Olhar Comum » Arquivo » “travesties”, cia. de ópera seca – teatro guaí­ra – curitiba – 20/03/10

“travesties”, cia. de ópera seca – teatro guaí­ra – curitiba – 20/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao9
Patrícia Dinely e Germano Melo em cena de “Travesties”, de Tom Stoppard, encenada pela Companhia de Ópera Seca.

Sugestões para título em português:
“Paródias”
“Imitações Baratas”
“Farsas Burlescas”
“Pastiches”
“Transformações”

download do texto integral do espetáculo – arquivo .doc

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao33

Autor: Tom Stoppard | Direção e Iluminação: Caetano Vilela | Produção Executiva: Célia Pagan | Elenco: Germano Mello, Rodrigo Lopez, Manoel Candeias, Roberto Borges, Fabiana Gugli, Patrícia Dinely e Anette Naiman | Cenário: William Pereira | Figurinos: Olintho Malaquias e Chris Aizner | Trilha Sonora para Música Originalmente Composta: Ricardo Severo | Dramaturgia: Sergio Zeigler | Tradução Marco Antônio Pâmio | Duração: 150 minutos | Classificação: 16 anos

(…) Você acha que sabe tudo! – enquanto nós pobres imbecis achamos que estamos lutando por ideais, você tem uma profunda compreeensão do que está realmente acontecendo, lá no fundo! – você tem uma frase feita pra isso!
Henry Carr, personagem central do espetáculo

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao16

A peça se passa em Zurique, em dois locais: o vestíbulo no apartamento de Henry Carr (“A SALA”) e uma seção da Biblioteca Pública de Zurique (“A BIBLIOTECA”). A maior parte da ação se passa dentro da memória de Carr, que remonta à época da Primeira Guerra Mundial, e essa época se reflete de maneira apropriada nos cenários e figurinos, etc. Deve-se concluir que o Velho Carr está vivendo no mesmo apartamento desde essa época.

Começamos na BIBLIOTECA

Há lugares para JOYCE, LÊNIN e TZARA.
GWEN senta-se com JOYCE. Eles estão ocupados com livros, jornais, lápis… LÊNIN também escreve silenciosamente, no meio de livros e jornais. TZARA está escrevendo quando a peça começa. Em sua mesa há um chapéu e uma tesoura bem grande. TZARA acaba de escrever, depois pega a tesoura e corta o papel, palavra por palavra, e coloca tudo no seu chapéu. Quando todas as palavras estiverem dentro do chapéu, ele o chacoalha e despeja o conteúdo em cima da mesa. Ele separa rapidamente os pedaços de papel em fileiras aleatórias, virando algumas de lado, etc, e então lê o resultado em voz alta:
TZARA: Ih leite um nome Sá pele tzara
Quedê rixa é esse a tio Lennon pá rei!
Ih reste Alá suísse pasquim ih leite una ar triste,
Num Avon quer lá Hilde Clara!

CECILY (entrando): Sssshhh!

N. do T.: O poema cortado, embaralhado e rearranjado por Tzara, em sua versão “dadaísta” transforma-se em francês fonético, semelhante a “Il est um homme, s’appelle Tzara/Qui dês richesses a-t-il Le nonpareil/Il reste a La Suisse parce qu’il est um artiste/’Nous n’avons que l’art’, Il declara” (O homem de nome Tzara/de talentos sem comparação/está morando na Suíça como artista/e declara que tudo que importa é a arte). A tradução procurou a semelhança fonética no português, por orientação do próprio Stoppard.

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao23

(O palco agora pertence a CARR VELHO. A BIBLIOTECA deve ser substituída pela SALA. É desnecessário dizer que a mudança deve acontecer com o mínimo possível de interrupção e com uso de música como ponte de uma coisa para outra. É possível que CARR tenha permanecido imóvel no palco desde o início, um homem velho recordando…)

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao12-copy
O ‘velho’ Henry Carr (Germano Melo) faz um esforço para lembrar como tudo aconteceu:

CARR: Minhas memórias, é isso, então? Vida e época, amigo dos famosos… Como ele era, o James Joyce? É o que sempre me perguntam. É verdade que eu o conhecia bastante, bem no auge de seus poderes, seu gênio jorrando com toda intensidade na criação de Ulisses, bem antes que a fama e a imprensa o tornassem um monumento público para as câmeras estrangeiras – Memórias de James Joyce… Está vindo…
Para aqueles de nós que o conhecemos, a genialidade de Joyce nunca foi colocada em dúvida. Estar na presença dele era ter a certeza de um intelecto incrível, determinado em ser moldado na forma permanente de seu próprio monumento – o livro que o mundo agora conhece como Ulisses!

