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vida! – cia. brasileira de teatro

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Exilados numa cidade imaginária, dois homens e duas mulheres fazem parte de uma banda que ensaia para uma apresentação comemorativa do jubileu da cidade. Fechados numa sala vazia, convivem entre si e revelam comportamentos, relações, conflitos e histórias de suas vidas prosaicas…

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Baseado
Na obra
De Paulo
Leminski

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um dia
a gente ía ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um gingsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
p.l.

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Ranieri Gonzales e Giovana Soar.

Com “Vida”, ambicioso título de condensada abrangência, a Companhia Brasileira de Teatro estreou no Festival de Curitiba a encenação da instabilidade do teatro como extensão do inescapável da existência.
Vagamente baseado na obra do poeta curitibano Paulo Leminski, que fornece muito mais à temperatura da sua produção literária do que propriamente seus escritos, Vida percorre escaninhos do que se oculta no fluxo do cotidiano.
O teatro é usado em formas desconcertantes, que desmentem o que aparentemente seus códigos indicam, como as banalidades de tantas palavras jogadas no ar, escondendo desejos e frustrações recônditas, No lugar sem janelas, um lugar nenhum, em que se está, que já foi de passagem, e agora é de ficar, e de onde se quer sair, muitas vezes, um homem propõe perguntas, que ele mesmo tem dificuldade em responder.
Professoral, procura situar o mundo como um espaço geográfico, com turbulências geológicas, movimentos humanos que se globalizam nas similitudes, despejando, qual metralhadora faladora, na área planetária do viver, as minudências dos comentários sobre o tempo ou o patético de uma comemoração de aniversário. Onde se está, quase nunca é onde habita a humanidade de cada um, mas a constatação é de que todos nós estamos aqui.
À qual se segue a pergunta definitiva: “Alguém escapou?”.
Ainda que possa parecer complexa essa arena em que se jogam cenas que perseguem o brilho que haverá por detrás do nevoeiro do dia a dia, a encenação de Marcio Abreu é uma sequência de gestos inesperados e palavras dissonantes de estranhamento ao conhecido. Na vida e no teatro, o que se sabe nem sempre é certeza, e a representação de ambos, se situa, na perspectiva do diretor, nas evocações da memória.
O ator, que tem suas tatuagens transformadas em performance, e um poema que se transforma em canção brega são ensaios permanentes de um espetáculo que nunca está acabado, como uma banda que ensaia, e há sempre os mesmos erros no ritmo.
O cenário de Fernando Marés, que se movimenta e se amplia de modo suave, confina o dramático num espaço que se expande e contrai. A música de André Abujamra está integrada ao espírito desafiador da cena. Nadja Naira, uma figura intrigantemente silenciosa, demonstra os recursos de interpretação bem além da depurada técnica corporal.
Giovana Soar refina a sua atuação com humor de contornos irônicos. Rodrigo Ferrarini domina a torrente de palavras que derrama sobre o público, como um entertainer de uma aula.
Ranieri Gonzalez é arrebatador como o malabarista de interpretação elástica, que se transfigura a cada intervenção.
Uma atuação impecável.
Macksen Luiz – Jornal do Brasil, 25 de Março de 2010

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No momento em que o ator Ranieri Gonzalez toma impulso para um mergulho de cabeça contra a parede cenográfica do espetáculo “Vida”, fica em suspensão não só o ritmo alucinante de uma peça cheia de dilemas íntimos, com base na obra de Paulo Leminski, mas também uma espécie de simbologia metalinguística apontando o esfacelamento de fronteiras entre expressões artísticas, mais especificamente entre teatro e artes visuais.
Gustavo Fioratti, Folha de S.Paulo, 29 de março de 2010.

