FINAL (acordadas)

Guardião: Já esteve mais feliz do que agora?
Rosa: Já esteve mais feliz do que agora, deitada aqui?
Esmeralda: Acho que não. Não.
Rosa: E já esteve mais triste?
Esmeralda: Não.
Rosa: Não é assim com todo mundo, sabia? Algumas pessoas, minha irmã, só ficam mais e mais felizes a cada dia.
Esmeralda: E algumas pessoas só ficam mais e mais tristes.
Rosa: E algumas pessoas como você ficam as duas coisas.
Esmeralda: E você? Está mais feliz e mais triste agora do que jamais esteve?
Rosa: Claro que sim.
Esmeralda: Por quê ?
Guardião: Porque nada me deixa mais feliz e nada me deixa mais triste do que você.
Rosa: Porque nada me deixa mais feliz e nada me deixa mais triste do que você.

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Elenco: Chiris Gomes, Felipe Custódio, Maureen Miranda e Octavio Camargo
Texto e direção: Maureen Miranda
Direção Musical: Octavio Camargo
Iluminação: Raul Freitas
Cenografia: Rhenan Queiroz
Figurinos: Maureen Miranda
Vídeo: Trunkshot Studios
Fotografia: Gilson Camargo
Design gráfico: Vinícius Sequeira
Produção geral: Bia Reiner e Felipe Custódio
Realização: Clepsidra Cia de Artes

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As imagens que ilustram esta matéria foram realizadas em dois momentos: para divulgação, durante os ensaios do espetáculo, e no Teatro José Maria Santos, em Curitiba/PR, durante sua primeira temporada.

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pela constelação do cruzeiro do sul – vila da glória/sc

30 de janeiro de 2013 - por gil

viladagloria_foto_gilsoncamargo_01_01_2013Primeiras horas do ano de 2013.

CLIQUE E OUÇA – Coro de animais do lago

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CLIQUE E OUÇA – Melpomene (de Octavio Camargo)

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Oh Melpomene, first is your art
Just as thought preceeds action
Even when the calls of here and now
Mask the existence of planning and projection

You´re the one who alternates in time the questions
And answers inside the inquiring mind
And forges the primal theatre stage
To lie behind the thinker´s eyes
Pretending not to be the very same and single
Author of the internal monologue

You assigned a Second Actor to the scene
And thus built space for the truth
To be seen in neither of them separately,
Regarding their virtues together, but in between

Like in the shining stars that bolt the sky to heaven
The Constellation of Bootes appears in the North
Suggesting lines where there are only dots

Sing to us, Muse, and renew our sight
Of the thousand pains we suffer blind

Amplify our claim through your architecture
Adding to the singer, the dancers and the choir
To publicize. Such is the plee of a Tragedy

Show us fierce cruelty in its last modernity
And bring the goat for the sacrifice
A Hero to fight hard against fate
Let his disgrace be our liberty!

,,,,,,,,,,,,,,,,,,

Oh Melpomene, tua arte é primeira
Assim como o pensar precede a ação
Mesmo que os chamados do aqui e do agora
Mascarem a existência de um plano e projeção

Tu alternas no tempo as perguntas
E respostas dentro da mente que inquere
E forja o primeiro palco de teatro
Descortinado atrás dos olhos do espectador
Fingindo não ser o mesmo é unico
Autor do monólogo interior

Tu assinalaste um segundo ator para a cena
E assim criou espaço para a verdade
ser vista em nenhum dos dois em separado,
somadas as virtudes conjuntas, mas entre

Como nas estrelas luminosas que povoam a abóbada celeste
A constelação de Bootes aparece no Norte
sugerindo linhas onde havia apenas pontos

Canta-nos, Musa, e a visão renova
das mil dores que sofremos cegos

Amplifica nosso pleito em tua arquitetura
Somando à voz do cantor, a do coro e o corpo de baile
Publicizar. Tal é o pendor da Tragédia

Mostra nos a fria crueldade em sua última modernidade
E traga o bode para o sacrifício
Um herói para lutar duro contra o fado
Seja o seu suplício a nossa liberdade.

helena portela e claudete pereira jorge em “helena”

27 de novembro de 2012 - por gil

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CLIQUE E OUÇA – poema de Helena Kolody, por Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

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Helena Kolody nasceu em Cruz Machado em 12 de outubro de 1912. Seus pais, ucranianos, se conheceram e se casaram no Brasil. Helena passou a infância em Três Barras, interior do Paraná. Infância plena de sol e cigarras… é no contexto de mundo da imigração e da colonização das terras paranaenses na primeira década do século XX que Helena Kolody teve seu primeiro contato com a natureza e a realidade circundantes.

Sou brasileira, de pais ucranianos. Poderia ter sido Olena. Sou Helena, uma paranaense, cidadã honorária de Curitiba.
Minha infância transcorreu no interior em meio à natureza: rios, árvores, flores, vento, chuva e animais.
Uma tia de Rio Negro, Rosa Kolody Procopiak, foi quem me alfabetizou. Li rápido. Escrever nem tanto. Era canhota e naquele tempo isso era um “capricho”. Obrigaram-me a utilizar a mão direita para escrever. Faço todo o resto com a esquerda.

Meu pai, embora trabalhasse muito de dia, à noite, acendia o lampião na mesa, cada um de nós se sentava em seu lugar, lendo e lendo sem parar. Líamos em ucraniano e em português. Meu pai dizia: Por manter viva a memória, mantenho viva a pátria! Assim foi minha infância, plena de leitura, sol e cigarras…..

Ao amanhecer, geava forte, mas depois fez muito sol. Minha mãe disse….
Nasci num ranchinho de chão batido, feito de tábuas toscas, morada provisória de meus pais. Embora de sangue eslavo, nasci como uma índia e orgulho-me disso. Antes do alvorecer, milhares de pássaros se punham a gorjear; eu me acordava e ficava ouvindo aquele canto. Impregnei-me de natureza desde os primeiros dias de minha vida.