A memória de Carr dá voltas, retorna a cenas já visitadas, trai-se o tempo todo. Resta ao espectador embarcar não numa trama de detalhes históricos, mas numa ficção, que, com a Ópera Seca, pende para o teatro absurdo de Samuel Beckett. “Lênin começa a peça saindo da gaveta”, ilustra Vilela, que mantém a linguagem imagética de Gerald Thomas.
Gustavo Fioratti – Folha de São Paulo – 19/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao24
O ‘jovem’ Henry Carr (Germano Melo): “(…) Como eu gostaria de retornar as trincheiras! Aos meus camaradas armados. O espírito maravilhoso no meio da lama e do arame farpado. Os dias valentes e as noites medonhas …”

“O ator tem que ser canastrão. Não interessa para o público a verdade do ator, mas a verdade do jogo, que é artificial.”
Germano Mello – Portal IG – 19/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao32Tzara (Rodrigo Lopéz): “Ah o prazer, o prazer, que outra coisa pode levar a gente a algum lugar?”

Travestir-se de alguém, travestir-se de uma idéia no sentido de se apropriar disso, vestir isso, ser outra coisa… eu faço Tristan Tzara que é o fundador do movimento dadaísta, que foi uma das vanguardas históricas do século passado, mas, no segundo ato ele se traveste de Tristan Tzara, então tem esse jogo do que é histórico e o que é de mentirinha.
Rodrigo López – Blog do Festival de Curitiba

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao31

A peça Travesties encenada pela Companhia de Ópera Seca questiona a todo momento o papel do artista e sua função na sociedade, assim como a importância da Revolução nas artes. A farsa expõe diferentes aspectos artísticos com pequenos conflitos que vão desde a utilização da arte como uma ferramenta de apoio crítico pelos revolucionários até a criatividade da poesia com preocupações estéticas. Trazendo o contexto para a realidade atual, os atores brincam com a plateia em um momento da peça questionando quem é o grande artista curitibano. Rapidamente alguém responde “Leminski!” e ouve um bem-humorado “Leminski? Não conheço…” dito por Rodrigo Lopez, que interpreta Tzara.
Vitor Geron – Gazeta do Povo/PR – 21/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao7
Carr (Germano Melo) e Tzara (Rodrigo Lopéz) perguntam à platéia: “O que é um artista? De cada mil pessoas no mundo, novecentas estão dando duro, noventa estão fazendo o bem, e um único filho da puta sortudo é o artista!”

Mais do que qualquer avaliação deste texto, aparentemente anárquico, de Stoppard, é necessário registrar a coragem do diretor Caetano Vilela em encenar peça com tanta referência e humor britânico (…) Quem resistiu, pode usufruir de uma montagem vibrante, repleta de ironia e de beleza visual atordoante.
Macksen Luiz – Jornal do Brasil/RJ – 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao106

As quase três horas de espetáculo são interrompidas por um intervalo de 15 minutos que diverte boa parte dos presentes. De uma forma engraçada, o público é convidado a “dar uma volta” enquanto ouve um resumo da obra de Karl Marx que, na verdade, é utilizada como parte da brincadeira. A parada antes das últimas cenas também questiona se o público está entendendo o que se passa no palco…
Vitor Geron – Gazeta do Povo – 21/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao60Cecily (Fabiana Gugli) num embate ideológico com Carr (Germano Melo): “(…) Mas nós vivemos numa época em que a ordem social é vista como um trabalho das forças materiais; e nos foi dado um tipo completamente novo de responsabilidade, a responsabilidade de transformar a sociedade.”

O artista não é especial. Especial é o que tem a dizer. Ficamos presos ao culto à figura, que é desinteressante.
Caetano Vilela – JB Online 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao82Lenin (Roney Facchini) e sua mulher Nadia (Anette Naiman): “(…) A foto do passaporte vai ser minha usando peruca … Estou lhe escrevendo porque tenho certeza de que tudo entre nós ficará no mais absoluto sigilo”

Excelente! O texto denso e ótimo, mas deixou nosso grupo formado por Economistas, Historiadora e Psicóloga perdido em alguns momentos, pois há muitas referências (acredito que muita gente não entendeu nada), mesmo assim é muito bom. O figurino e o cenário são incríveis. A chuva de livros me deixou boquiaberto! Deveria explicar que é REALMENTE um intervalo, pois muitos não voltaram. Recomendadíssimo!
Vinicius – Campinas/SP  – Blog do Festival de Curitiba – 20/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao90Nadia (Anette Naiman) e Lenin (Roney Facchini) ‘submergem’ no fosso do teatro ao som de uma Sonata de Beethoven – ao fundo Bennett (Roberto Borges) prepara o chá das 5. Últimas palavras de Lenin: “… a obrigação é infernalmente difícil”.

