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primeira mesa pública compartilhada – campanha antiviolência dos artistas de curitiba

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No último domingo (11/11) durante a III Virada Cultural de Curitiba, artistas se reuniram na praça 19 de Dezembro para uma manifestação contra a violência e, sensibilizados pelo assalto sofrido pela atriz Silvia Patzsch, que foi baleada em frente a sua casa, realizaram neste ato a Primeira Mesa Pública Compartilhada, destinada a promover através de encontros em locais públicos, o pensamento, a discussão e a elaboração de proposições para o combate à violência em nossa cidade.

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É o seguinte: a gente resolveu ocupar a praça porque a praça está virando o espaço do medo, o espaço do risco, e a rua é o espaço da liberdade e não do medo. Eu tenho falado sobre isso. A gente precisa olhar pra essa cidade e ver que essa cidade é real! Essa Curitiba não é a Curitiba modelo que a gente tinha. Modelo é a cidade que a gente tem, se a gente olhar pra ela.
O que aconteceu com a Silvia é emblemático porque neste momento ela representa várias Silvias, vários tiros que a gente tá levando por aí…. e a gente não quer uma polícia ostensiva ou higienizar o Centro, não é disso que a gente está falando. A gente está falando que a gente está aqui e que a gente precisa fazer alguma coisa… a gente está se reunindo num domingo de manhã, compartilhando uma mesa, a gente está discutindo e conversando sobre o que podemos fazer ao invés de curtir, compartilhar e criticar apenas virtualmente. Que a gente faça esse exercício do encontro, porque o encontro é poderoso, porque eu acho que se a gente se encontrar a gente vai se empoderar de coisas que a gente nem sabe. E também que a gente tenha a capacidade de se indignar! A gente não se indigna mais com nada? Não é possível! Então vamos juntos ver como é que é esse exercício de a gente se afetar pelo entorno, pela nossa cidade que é essa, pela vida, enfim… é isso.
Nena Inoue, atriz e produtora teatral

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A gente precisa se desarmar, desarmar a polícia, não adianta só mais polícia na rua. A gente quer uma polícia mais habilitada, uma polícia mais humana, uma polícia que seja capaz de entender a diferença entre uma manifestação cultural e um ato de vandalismo. Então, não é só mais polícia. A gente quer que o Estado seja capaz de entender que a cultura é capaz de revitalizar espaços tomados pela delinquência, pela violência. A cultura tem essa capacidade. Se a violência é uma cultura, a paz também é uma cultura. Então estamos aqui pra propôr uma cultura de paz pra cidade. E nesse sentido seria maravilhoso que esse fosse apenas o primeiro encontro, a primeira iniciativa.
Cleber Braga, diretor de teatro

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Fala-se que o futuro é de crescimento e valorização do ser humano, mas, não é isso que nós estamos vendo e acompanhando dentro da nossa Curitiba. Que cada vez mais a gente possa estar se reunindo, que possa estar se sensibilizando e sensibilizando o outro, buscando o que a gente fez hoje todos os dias e em cada ponto dessa cidade falar sobre antiviolência, a favor da paz, a favor da união e valorização da vida com consciência e com muita arte!
George Sada, ator e diretor de teatro

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Eu acho que o marco desse movimento partiu principalmente de uma indignação do Enéas Lour, mas que se mostrou coletiva, que se mostrou assertiva e, principalmente, se mostrou produtiva. Eu acho que uma das questões muito importantes que já foi colocada é a idéia de que nós precisamos repensar todo o nosso aparato de repressão. A polícia que nós temos, a forma dela, isso já não serve mais pra uma sociedade como a de hoje. A outra coisa que eu acho importante, e que a Nena falou também, é que nós precisamos saber que a sociedade precisa estar mobilizada pra poder resolver esse problema. Esse não é só um problema de governo, não é só um problema de Estado, é um problema da cidadania, porque cada vez que uma pessoa leva um tiro, cada vez que alguém é assaltado a cidadania nossa está sendo retirada.
Agora, tem uma outra questão que me parece que é importante: o que mudou na nossa sociedade é que nós deixamos e perdemos aquele espírito comunitário. A cidade de Curitiba tem mais de 150 comunidades e nessas comunidades as pessoas não se conhecem, não se reconhecem, as pessoas não convivem. Se as pessoas passarem a conviver, passarem a se conversar pelo primeiro nome, passarem a se encontrar nos pontos de ônibus, na porta das escolas, nos postos de sáude e se tratarem de fato como membros de uma mesma comunidade, aí nós vamos conseguir prevenir a violência na sua forma mais extremada.
Eu sou daqueles que acham que pra se conseguir isso é preciso ter boas escolas, com tempo integral, onde as famílias se reúnem em torno. Mas, que a escola e as comunidades sejam fundamentalmente o nosso espaço, o espaço da arte, porque uma sociedade organizada onde todos possam ter acesso a arte e todos possam produzir arte faz com que de fato nós nos tornemos comunidade. Eu acho que é esse o movimento que a gente precisa construir. De fazer com que a educação e a arte sejam a essência das políticas públicas. Onde as pessoas possam se ver, as pessoas possam se mostrar, as pessoas possam viver a sua vida em comunidade. Porque a partir desse momento, aí sim as comunidades podem se reunir pra discutir a saúde, a educação, o transporte, a habitação, o saneamento e, fundamentalmente, juntos resolvermos o problema da violência construindo uma nova sociedade, que sem dúvida nenhuma será uma sociedade justa, mas, será também uma sociedade solidária e principalmente uma sociedade guiada por aquilo que de mais importante a humanidade já construiu, que é o Humanismo.
Vamos lá gente! Eu acho que hoje nós estamos dando uma grande lição e que esse seja apenas o primeiro passo. E novamente, Nena, Eneas, vocês são grandes! Estamos com vocês.
Marcos Cordiolli, educador e produtor cultural