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CLIQUE E OUÇA – poema de Helena Kolody, por Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Aquelas tardes em Três Barras
Plenas de sol e de cigarras!
Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros
No áspero tronco dos pessegueiros

A chuva-de-ouro
Era um tesouro
Quando floria
De áureas abelhas
Tudo zumbia
Alfombra flava
O chão cobria….
O cão travesso, de nome eslavo,
Era um amigo, quase um escravo
Merenda agreste:
Leite crioulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado
Cheirando a favo

Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda corria
Para cantar no imenso terreiro:
“Mais um  dia, Vossa senhoria…”
“Bom barqueiro! Bom barqueiro….”
Soava a canção pelo povoado inteiro

E a própria lua cirandava e ria.
Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair.
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!

No riacho claro, as segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(ai, ai, que susto! Virgem Maria!)
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos…
Longínqua infância…. Três Barras
Plena de sol e cigarras…

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(Prece)
Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
de ser o coração singelo que perdoa,
a solícita mão que espalha, sem medidas,
estrelas pela noite escura de outras vidas
e tira d’alma alheia o espinho que magoa.

Esse poema recebeu o “imprimatur” da Igreja e é lido como se fosse uma oração.
Salvou uma linda jovem, porém depressiva, do suicídio.
Antes do gesto trágico, resolveu ler o livro que eu lhe dera de presente.
Abriu-o aleatoriamente, leu “Prece”, jogou o veneno fora e ganhou a vida.
Veja só… eu tenho vários poemas depressivos…
E se ela abrisse um deles?

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CLIQUE E OUÇA – trecho do espetáculo, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Em algumas poesias, desde a sua primeira coletânea, Helena sublinha abertamente a sua ligação sanguínea e espiritual com a pátria de seus antepassados; a Ucrânia. Com sua história, seu povo, seu desejo de liberdade e finalmente, com a imigração no Brasil, suas sofridas lutas. A dor dos antepassados, despertava no espírito da poeta e em sua memória de sangue um profundo sentimento de compaixão.

Sofre e chora em mim o espírito dos meus antepassados.

CLIQUE E OUÇA – trecho do espetáculo, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Desde criança, ouvi os versos de Tarás Chewtchenko. Minha mãe sempre lia em voz alta. O poeta mais importante da  Ucrânia. Nos tempos sombrios o que restou da Ucrânia era tão somente a sua poesia. O país era o poeta. Na adolescência, cheguei a ler seus versos no original. E comecei a traduzir alguns poemas. Os ucranianos ficaram felizes e publicaram as traduções. Então, papai me disse: estão bem traduzidos, mas a tradução exige muito cuidado, porque no original, certas palavras têm uma conotação poética diferente, uma força expressional que se perdem na tradução. Eu me acovardei e não traduzi mais. As poesias do Tarás eram rimadas, eu também quis traduzir com rimas e introduzi palavras que não existiam no original e, com isso, traí o poeta. As vezes se trai sem querer…

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CLIQUE E OUÇA – poemas de Helena Kolody, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Pintou estrelas no muro
E teve o céu
Ao alcance das mãos

Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada

Que importa a nuvem no horizonte,
Chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.

Quem é essa que me olha
De tão longe
Com olhos que foram meus?

A esperança engana, mente o sonho, eu sei.
Que mentiras lindas eu mesma inventei e contei pra mim.

Não ando na rua.
Ando no mundo da lua,
Falando às estrelas.

Quase um casamento eu tive…

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CLIQUE E OUÇA – trecho do espetáculo, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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Olha, o que eu posso dizer é que amei e que ele já morreu.
Era um escritor muito inteligente, mas bebia…
Eu queria me casar e ter filhos, meu sonho sempre foi ser mãe, este é o meu sonho mais frustrado.
Então eu disse pra ele: Você tem que parar de beber. Naquele tempo eu não sabia que era uma doença, achava que ele podia parar de beber e pronto!
Ele disse: Está bem, eu paro. Dois meses ele conseguiu, depois tomou umas carraspana, daquelas de falar um monte de besteira. Eu pensei vou esperar mais um pouco; dois meses depois, mais bebedeira.
Eu disse: Eu não posso me casar com você!
Ele disse: Se você casar com outro eu morro.
Eu disse: Prometo que não caso com outro porque eu gosto de você e, se eu não caso com você, não caso com mais ninguém! E não casei.
Tenho certeza que Deus me quis poetisa, se eu tivesse me casado vocês não estariam lendo esses poemas. Marido e filhos consumiriam meu temperamento amoroso.

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Daquilo que foi escrito, Dona Helena, o que a senhora considera o mais importante em poesia, resumindo o que foi a sua vida, a sua trajetória?

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

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CLIQUE E OUÇA – trecho do espetáculo, por Claudete Pereira Jorge, Helena Portela e Octavio Camargo

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Sempre tive pra mim que eu não queria envelhecer. A própria memória se despoja de um monte de fatos e lembranças, principalmente de coisas que eu li e não lembro mais. Dos meus próprios versos eu esqueço. E com isso eu não me conformo, porque, sempre tive uma memória tão boa… eu era capaz de guardar de cor livros inteiros. Ganhei raciocínio com a idade, mas perdi muito de memória e memória é meu arquivo. Daí começo a pensar como professora de biologia: todos os dias morrem milhares de células em meu cérebro e isto não é recuperado. É muito trágico.

Mas ainda sei que sou Helena Kolody, paranaense de Cruz Machado, vivendo há  mais de meio século em Curitiba. Por vocação e escolha fui apaixonadamente professora. Acho que já falei isso… Nasci poetisa. Desde criança amei os pássaros, as palavras e as canções. Na adolescência, comecei a cantar meus sonhos em versos. De sonhos aprisionados em poemas inventei muitos livros. Acho que já falei isso também… Dedico-me agora a aplaudir as novas gerações.