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba14Rodrigo Ferrarini

O que eu digo te interessa? Eu pergunto e você me diz, alguém me diz, sim eu me importo com as suas palavras, eu escuto, eu estou com você agora. E eu respiro aliviado e eu digo, eu fico feliz que voce se interesse pelas minhas palavras e que você esteja comigo agora. E fico olhando pra você (silencio) em silencio (silencio) buscando palavras pra preencher esse espaço vazio que surgiu de repente entre nós (silencio). Esse constrangimento (pausa). Eu posso dizer uma palavra qualquer, mas, uma palavra qualquer não interessa e eu pergunto: interessa a voce tudo o que eu digo? E voce me diz, alguém me diz, não exatamente, mas eu te escuto, eu posso te escutar e eu digo, entao é preciso escolher as palavras certas, palavras bonitas, senão bonitas, sinceras, ao menos sinceras, não é todo dia que tem alguém disposto a ouvir o que a gente tem a dizer e você diz, alguém me diz, há coisas boas pra se dizer a alguém que queira ouvir e eu paraliso novamente, um vazio se instala dentro de mim, um silencio, dentro de mim, escuro, como num buraco negro onde tudo desaparece, perceberam? (silencio) E entre nós novamente o silencio (pausa), e de repente, pra escapar do vazio eu pergunto voce conhece a teoria dos buracos negros? Você não responde é claro e eu fico meio constrangido, mas também que pergunta… e você diz, já ouvi falar mas não conheço os detalhes e supondo que você queira saber eu começo a contar que um buraco negro clássico é um objeto com campo gravitacional tão intenso que a velocidade de escape excede a velocidade da luz, percebe? Nem mesmo a luz pode escapar do seu interior, por isso o termo “negro”, que é a cor aparente de um objeto que não emite nem reflete luz, tornando-o de fato invisível. Já o termo “buraco” nao tem o sentido usual, mas traduz o fato de não vermos de fora o que está dentro dele, percebe? (pausa) E eu noto que de repente o ar fica mais rarefeito, uma espécie de torpor se instala entre nós e eu pergunto, você acha interessante a teoria dos buracos negros? Um assunto chato pra um dia de chuva como hoje, numa sala abafada, sem janelas. E por aí vai… E poderíamos seguir nosso diálogo e são assim os dias, entre um bocejo e outro e a esperança de algum entusiasmo que por descuido ou distração invada o ambiente. Uma coisa que me entusiasma é imaginar a possibilidade de trinta segundos sem gravidade entre nós. Eu já falei sobre isso aqui. Trinta segundos sem essa espécie de força que mantém nossos pés no chão. Algum entusiasmo nessa sensação nova de estar solto, flutuando, sem precisar fazer nenhum esforço pra se manter em pé. Eu posso fechar os olhos, você pode fechar os olhos e eu conto regressivamente a partir de agora: 30, 29, 28, 27, 26, 25… (começam a sair do chão, num truque barato de cena; silencio; música distante) 4, 3, 2, 1. (a musica fica forte, sequência imediata num ensaio musical).

vida_foto_gilsoncamargo_ciabrasileiradeteatro_29_04_10curitiba131Nadja Naira e Ranieri.

Ranieri – Eu tomei um susto quando você entrou pela porta. Eu achava que eramos só nós aqui e de repente voce chega. Bom, agora somos so nos hoje aqui. (pausa) A gente perde o habito de esperar que alguém chegue. Voce espera por alguém? Desculpe, eu nao quero te importunar com perguntas.

Nadja – Não, nada é nada.

Ranieri – Voce enxerga bem sem óculos? Eu não gosto muito, mas eu preciso usar.

Nadja – (silencio)

Ranieri – Eu fico bem de óculos?

Nadja – (olha com sutil interesse)

Ranieri – Você deve ficar bem de óculos. Voce é alta, tem o rosto fino, bem desenhado, pescoço comprido. Deixa eu ver. (coloca os oculos nela)

Nadja – (sorriso)

Ranieri – Tá otimo! Voce é alta. Magra.

(pausa)

Ranieri – Quanto você tem de altura? Voce me acha muito baixo?

(aproxima-se dela, costas com costas, e compara as alturas)

Ranieri – Eu sou baixo, né?

(silencio)

Ranieri – Minha familia toda é baixa. Eu tenho uma avô que bate aqui em mim. (mostra a medida) Na verdade dizem que tem um tio meu que era muito alto… mas eu não conheci. Ele foi embora, desapareceu. Quando chegou a época de servir o exército, ele pegou uma bicicleta, saiu de casa e nunca mais voltou. Foi visto pela última vez fumando um cigarro a toda velocidade em cima de uma bicicleta. Sempre lembram dessa história na minha familia.

(silencio)

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Giovana – Você está bem?

Nadja – Eu estou bem. Você não gosta de mim? Vocês não gostam de mim? Eu não te conheço, eu não conheço vocês. Quem são vocês? De onde vocês vieram? Alguém nasceu aqui? Ninguém nasceu aqui! A gente viaja, não é? As paisagens mudam, não é? E um dia elas não mudam mais. E você olha pra trás e não consegue mais lembrar. Da paisagem. Dos hábitos. Não consegue mais lembrar de onde você veio. A imagem vai se apagando. Quem são vocês? De onde vocês vieram? Eu cheguei aqui, eu venho todos os dias, eu faço o meu trabalho. E eu prefiro não falar. Tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar. Eu cheguei aqui, eu não conheço vocês. Eu fico quieta. Eu luto pra permanecer prescindível. Pra não fazer falta a ninguém. A gente viaja, não é?  E vocês me olham como uma estranha. E eu olho pra vocês como estranhos. Pára de olhar pra minha roupa!