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Eu quero dizer que essa idéia não é só minha. Essa idéia é minha, da Nena e do Beto Bruel! E eu quero agradecer muito a presença de todos vocês aqui. Eu acho que essa mobilização que a gente está fazendo aqui em Curitiba é um sinal de que a gente é gente. Muito obrigado a todos.
Enéas Lour, ator e diretor de teatro

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Eu acho muito legal essa manifestação, essa mesa com alimentos, as pessoas todas de branco, mas, eu acho que a gente também tem que pensar pra ir além do simbólico. Infelizmente o elemento simbólico na condição contemporânea é o mais desgastado de todos. Nós vivemos num mundo extremamente literal, com uma violência literal. Se nós pensarmos simplesmente em relações simbólicas, falta combinar, como dizia o Garrincha, “falta combinar com os russos”, porque a gente vai continuar sendo assaltado, a gente vai continuar levando bala estando de branco ou não estando de branco. Então eu acho que uma coisa extremamente importante é nós pensarmos na possibilidade de tocar isso aqui pra frente, e pra frente mesmo, porque nos tempos atuais ninguém está seguro.
E aí eu vou contar uma estorinha pra vocês que eu contei pra Nena. Eu tenho uma galeria de arte lá no Centro e todo dia o pessoal vai fumar crack na frente da minha galeria. Aí eu canso de dizer: por favor saiam daqui, por favor saiam daqui. Até que um dia eu perguntei pro sujeito: porque é que você fica aqui fumando crack? E ele me disse o seguinte: porque aqui é mais seguro. Eu não vou fumar do outro lado porque eu vou ser morto, vou ser assaltado, aqui tem luz sabe, aqui eu posso estar seguro pra fazer isso.
Olha, eu acho que isso coloca duas questões pra gente: de um lado, as coisas estão tão terríveis que até o pessoal da marginália também não se sente numa relação de segurança. De outro lado, é que nós do movimento cultural, dos espaços culturais, nós temos uma responsabilidade imensa nessa cidade. Se parte dessas coisas não chegaram a um termo terrível pra valer é porque existem espaços culturais aqui na cidade que estão segurando a situação. A rua 13 de Maio era muito pior antes daquela série de teatros estarem ali. A doação do espaço cultural da cidade, dos artistas, fez com que uma rua que estava completamente perdida fosse revitalizada! Então nós temos que pensar um pouquinho nos espaços culturais. A Virada Cultural em São Paulo nasceu disso, a Corrente Cultural daqui de Curitiba nasceu disso. Essas coisas nasceram como uma proposta do movimento cultural pra enfrentar esse clima de insegurança. Nós os artistas temos muito o que contribuir pra isso. Eu não sei o que pensar ou o que é que pode ser feito através de uma política de segurança pública porque eu não entendo disso. Eu sei que eu olho nas ruas e vejo que de fato está faltando policial, está faltando guarda, mas eu não entendo muito além disso. Agora, eu sei que nós artistas e nós produtores culturais podemos pensar em dar uma alternativa pra isso.
Então, eu venho aqui e queria fazer uma proposta coletiva para que nós pudessemos pensar isso conjuntamente. Eu proponho que nós pudessemos organizar e propor um fórum de cultura e violência. Um fórum onde nós pudessemos pensar essas alternativas, propostas e levasse isso pro conjunto da classe e também pros administradores culturais, pra que pudesse haver uma relação de política frente a isso. Eu acho que aí a gente sai simplesmente de uma atuação simbólica, que é muito legal essa atuação simbólica, mas é preciso, num mundo que está extremamente literal, ir além disso.
Marco Silveira Mello, galerista, Casa da Imagem