Hoje moro em um apartamento cujas janelas se abrem para a praça mais movimentada da cidade. Raramente escrevo. Agora sou uma simples espectadora, igual uma camponesa que se senta no fim da tarde e vê a vida acontecer… Mas ainda sonhando… Escuto cigarras, talvez…

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Orvalho no olhar.
Constelações na memória.
Nos cabelos, luar.

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Dezenas de livros….. centenas de poemas… consagrada…..
Ainda assim ela dizia com a doçura e a humildade que lhe eram peculiar:

Todas as coisas tem seu tempo, tem alguns privilegiados, não sei se pelo
Talento ou pelo que, ficam, mas o resto se esquece, passa!
Então, muito tranquila, meu nome desenho com giz no muro do tempo.
Choveu, sumiu!

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Elenco: Claudete Pereira Jorge, Helena Portela
Texto e Direção: Rafael Camargo
Música: Octavio Camargo
Stand by: Maia Piva
Iluminação: Erica Mityko
Cenário/Figurino: Ricardo Garanhani
Programação visual: Marcelo de Angelis
Fotografia: Gilson Camargo
Gravação de áudio: Estudio do Troy
Direção de Produção: Nautilio Bronholo Portela
Coordenação de Projeto e Produção: Jewan Antunes
Realização: NBP Produções

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Minha vida é um largo rio de águas mansas
Vida sem ilusões nem esperanças
De curso sempre igual.
Rio sem a imponência das cachoeiras,
Sem o encanto verde das ilhas,
Nem o ímpeto rumoroso das corredeiras.
Sem grandes alegrias nem profundas mágoas
Rio de planície ignorada; rio, cujas águas
Passarão sem deixar memória
De sua silenciosa trajetória.
Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d’agua
Que canta e murmura na mata silenciosa.

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As imagens externas que ilustram esta matéria foram produzidas na réplica da igreja de São Miguel Arcanjo, no Memorial Ucraniano do Parque Tingui, em Curitiba, para divulgação do espetáculo. As imagens de palco foram produzidas no teatro do Sesi Portão, durante a sua primeira temporada, em outubro de 2012.

Os textos são fragmentos do original de Rafael Camargo e poemas da autora.

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Bem, aí­ está o kit divulgação Helena.

E cara, te digo: gostei muito de fazer esse trabalho. A Claudete é maravilhosa! Em tudo. Principalmente quando dizia: – não, pára, peraí­… não vamos poluir o cartaz assim… tira isso e aquilo, mantenha limpo… a cliente ideal.

No começo tive que superar uma rejeição natural à sugestão dela de usar o Aquarela, poema da Kolody que fala nas andorinhas. Imagem poética belissima, mas visualmente já banalizada. Você encontra muito por aí­ a mesma alusão.

Mas tive sorte e, depois de algumas tentativas capengas, indo a campo inclusive, cheguei à cena ideal. Aquela que cumpria com a sugestão de uma escala musical sem exagerar na referência. Alguém brincou que a andorinha que está em vôo é wirelesss, hehehehe.

Trabalhar com o azul, resgatar o azul, cor que tenho negligenciado nos últimos anos e que já foi fundamental pra mim me deixou muito feliz. E azul é a cor dos olhos da poeta. E azul e branco são as cores da Grécia, terra de origem da outra Helena, tão famosa e bela.

Deu certo. E mesmo tendo realizado o trabalho em meio a uma campanha polí­tica, ainda gosto dele. Principalmente por ter um ar tão silencioso. E azul.

A Claudete tinha razão. E, assim que tive a oportunidade fui até ela agradecer pela sugestão. No seu post, acho que vale pelo menos citar o poema como idéia mater. E se quiser reproduzir os versos, vão já aqui. No mais, é contigo.

Marcelo de Angelis

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CLIQUE E OUÇA – poemas de Helena Kolody, por Helena Portela, Claudete Pereira Jorge e Octavio Camargo

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(Pirilampejo)
O sapo engoliu
a estrelinha que piscava
no escuro do brejo.
Ficou mais sombria a noite
sem o seu pirilampejo.

(Aquarela)
Sol de primavera.
Céu azul, jardim em flor.
Risos de crianças.
Na pauta dos fios elétricos,
Uma escala de andorinhas.

primeira mesa pública compartilhada – campanha antiviolência dos artistas de curitiba

14 de novembro de 2012 - por gil

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No último domingo (11/11) durante a III Virada Cultural de Curitiba, artistas se reuniram na praça 19 de Dezembro para uma manifestação contra a violência e, sensibilizados pelo assalto sofrido pela atriz Silvia Patzsch, que foi baleada em frente a sua casa, realizaram neste ato a Primeira Mesa Pública Compartilhada, destinada a promover através de encontros em locais públicos, o pensamento, a discussão e a elaboração de proposições para o combate à violência em nossa cidade.

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É o seguinte: a gente resolveu ocupar a praça porque a praça está virando o espaço do medo, o espaço do risco, e a rua é o espaço da liberdade e não do medo. Eu tenho falado sobre isso. A gente precisa olhar pra essa cidade e ver que essa cidade é real! Essa Curitiba não é a Curitiba modelo que a gente tinha. Modelo é a cidade que a gente tem, se a gente olhar pra ela.
O que aconteceu com a Silvia é emblemático porque neste momento ela representa várias Silvias, vários tiros que a gente tá levando por aí…. e a gente não quer uma polícia ostensiva ou higienizar o Centro, não é disso que a gente está falando. A gente está falando que a gente está aqui e que a gente precisa fazer alguma coisa… a gente está se reunindo num domingo de manhã, compartilhando uma mesa, a gente está discutindo e conversando sobre o que podemos fazer ao invés de curtir, compartilhar e criticar apenas virtualmente. Que a gente faça esse exercício do encontro, porque o encontro é poderoso, porque eu acho que se a gente se encontrar a gente vai se empoderar de coisas que a gente nem sabe. E também que a gente tenha a capacidade de se indignar! A gente não se indigna mais com nada? Não é possível! Então vamos juntos ver como é que é esse exercício de a gente se afetar pelo entorno, pela nossa cidade que é essa, pela vida, enfim… é isso.
Nena Inoue, atriz e produtora teatral