Gerald Thomas disse que não tem planos de voltar ao teatro. Caso não retorne, a perda será inestimável. Afinal, suas contribuições ao desenvolvimento do teatro contemporâneo são inegáveis, a julgar pela revalorização da noção de texto em suas encenações, não mais circunscrito ao limitado plano verbal, e pela habilidade em se apropriar de dramaturgias de autores diversos (especialmente, Samuel Beckett). Em todo caso, o afastamento de Thomas não inviabilizou a continuidade da Cia. de Ópera Seca, que apresentou no Festival de Curitiba a encenação de Travesties, de Tom Stoppard, assinada por Caetano Vilela.
Daniel Schenker – Jornal do Brasil/RJ – 23/03/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao94
Chá das 5, pastelão com direito a bolo na cara. Gwendolen (Patrícia Dinely) e Cecily (Fabiana Gugli): “Ah, Gwendolen, ah, Gwendolen a Biblioteca viverá com seu legado. Agora sobrou o Sr. Tzara e seus chiliques, porque os outros bolcheviques estão num vagão especial para Petrogrado. Ah, Gwendolen, ah, Gwendolen, queria que você fosse a primeira a saber… Tristan está empenhado a lutar pelo proletariado. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer*.”

*Liberdade poética deste tradutor, que cita aqui a frase-chave da música “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, hino revolucionário no Brasil dos anos 60.
Marco Antônio Pâmio – N. do T.

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao88
Ao som de um samba Cecily (Fabiana Gugli) dança em uma auto citação sobre trabalhos anteriores da Cia. de Ópera Seca.

Parabens!
UFA!
isso nao eh um post
eh um terremoto!
LOVE
G

Gerald Thomas – no blog “Vira Lata” – 01/04/10

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao98

CARR: Grandes dias… Zurique durante a guerra. Refugiados, espiões, exilados, pintores, poetas, escritores, radicais de todo tipo. Eu conheci todos eles. Costumávamos discutir madrugada adentro… no Odeon, no Terrace…

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao105
O velho Henry Carr (Germano Melo) volta para o ‘arquivo-morto da história’ sendo traído pela sua memória:

“Eu aprendi três coisas em Zurique durante a guerra. Eu tomei nota delas. Primeira: ou você é um revolucionário ou não é, e, se não for, é melhor ser um artista do que qualquer outra coisa. Segunda: se você não consegue ser um artista, é melhor ser um revolucionário… A terceira coisa eu esqueci.”
(BLACKOUT)

travesties_foto_gilsoncamargo_curitiba20_03_10guairao103
Ao som da batida de um samba todo o elenco destrói o cenário-instalação de William Pereira.

Link para o blog de Caetano Vilela, diretor e iluminador deste espetáculo, para o qual foram produzidas estas imagens.

P.S.: “Travesties” de Tom Stoppard, com a Cia. de Ópera Seca, está aprovado na Lei Rouanet (PRONAC: 096279) para captação no valor de 865 mil reais até outubro/2010. Contatos: Vlaanderen Produções Artísticas (Flávia Furtado: flavia@vlaanderen.com.br)



6 comentários para ““travesties”, cia. de ópera seca – teatro guaí­ra – curitiba – 20/03/10”

  1. Gi disse:

    Gil,

    fotos primorosas e um trabalho de edição belíssimo. Os textos escolhidos e as fotos traduziram bem a catarse poética que esse espetáculo foi pra mim.

    beijos

  2. Tweets that mention Olhar Comum » Arquivo » travesties - cia. de ópera seca - teatro guaí­ra - curitiba - 20/03/10 -- Topsy.com disse:

    […] This post was mentioned on Twitter by caetanovilela, Ana. Ana said: TRAVESTIES " ou você é um revolucionário ou não é, e se não for, é melhor ser um artista do que qualquer coisa." http://bit.ly/d9tmLZ […]

  3. Vanessa disse:

    Foi dado um crédito errado… no comentrário creditado a Getulio Guerra, o certo é Vinícius! Foi tirado desse link:

    http://www.festivaldecuritiba.com.br/servlet/DetalhesEventoController?state=1&codEvento=413#PESQUISA

  4. fernanda disse:

    …”Estou lhe escrevendo porque tenho certeza de que tudo entre nós ficará no mais absoluto sigilo”…
    Assim como a fotografia pelo espelho… paradoxo redundante… captura de uma imagem refletida… sequestro de uma memória viva… sequela dos sentimentos implícitos no olhar do momento…
    personafer@hotmail.com

  5. Biel Carpenter disse:

    muito bom meu caro.

  6. Olhar Comum » Arquivo » “licht+licht”, cia. de ópera seca disse:

    […] Depois de “Travesties”, de Tom Stoppard, sucesso no Festival de Curitiba em 2009 (link para matéria deste blog sobre Travesties), esta é a segunda direção de Caetano Vilela para a companhia. Criado em 1992, o evento encerra […]

Deixe seu comentário

Ao acessar, percorrer e utilizar o site www.gilsoncamargo.com.br e seus sub-domínios, você estará aceitando as condições e termos aqui expressos, sendo responsável único e exclusivo, perante terceiros, sobre a (i) veracidade, (ii) legalidade, (iii) exatidão e (iv) boa-educação das informações que prestar e gerar nas caixas de comentários, isentando o mantenedor da página, de forma irrevogável e irretratável, de qualquer reclamação oriunda do mau-uso da página, pelo usuário. Se tiver qualquer dúvida a respeito de tais atributos, não comente.