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Uma coisa que me alegra muito é saber que esse movimento que está acontecendo agora é uma atitude essencialmente amorosa. Eu acho que a única forma de você contrabalançar com a violência e com o ódio é através do amor. E isso começa com uma atitude não só simbólica, mas, energética mesmo.
Eu venho trazer notícias da Sílvia, porque eu tenho estado em contato com ela. A bala passou aqui no peito e saiu atrás da omoplata, nas costas, mas já está cicatrizando. Hoje ela deve retirar o dreno do pulmão que foi perfurado, mas, ela já está bem e está se recuperando assustadoramente rápido segundo os médicos. E essa atitude amorosa de todos aqui certamente está ajudando na sua recuperação.
Não adianta só a gente se revoltar porque a revolta é que alimenta a violência, a revolta é que fez aquele cara atirar na Silvia, ele é um revoltado! A gente não pode mais alimentar essa revolta. A gente tem que alimentar realmente essa atitude amorosa. A gente precisa de uma polícia amorosa!
Então a gente tem que mudar isso e a gente já está mudando. Quem está aqui quer paz, não quer violência. Eu acho que daqui atitudes concretas e reais vão sair com muita força, não vai ser pouco.
Katia Horn, ilustradora, cenógrafa, atriz e cantora

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Amigos, eu sou assessor do vereador Jonny Stica, que trabalha com políticas culturais e a gente tem um fato bem específico que trata exatamente disso. Nós vimos lutando pela revitalização da rua Trajano Reis que, enquanto músico é a nossa, digamos, “Avenida Augusta” de Curitiba, e é um espaço onde há uma série de artistas locais se apresentando e mostrando sua própria arte, mas que vem sofrendo muito pelas consequências do crack, e nessa semana nós conversamos com o tenente coronel Péricles e o coronel Rota. Na segunda-feira as 15 horas nós vamos ter uma reunião pra falar sobre o problema no Largo da Ordem, tendo em vista que não é um problema só da Trajano Reis. O próprio tenente coronel reconheceu que eles não sabem lidar com esse fato e eles estão interessados em mudar esse comportamento. Então eu queria sugerir que alguem de nós aqui pudesse fazer parte dessa reunião, as 15 horas na segunda feira lá no batalhão, pra gente poder levar essa discussão de que mais uma vez um companheiro nosso, uma pessoa que convive conosco e que faz arte em Curitiba sofreu as consequências dessa falta de policiamento correto, que é o que falta na nossa cidade. Então, eu venho aqui no sentido de tentar tomar alguma atitude prática pra que o nosso movimento possa surtir algum efeito já nas próximas semanas.
Igor Barros Cordeiro, músico

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Tem uma pessoa que trabalha pra mim, que vai de 15 em 15 dias na minha casa. Há coisa de uns seis anos o tio dela foi assasssinado do lado da casa dela e no ano passado o sobrinho dela foi assassinado do lado da casa dela. Curitiba é uma cidade que tem 2 milhões de habitantes, eu acho bem bacana o movimento pela Trajano, estamos juntos, mas nós como cidadãos e filhos dessa classe média, consumidores e cidadãos, precisamos nos solidarizar com a cidade como um todo. A periferia dessa cidade está abandonada! 90% dos espaços públicos de Curitiba estão no Centro da cidade. Nós temos que levar esse movimento cultural, que é maravilhoso, pra periferia da cidade também. A periferia jamais é ouvida. Então, nós temos que usar o poder que nós temos, de produtores artísticos, de pessoas conhecidas, pra efetivamente socializar o bem comum. Chega de a gente pensar só no nosso. Vamos pensar na cidade como um todo!
Ulisses Galetto, músico

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Fotografia e edição: Gilson Camargo



6 comentários para “primeira mesa pública compartilhada – campanha antiviolência dos artistas de curitiba”

  1. Grace Torres disse:

    Belíssimas fotos de um importantíssimo passo dado! Obrigada, amigos!

  2. Rafael Siqueira de Guimarães disse:

    Muito lindo esse encontro!

  3. Katia Drumond disse:

    Parabéns pela iniciativa desse movimento, infelizmente não pude comparecer pois já tinha um compromisso neste horário, mas divulguei no sábado durante o show que realizei com o MUV, na Boca Maldita, na Virada Cultural. Acredito que só indo as ruas podemos mostrar nossa indignação e tentar mudanças reais. Parabéns pelas belas fotos e falas!

  4. Barbara Kirchner disse:

    Que registro, Gil. Foto histórica do Homem-Nu!

  5. rubens gennaro disse:

    parabéns pela mobilização ! apoio total e irrestrito ! na próxima me avisem que tb irei. ! abraços.saúde e paz !!!!

  6. Silvia Patzsch disse:

    é isso aí!!! Somos pela Paz !!! pelo Amor compreensivo !!! e é com ações como essa criada pelos artistas paranaenses que vamos criar uma nova consciência entre todos os que partilham dessa ideia, temos mesmo de sair as ruas e praças falando e fomentando e agindo de maneria corajosa e pacífica, ocupando esse espaço que nos pertence, a todos nós cidadãos que temos o direito e o dever de acreditamos que somos muitos, unidos e reunidos num desejo bom e forte de Paz !!! e assim entrarmos nessa luta boa pela vida boa para todos!!! sem medo de ser feliz e sair livremente pela cidade!!!! essa ação é só a ponta do nosso iceberg!!! estamos todos juntos!!!

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