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A gente precisa se desarmar, desarmar a polícia, não adianta só mais polícia na rua. A gente quer uma polícia mais habilitada, uma polícia mais humana, uma polícia que seja capaz de entender a diferença entre uma manifestação cultural e um ato de vandalismo. Então, não é só mais polícia. A gente quer que o Estado seja capaz de entender que a cultura é capaz de revitalizar espaços tomados pela delinquência, pela violência. A cultura tem essa capacidade. Se a violência é uma cultura, a paz também é uma cultura. Então estamos aqui pra propôr uma cultura de paz pra cidade. E nesse sentido seria maravilhoso que esse fosse apenas o primeiro encontro, a primeira iniciativa.
Cleber Braga, diretor de teatro

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Fala-se que o futuro é de crescimento e valorização do ser humano, mas, não é isso que nós estamos vendo e acompanhando dentro da nossa Curitiba. Que cada vez mais a gente possa estar se reunindo, que possa estar se sensibilizando e sensibilizando o outro, buscando o que a gente fez hoje todos os dias e em cada ponto dessa cidade falar sobre antiviolência, a favor da paz, a favor da união e valorização da vida com consciência e com muita arte!
George Sada, ator e diretor de teatro

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Eu acho que o marco desse movimento partiu principalmente de uma indignação do Enéas Lour, mas que se mostrou coletiva, que se mostrou assertiva e, principalmente, se mostrou produtiva. Eu acho que uma das questões muito importantes que já foi colocada é a idéia de que nós precisamos repensar todo o nosso aparato de repressão. A polícia que nós temos, a forma dela, isso já não serve mais pra uma sociedade como a de hoje. A outra coisa que eu acho importante, e que a Nena falou também, é que nós precisamos saber que a sociedade precisa estar mobilizada pra poder resolver esse problema. Esse não é só um problema de governo, não é só um problema de Estado, é um problema da cidadania, porque cada vez que uma pessoa leva um tiro, cada vez que alguém é assaltado a cidadania nossa está sendo retirada.
Agora, tem uma outra questão que me parece que é importante: o que mudou na nossa sociedade é que nós deixamos e perdemos aquele espírito comunitário. A cidade de Curitiba tem mais de 150 comunidades e nessas comunidades as pessoas não se conhecem, não se reconhecem, as pessoas não convivem. Se as pessoas passarem a conviver, passarem a se conversar pelo primeiro nome, passarem a se encontrar nos pontos de ônibus, na porta das escolas, nos postos de sáude e se tratarem de fato como membros de uma mesma comunidade, aí nós vamos conseguir prevenir a violência na sua forma mais extremada.
Eu sou daqueles que acham que pra se conseguir isso é preciso ter boas escolas, com tempo integral, onde as famílias se reúnem em torno. Mas, que a escola e as comunidades sejam fundamentalmente o nosso espaço, o espaço da arte, porque uma sociedade organizada onde todos possam ter acesso a arte e todos possam produzir arte faz com que de fato nós nos tornemos comunidade. Eu acho que é esse o movimento que a gente precisa construir. De fazer com que a educação e a arte sejam a essência das políticas públicas. Onde as pessoas possam se ver, as pessoas possam se mostrar, as pessoas possam viver a sua vida em comunidade. Porque a partir desse momento, aí sim as comunidades podem se reunir pra discutir a saúde, a educação, o transporte, a habitação, o saneamento e, fundamentalmente, juntos resolvermos o problema da violência construindo uma nova sociedade, que sem dúvida nenhuma será uma sociedade justa, mas, será também uma sociedade solidária e principalmente uma sociedade guiada por aquilo que de mais importante a humanidade já construiu, que é o Humanismo.
Vamos lá gente! Eu acho que hoje nós estamos dando uma grande lição e que esse seja apenas o primeiro passo. E novamente, Nena, Eneas, vocês são grandes! Estamos com vocês.
Marcos Cordiolli, educador e produtor cultural

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Eu quero dizer que essa idéia não é só minha. Essa idéia é minha, da Nena e do Beto Bruel! E eu quero agradecer muito a presença de todos vocês aqui. Eu acho que essa mobilização que a gente está fazendo aqui em Curitiba é um sinal de que a gente é gente. Muito obrigado a todos.
Enéas Lour, ator e diretor de teatro