Giovana – Desculpa.

Nadja – Pára de olhar pros meus sapatos. Eu cheguei aqui, eu não sou daqui. Eu não quero falar. Você me olha o tempo todo! Vocês me olham! Eu sou magra! Eu sou alta! Tenho as pernas finas e os pés pequenos, tenho sim. Tenho dois cambitos. Tenho pernas compridas. Meu nariz é adunco, eu sou pálida. Tem uma pessoa, que sempre que a gente se encontra a gente se abraça. A gente se olha e a gente já sabe. Um braço por cima, o outro por baixo e as mãos se encontram atrás. A gente se olha e a gente já sabe. Chama abraço mais. A gente é magro, a gente é pequeno, encaixa bem. Abraço mais. Só a gente sabe. Agora vocês sabem. Vocês não me conhecem, eu não conheço vocês, mas agora vocês sabem. E nós estamos aqui, não estamos?, nesta cidade, neste lugar. Alguém escapou? Eu fico quieta, eu deixo vocês triste? Vocês estão tristes? Spleen? Banzo? Blues? A tristeza de quem sabe que as coisas passam, nada dura e tudo é fluxo. Metamorfose e impermanência. Quando alguém passa a noite inteira sem dormir, o que é que aconteceu? Tá com blues. Você tem mãe, pai, irmão, irmã e namorada. Eles não estão aqui, no entanto, você quer falar com eles. O que é que acontece? Você fica com blues. Fica triste, triste de morrer. Comendo terra pra voltar pra África. Banzo. Eu estou bem aqui. Eu apenas não quero falar. E nós estamos aqui. Não estamos? Vocês estão tristes? Tudo vai bem madame, tudo vai muito bem. Um mundo satisfatório para pessoas razoáveis. E ficará nele alguém, uma só pessoa que não seja razoável? Ride, ridentes!/ Derride, derridentes! / Risonhai aos risos, rimente risandai! / Derride sorrimente! / Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores! / Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros! / Sorrisonhos, risonhos, / Sorride,ridiculai, risando, risantes,/ Hilariando, riando,/ Ride, ridentes! / Derride, derridentes!

(morre de repente)

Giovana – Oi. (pausa) Oi.

Ranieri – Ela tá meio quieta.

Giovana – Oi.(pausa) Oi! Oi! Oi! Oi!

Ranieri – Ela tá passando mal?

Giovana – Ela tá passando mal! Chama um médico! (Rani a arrasta pelos braços e sai pela porta, fica um rastro de sangue)

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Elenco
Giovana Soar
Nadja Naira
Ranieri Gonzales
Rodrigo Ferrarini

Texto e Direção
Marcio Abreu

Processo Colaborativo
Giovana Soar
Nadja Naira
Ranieri Gonzales
Rodrigo Ferrarini
Marcio Abreu

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Quem brilha?
Você lembra dos 15 minutos que fizeram diferença para o resto da sua vida?

link para blog do Projeto Vida Leminski

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5 comentários para “vida! – cia. brasileira de teatro”

  1. Gi disse:

    que espetáculo! uma festa, uma alegoria, um drama.
    feliz por ter visto e por você nos presentear com o seu olhar.
    bjs

  2. marcio disse:

    gilson, que maravilhosa “crônica” do trabalho!
    crônica visual! vc fez sua própria dramaturgia nesse espaço virtual-real.
    valeu demais. grande abraço!
    marcio.

  3. Vida! Cia. Brasileira de Teatro, por Gilson Camargo « Curitiba é um copo vazio cheio de frio disse:

    […] Confira a linda postagem de Gilson Camargo, recheada com fotos do próprio […]

  4. marcos aurelio disse:

    primo um grade abra;o p voce ranieri e marcos filho da sua tia clarinda e do seu tio joao mario voce e maximo voce mere;e …………..

  5. Luciana Ramin disse:

    Olá!

    Assisti Vida recentemente em BH no Feto… vivo em SP e estudo direção aqui… Quero agradecer pela experiência de assistir a esse trabalho… ele renovou minha fé no teatro… foi terapêutico… mágico… me transformou… obrigada e gostaria de saber quando estarão em SP, quero que mais pessoas vejam.

    Abs

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