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Eu acho muito legal essa manifestação, essa mesa com alimentos, as pessoas todas de branco, mas, eu acho que a gente também tem que pensar pra ir além do simbólico. Infelizmente o elemento simbólico na condição contemporânea é o mais desgastado de todos. Nós vivemos num mundo extremamente literal, com uma violência literal. Se nós pensarmos simplesmente em relações simbólicas, falta combinar, como dizia o Garrincha, “falta combinar com os russos”, porque a gente vai continuar sendo assaltado, a gente vai continuar levando bala estando de branco ou não estando de branco. Então eu acho que uma coisa extremamente importante é nós pensarmos na possibilidade de tocar isso aqui pra frente, e pra frente mesmo, porque nos tempos atuais ninguém está seguro.
E aí eu vou contar uma estorinha pra vocês que eu contei pra Nena. Eu tenho uma galeria de arte lá no Centro e todo dia o pessoal vai fumar crack na frente da minha galeria. Aí eu canso de dizer: por favor saiam daqui, por favor saiam daqui. Até que um dia eu perguntei pro sujeito: porque é que você fica aqui fumando crack? E ele me disse o seguinte: porque aqui é mais seguro. Eu não vou fumar do outro lado porque eu vou ser morto, vou ser assaltado, aqui tem luz sabe, aqui eu posso estar seguro pra fazer isso.
Olha, eu acho que isso coloca duas questões pra gente: de um lado, as coisas estão tão terríveis que até o pessoal da marginália também não se sente numa relação de segurança. De outro lado, é que nós do movimento cultural, dos espaços culturais, nós temos uma responsabilidade imensa nessa cidade. Se parte dessas coisas não chegaram a um termo terrível pra valer é porque existem espaços culturais aqui na cidade que estão segurando a situação. A rua 13 de Maio era muito pior antes daquela série de teatros estarem ali. A doação do espaço cultural da cidade, dos artistas, fez com que uma rua que estava completamente perdida fosse revitalizada! Então nós temos que pensar um pouquinho nos espaços culturais. A Virada Cultural em São Paulo nasceu disso, a Corrente Cultural daqui de Curitiba nasceu disso. Essas coisas nasceram como uma proposta do movimento cultural pra enfrentar esse clima de insegurança. Nós os artistas temos muito o que contribuir pra isso. Eu não sei o que pensar ou o que é que pode ser feito através de uma política de segurança pública porque eu não entendo disso. Eu sei que eu olho nas ruas e vejo que de fato está faltando policial, está faltando guarda, mas eu não entendo muito além disso. Agora, eu sei que nós artistas e nós produtores culturais podemos pensar em dar uma alternativa pra isso.
Então, eu venho aqui e queria fazer uma proposta coletiva para que nós pudessemos pensar isso conjuntamente. Eu proponho que nós pudessemos organizar e propor um fórum de cultura e violência. Um fórum onde nós pudessemos pensar essas alternativas, propostas e levasse isso pro conjunto da classe e também pros administradores culturais, pra que pudesse haver uma relação de política frente a isso. Eu acho que aí a gente sai simplesmente de uma atuação simbólica, que é muito legal essa atuação simbólica, mas é preciso, num mundo que está extremamente literal, ir além disso.
Marco Silveira Mello, galerista, Casa da Imagem

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Uma coisa que me alegra muito é saber que esse movimento que está acontecendo agora é uma atitude essencialmente amorosa. Eu acho que a única forma de você contrabalançar com a violência e com o ódio é através do amor. E isso começa com uma atitude não só simbólica, mas, energética mesmo.
Eu venho trazer notícias da Sílvia, porque eu tenho estado em contato com ela. A bala passou aqui no peito e saiu atrás da omoplata, nas costas, mas já está cicatrizando. Hoje ela deve retirar o dreno do pulmão que foi perfurado, mas, ela já está bem e está se recuperando assustadoramente rápido segundo os médicos. E essa atitude amorosa de todos aqui certamente está ajudando na sua recuperação.
Não adianta só a gente se revoltar porque a revolta é que alimenta a violência, a revolta é que fez aquele cara atirar na Silvia, ele é um revoltado! A gente não pode mais alimentar essa revolta. A gente tem que alimentar realmente essa atitude amorosa. A gente precisa de uma polícia amorosa!
Então a gente tem que mudar isso e a gente já está mudando. Quem está aqui quer paz, não quer violência. Eu acho que daqui atitudes concretas e reais vão sair com muita força, não vai ser pouco.
Katia Horn, ilustradora, cenógrafa, atriz e cantora

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Amigos, eu sou assessor do vereador Jonny Stica, que trabalha com políticas culturais e a gente tem um fato bem específico que trata exatamente disso. Nós vimos lutando pela revitalização da rua Trajano Reis que, enquanto músico é a nossa, digamos, “Avenida Augusta” de Curitiba, e é um espaço onde há uma série de artistas locais se apresentando e mostrando sua própria arte, mas que vem sofrendo muito pelas consequências do crack, e nessa semana nós conversamos com o tenente coronel Péricles e o coronel Rota. Na segunda-feira as 15 horas nós vamos ter uma reunião pra falar sobre o problema no Largo da Ordem, tendo em vista que não é um problema só da Trajano Reis. O próprio tenente coronel reconheceu que eles não sabem lidar com esse fato e eles estão interessados em mudar esse comportamento. Então eu queria sugerir que alguem de nós aqui pudesse fazer parte dessa reunião, as 15 horas na segunda feira lá no batalhão, pra gente poder levar essa discussão de que mais uma vez um companheiro nosso, uma pessoa que convive conosco e que faz arte em Curitiba sofreu as consequências dessa falta de policiamento correto, que é o que falta na nossa cidade. Então, eu venho aqui no sentido de tentar tomar alguma atitude prática pra que o nosso movimento possa surtir algum efeito já nas próximas semanas.
Igor Barros Cordeiro, músico

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Tem uma pessoa que trabalha pra mim, que vai de 15 em 15 dias na minha casa. Há coisa de uns seis anos o tio dela foi assasssinado do lado da casa dela e no ano passado o sobrinho dela foi assassinado do lado da casa dela. Curitiba é uma cidade que tem 2 milhões de habitantes, eu acho bem bacana o movimento pela Trajano, estamos juntos, mas nós como cidadãos e filhos dessa classe média, consumidores e cidadãos, precisamos nos solidarizar com a cidade como um todo. A periferia dessa cidade está abandonada! 90% dos espaços públicos de Curitiba estão no Centro da cidade. Nós temos que levar esse movimento cultural, que é maravilhoso, pra periferia da cidade também. A periferia jamais é ouvida. Então, nós temos que usar o poder que nós temos, de produtores artísticos, de pessoas conhecidas, pra efetivamente socializar o bem comum. Chega de a gente pensar só no nosso. Vamos pensar na cidade como um todo!
Ulisses Galetto, músico

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Fotografia e edição: Gilson Camargo

receitas familiares – moqueca em capítulos

11 de outubro de 2012 - por gil

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Em 12 de junho de 2012 00:18, Gilson Camargo <gilson@gilsoncamargo.com.br> escreveu:
12 jun
para Andrea, robertoeliassa., Ana
Olas.
Segue abaixo as imagens de ilustração da receita, com sugestão para o nome do prato em decassílabo tônico! (risos)
“moqueca eu tenho a ver com isso!”
Obrigado pela saborosa acolhida no fim de semana. Bom demais!
Abraço.
Gil.

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Em 12 de junho de 2012 17:55, Andrea do Rocio Caldas <andreacaldas2011@gmail.com> escreveu:
12 jun
para Gil, robertoeliassa., Ana
Maravilha de fotos! Vou pensar num texto bem inspirado.
Bj.
Andrea.

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Num dia frio de inverno, pinhão cozido é o aperitivo.

Em 5 de setembro de 2012 10:23, Andrea do Rocio Caldas <andreacaldas2011@gmail.com> escreveu:
5 set
para Gil
Querido Gil
Achei um tempo hj pra escrever. Vamos ver se faço juz às lindas fotos:

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Moqueca em capítulos
A história deste prato, na minha cozinha, acompanha os capítulos da descoberta da culinária e gastronomia como um dos prazeres supremos da minha vida…
Desde cedo, me interessei por cozinhar mas, somente aos poucos fui descobrindo o encantamento da alquimia dos ingredientes e alimentos e, no mesmo tempo em que me tornava uma mulher independente, reconstruía em mim o nexo com o feminino e toda a magia ancestral das poções e do fogo.
Assim, a moqueca aparece, primeiro, com a introdução do peixe como ingrediente que, só recentemente se incorpora ao cardápio curitibano, antes sagrado às sextas-feiras santas.
No começo entretanto, a receita desenvolvida era tímida, quase uma peixada com a mistura de tomate, cebola e pimentão, sem muito requinte, nem ousadia.
Mais à frente, com a descoberta de restaurantes praianos (o insuperável Pilequinho, no litoral paranaense…), o leite de coco entra em cena, com sua beleza e cremosidade, mas sempre aos poucos e suavemente para não nublar a força de sabor do peixe e agora também, da generosa pimenta.
E por fim, o absolutamente inigualável azeite de dendê que é na verdade, o primeiro e quase fundamental ingrediente, coroou o encantamento com a culinária do nordeste e toda a sua magia afro-brasileira, sem o quê nenhuma moqueca é de fato brasileira.
Mas atenção: a mistura e o cadinho do doce e picante, do cheiro de mar, mesmo à distância, tem de ser saboreados com a alegria da hospitalidade, da amizade e do bem-viver. E claro, com uma taça de vinho…

Andrea Caldas.

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Em 6 de setembro de 2012 22:42, Gilson Camargo <gilson@gilsoncamargo.com.br> escreveu:
6 set
para Andrea
Uebas! Maravilha!
Os dias tem sido curtos por aqui também. Vou montar o post e te envio o link final.
“mesmo à distância, tem de ser saboreados com a alegria da hospitalidade, da amizade e do bem-viver”.
Isso sim!
Valeus querida.
Bj.
Gil.

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Em 7 de setembro de 2012 07:06, Andrea do Rocio Caldas <andreacaldas2011@gmail.com> escreveu:
7 set
para Gil
Precisamos marcar outras.
Andrea.

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Sobremesa: bolo da Carol com calda de laranja.

Em 11 de outubro de 2012 12:00, Gilson Camargo <gilson@gilsoncamargo.com.br> escreveu:
11 out
para Andrea
Certo mana!
Clica! http://www.gilsoncamargo.com.br/blog/?p=7289
Bj.
Gil.

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thayana barbosa convida simone sou – teatro paiol

8 de junho de 2012 - por gil

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Thayana Barbosa é cantora, compositora, atriz, percussionista, brincante e pesquisadora. Natural de Campo Grande/MS, é radicada em Curitiba desde 1999 aonde vem desenvolvendo sua trajetória artística participando de diversos projetos, shows e grupos musicais. Entre eles destaca-se o “Mundaréu”, do qual é integrante desde 2002, tendo gravado três CD´s e um DVD e participado de inúmeras turnês pelo país.

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Nas noites de 01 e 02 de junho Thayana Barbosa recebeu a percussionista Simone Sou no palco do Teatro Paiol, em Curitiba, para duas apresentações que somaram a poesia e suavidade das composições de Thayana com o peso e força da percussão de Simone.

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O show fez parte da comemoração aos 40 anos do Teatro Paiol. Para este encontro as artistas reuniram composições próprias num repertório que expôs as nuances sonoras distintas destes dois universos musicais.

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CLIQUE E OUÇA – Onde Estou
Thayana Barbosa

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Glauco Sölter no baixo e o percussionista Vina Lacerda, que já trabalharam com Simone, mais Valderval Oliveira Filho na bateria e o multi-instrumentista Jorge Falcon, que assina também a direção artística do espetáculo e os arranjos musicais juntamente com os outros músicos formam o time de altíssima qualidade que acompanha Thayana em suas apresentações.

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CLIQUE E OUÇA – Levanta Poeira
Thayana Barbosa

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Dialogar com músicos que respeito e admiro tem sido um aprendizado grande a cada encontro. A troca de diferentes impressões revelam novos caminhos, novas sonoridades e nos percebemos num processo constante de descobertas. A entrega e dedicação de todos os envolvidos no processo me faz acreditar cada vez mais nesse encontro. Coração transbordando de felicidade e alma agradecida! Embarque no som com a gente e faça uma deliciosa viagem! Dedico esse show a minha mãe “Irô Floriano” que sempre esteve ao meu lado e me ensinou a acreditar nos sonhos e lutar por eles. Onde quer que esteja tenho certeza de que está vibrando comigo!
Thayana Barbosa

Música é a arte do encontro dos sons. O encontro é a arte de reconhecer o outro, descobrir e apreciar as diferenças. As diferenças se transformam em diálogo, argumentos que interagem e se comunicam. A comunicação é a expressão da alma e mente trabalhando juntas, em movimento constante do ser. O ser se manifesta na arte de vivenciar o outro, tocar o outro som que toca e te emociona. Música é o que vamos respirar e pulsar juntos, vinda do mundo que temos dentro de nós!
Simone Sou

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Realização: Fuá Produções
Planejamento e projeto: Julia Basso
Direção de produção: Isadora Flores
Produção executiva: Analice Trindade
Assessoria de imprensa: Daniela Carvalho
Projeto gráfico: Manoela Leão / Gusto Design
Direção musical: Jorge Falcon
Cenário e figurinos: Cristine Conde
Confecção de cenário: Trio Luz
Maquiagem: Jade Sölter
Iluminação e operação: Victor Sabbag
Sonorização: Luigi Castel
Roadie: Daniel Luz
Rigger: Jorny
Vídeo: Luciano Coelho
Fotografia: Gilson Camargo

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Da esquerda para a direita: Vina Lacerda, Simone Sou, Thayana Barbosa, Glauco Sölter, Jorge Falcon e Valderval Oliveira Filho.

“licht+licht”, cia. de ópera seca

8 de abril de 2012 - por gil

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A nova produção da Cia de Ópera Seca, que faz sua estreia nacional no Festival de Teatro de Curitiba, mostra Goethe em seu leito de morte ao pronunciar suas últimas palavras: “Licht, mehr Licht” (Luz, mais Luz). Em seu delírio, o autor alemão revê seus personagens (Fausto/Mephisto, Werther/Willelm Meister e Margarida/Charlotte). Depois de “Travesties”, de Tom Stoppard, sucesso no Festival de Curitiba em 2009 (link para minha postagem sobre Travesties naquele ano), esta é a segunda direção de Caetano Vilela para a companhia.

Criado em 1992, o evento encerra hoje sua 21ª edição com uma programação que ofereceu boas surpresas, como “Licht+Licht”, de Caetano Vilela, da Cia. de Ópera Seca (SP).
O Globo, 08/04/2012

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Sons e ruídos que se confundem, vozes sussurradas (licht mehr licht mehr licht mehr licht…) eletrocardiograma, respiração, violinos, percussão… Abre a cortina
LUZ na penumbra, vê-se apenas um pequeno bonsai e em seguida o vulto de um homem recostado numa mesa.
SOM vai ficando cada vez mais alto e insuportável… corte seco.
OFF: – Nada mais sou do que um simples viajante, um andarilho que percorre a terra! E vocês … e vocês… quem são?

– A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou isso. Essa impressão também me acompanha por toda parte. Quando vejo os estreitos limites da inteligência humana cujo único objetivo é prolongar a nossa mesquinha existência; e verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranquilidade por meio de uma resignação povoada de sonhos… tudo isso me faz emudecer.

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– Mas esse Deus, que poderá ele por mim? Devolver-me-á a juventude e a fé? Amaldiçoadas sejais, ó volúpias humanas! Amaldiçoadas sejam as correntes que me fazem rastejar nesta Terra! Amaldiçoado seja tudo o que nos ilude. A esperança vã que se escoa com a hora, os sonhos de amor ou de combate! Amaldiçoada seja a felicidade! Amaldiçoada seja a ciência! A fé e a oração! Amaldiçoada sejas, paciência! Venha a mim Satanás, a mim!

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Charlotte: – Você não cumpriu a sua palavra!
Fausto: – Eu não te prometi nada… eu não te…
Charlotte: – Eu sou uma mulher honesta. Devotada a dedicação do meu marido Albert cujo amor e fidelidade eu conheço e não é segredo para ninguém que ele o tem em grande estima… e o ama como a um irmão, não é justo esta situação que…

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Os métodos de encenação e os meios de produção do teatro, triturados por Caetano Vilela, jogam em cena Fausto, Mephisto, Meister, Hamlet, numa salada luminosa que explode a partir de zonas sombrias. Vilela parece se divertir, provocando a platéia com o que poderá intrigá-la até a irritação. Por meios transversos atinge a acomodação de quem assiste e de quem faz teatro, e detona o melhor que o Festival de Curitiba mostrou este ano.
Macksen Luiz, em http://macksenluiz.blogspot.com.br/2012/04/festivais.html?m=1

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Link para fotos de Lenise Pinheiro, do blog Cacilda, para a Folha de São Paulo.
Link para fotos de Rubens Nemitz Jr, para a fotografia oficial do Festival de Curitiba.

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– O que será desta peça? Fará sucesso junto ao público? Quanto tempo ficará em cartaz? Quantas vezes poderemos apresentá-la?

– Esqueçamos a mesquinhez do diretor e a miséria que nos paga, esqueçamos também a ingratidão do público que recompensa com aplausos sempre a pessoa errada. Faremos sucesso? Comentarão as nossas cenas nos cafés e nas tabernas? Será que encontramos o tom certo do verdadeiro teatro nacional? Devo confessar que fico apreensivo quando clamam por um teatro nacional, acredito que o folclore teutônico seja finito para tamanho clamor.

– Mas nós oferecemos a nossa contrapartida social à nação: A ARTE! O TEATRO! Minha contrapartida para a sociedade são as entranhas do próprio teatro, suas vísceras, seu sangue…

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Goethe estava cego, num quarto, e pediu para o criado abrir a janela. “Luz, mais luz”, foi seu último pedido. Ele não pedia apenas luz, pedia conhecimento. Quando você ilumina, você descortina, você mostra. E esse mostrar e esconder, entre a sombra e a luz, é um processo de conhecimento. É isso que busco desde o começo da minha carreira. Eu sou um iluminador, e esse homem pede luz.
Caetano Vilela, no blog Conteúdo Livre

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– Enquanto eu desejava elevar seus espíritos eles queriam que eu atingisse seus corações. Isso foi se tornando um fardo para mim, nada me atormentava mais que não poder encerrar-me em meu quarto…

– No meu camarim enquanto eu esperava cumprimentos sensatos à minha atuação e acreditava que elogiariam um autor que havia escolhido para interpretar lá vinham eles com estúpidos convites e sugestões de mal gosto de peças que eles queriam me ver representar…

– A exasperação já estava cegando a minha razão, eu poderia ter me matado; no entanto fui parar em outro extremo: casei-me, ou melhor, deixei que me casassem!

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O espetáculo surgiu a partir de uma pesquisa de Vilela em torno da obra de Goethe, célebre autor do pré-romantismo alemão – movimento que defendeu a criação artística como expressão plena da subjetividade, a conexão com a natureza e a libertação de regras formais pré-estabelecidas. Na confecção de “Licht+Licht” – que desembarca em São Paulo nos dias 11 e 12 de abril, no Auditório Ibirapuera -, Vilela entrelaçou três obras: “Fausto”, “Os Sofrimentos do Jovem Werther” e “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”. Ao evocar o romantismo do século XVIII, seu objetivo foi trazer à tona questões que permanecem atuais. “‘Wilhelm Meister’ é um livro de formação centrado num jovem que busca conhecimento através do teatro, abandona-o e passa a viver com os valores adquiridos – em especial, o papel do artista na sociedade e a postura ética. Goethe dizia que a contrapartida social que o artista deve dar é a própria arte.
Daniel Schenker, Valor Econômico, 04/04/12

Wagner: – O que eu queria dizer é que a luz não só está dentro de cada um, como acaba se identificando com o próprio sujeito.
Germano: – Infelizmente, constatamos que desde os tempos mais remotos os homens não fizeram progressos naturais nem nas artes nem em suas instituições civis, éticas e religiosas…
Fabi: – …antes, porém, logo se apoderaram de uma imitação não sentida, de uma falsa aplicação de experiências corretas, de uma tradição obscura, de uma procedência cômoda das gerações.

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Germano: – Ora, o que interessa ao público boquiaberto…
Fabi: – … se pode ou não explicar por que estava boquiaberto não é mesmo?

Gilson Camargo mais uma vez registrou os passos da Cia. de Ópera Seca no Festival de Curitiba, pra variar conseguiu traduzir em imagens deslumbrantes todo o nosso trabalho. Obrigado querido!
Caetano Vilela, on a Facebook

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CENA 7 – O FIM – evolução da percussão + leitmotif + fragmentos de Haydn
Levantam-se um por vez (Fabi, Germano e Wagner) e saem pelo guarda-roupa. Wagner fecha a janela antes de sair.
Evolução para final. Cama explode em luz.

CLIQUE E OUÇA – Where Is My Mind
Pixies

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Caetano Vilela durante a marcação de luz no dia da estréia, no Guairinha, em 04/04/2012.

À frente da Cia. de Ópera Seca desde 2008, o diretor Caetano Vilela diz estar mais preocupado em despertar a curiosidade intelectual do público em suas montagens do que qualquer outra coisa. Procura fazer isso num espetáculo completo, amarrando bem toda cenografia (som, luzes, coreografia) com a atuação dos personagens. “Toda minha direção depende da luz [iluminação]”, disse ele em entrevista coletiva nesta segunda-feira.
http://festivaldecuritiba.com.br/noticias/ver/65/Vilela_aborda_as_muitas_luzes_de_Goethe_em_Licht_Licht

Realização: Cia de Ópera Seca
Concepção, dramaturgia, encenação e iluminação: Caetano Vilela
Elenco: Fabiana Gugli, Germano Melo, Wagner Antônio
Assistente de Direção e Direção de Palco: Emerson Meneses
Assistente de Figurinos: Patrícia Sayuri Sato
Música originalmente composta: Edson Secco
Engenharia de som: Edson Secco
Figurino e direção de arte: Cássio Brasil
Produção SP: Artematriz Soluções Culturais
Fotografia: Gilson Camargo

língua madura – teatro paiol, curitiba/pr, 25/01/2012

27 de fevereiro de 2012 - por gil

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Língua Madura, canções para destravar a língua e o coração.

CLIQUE E OUÇA – Norma Culta
Composição: Antônio Thadeu Wojciechowski, Octavio Camargo e Bárbara Kirchner

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pra que cortar seus impulsos e deixar os pulsos intactos?
a norma culta é uma estupidez
que inflaciona o teu saber
tua dor é analfabeta
de pai e de mãe

Para esse trio de artistas paranaenses silenciar nunca foi resposta. Ou como eles mesmos dizem; “Quando nos atiramos sobre o tema RELACIONAMENTO, sabíamos da árdua tarefa que terímos pela frente. Foram três anos de comprometimento total com a idéia. Noites e mais noites em que o furor trêmulo das coisas não ditas deixou nossos nervos em frangalhos. Mas dissemos tudo, abrimos portas, destravamos a língua e o coração, como verdadeiros escafandristas da dor universal. Fundimos essa dor à  nossa e fomos em frente, amadurecemos para sofrer por conta própria e rir da nossa própria desgraça”. O resultado de todo esse esforço foi a publicação de um songbook, com letras, partituras e 2 CDs com 22 canções cada, que foi lançado no ano passado. O show Língua Madura é composto de 20 canções do grupo e alguns poemas.

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CLIQUE E OUÇA – Tenho pela frente a vida inteira
Composição: Antônio Thadeu Wojciechowski, Octavio Camargo e Bárbara Kirchner

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Quem foi ao Paiol, ontem, fez sol em minha vida. Um público adorável, magnânimo e beatífico, emanando para o palco uma vibração calorosa, imensa, revestida de amor e carinho. Me senti amado, amparado e feliz. Nâo vi nem senti a Curitiba carrasca-madrasta que tantos falam. Ontem, vivi um sonho. Obrigado, muito obrigado a todos que estavam presentes de corpo e alma e aos que só em alma.
Antônio Thadeu Wojciechowski

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O trabalho do grupo é totalmente inovador, o público fica sem referência e leva dribles o tempo todo, pela maestria das letras, melodias e harmonias. Lindas canções, doídas, engraçadas, maduras, que falam de nós e de nossas relações de uma forma profunda e muito inteligente.
Alberto Centurião, poeta, escritor e diretor de teatro

Link para download das canções do trio no site da Trama Virtual.